{"id":49199,"date":"2025-06-16T17:08:34","date_gmt":"2025-06-16T17:08:34","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49199"},"modified":"2025-06-19T17:10:41","modified_gmt":"2025-06-19T17:10:41","slug":"a-anormalidade-da-fraude-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-4-2-2-2-2-2-2-337","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49199","title":{"rendered":"Din\u00e2mica social, fraude e corrup\u00e7\u00e3o \u2013 o exemplo da Dinamarca"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left\"><strong><span style=\"color: #ff0000;\"><span style=\"color: #005500;\"><span style=\"color: #ff0000;\">Ant\u00f3nio Jo\u00e3o Maia, Jornal i online<\/span><\/span><\/span><\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/ionline.sapo.pt\/2025\/06\/16\/dinamica-social-fraude-e-corrupcao-o-exemplo-da-dinamarca\/\" target=\"_blank\" rel=\" noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" style=\"width:20px;height:auto\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p><em><em>Trata-se apenas de formas diferentes de organiza\u00e7\u00e3o e de viv\u00eancia social, que podem ajudar a explicar o maior ou menor respeito pelos outros e pelas quest\u00f5es de interesse coletivo<\/em><\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>A reflex\u00e3o que trago hoje resulta da viv\u00eancia pessoal que tive esta semana na Dinamarca, pa\u00eds que, como \u00e9 sabido, surge quase todos os anos com as menores taxas de corrup\u00e7\u00e3o percebida no mundo, como mostram os rankings anualmente divulgados pela <a href=\"https:\/\/www.transparency.org\/en\/cpi\/2024?gad_source=1&amp;gad_campaignid=15272914516&amp;gbraid=0AAAAADud0D8jxEJlelBvC4uztrDz1yArt&amp;gclid=EAIaIQobChMI4rCIl5T0jQMVdJJoCR3NqhzUEAAYASAAEgKiavD_BwE\">Transpar\u00eancia Internacional<\/a> ou pelo <a href=\"https:\/\/europa.eu\/eurobarometer\/surveys\/detail\/3217\">Eurobar\u00f3metro<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que uma semana de contacto com as pessoas e a observa\u00e7\u00e3o de alguns tra\u00e7os dos seus modos de vida n\u00e3o s\u00e3o elementos suficientemente s\u00f3lidos para aferir grandes conclus\u00f5es sobre a raz\u00e3o de ser dessas perce\u00e7\u00f5es, e sobretudo porque possam ser sociedades efetivamente com menor presen\u00e7a da corrup\u00e7\u00e3o, at\u00e9 porque, pela sua natureza, estamos em presen\u00e7a de um problema tendencialmente oculto.<\/p>\n\n\n\n<p>As ci\u00eancias sociais em geral, e a antropologia em particular, dedicam-se ao estudo das circunst\u00e2ncias que modelam as rela\u00e7\u00f5es entre os humanos e o espa\u00e7o que habitam, como se adaptam a esse espa\u00e7o e criam modelos de organiza\u00e7\u00e3o social, econ\u00f3mica, pol\u00edtica e jur\u00eddica, e como edificam e partilham uma cultura comum que lhes permite comunicar e desenvolver la\u00e7os de fraternidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas solu\u00e7\u00f5es, independentemente da configura\u00e7\u00e3o que tenham, apresentam sempre uma natureza fr\u00e1gil, na medida em que t\u00eam de ser permanentemente suportadas, validadas, aprofundadas e reformuladas por todos os indiv\u00edduos, em din\u00e2micas de maior ou menor coopera\u00e7\u00e3o e coes\u00e3o social, mas nunca em solu\u00e7\u00f5es acabadas ou perfeitas \u2013 o que \u00e9 uma sociedade ou uma cultura perfeita?, ou, indo mais longe, o que \u00e9 um indiv\u00edduo perfeito, sobretudo em termos sociais e culturais?<\/p>\n\n\n\n<p>Nestas din\u00e2micas, que se se refor\u00e7am e remodelam em perman\u00eancia, em resultado do pulsar pr\u00f3prio que as caracteriza, os indiv\u00edduos e as suas posturas s\u00e3o elementos centrais. Eles, nomeadamente em resultado dos denominados processos de socializa\u00e7\u00e3o e acultura\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m das suas expectativas e circunst\u00e2ncias de vida, apresentam-se e adotam comportamentos mais ou menos conformados com as regras, independentemente de estas serem escritas ou apenas h\u00e1bitos culturais e sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>E, deste ponto de vista, o mais natural em qualquer sociedade \u00e9 que alguns indiv\u00edduos, isolados ou organizados em grupos mais ou menos extensos, movidos por fatores diversos, nomeadamente pelos seus interesses, possam adotar op\u00e7\u00f5es de vida que se afastem ou contrariem, por vezes de forma muito divergente, a regularidade das normas e das expectativas sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando estas diverg\u00eancias comportamentais assumem uma din\u00e2mica pr\u00f3pria e se tornam numa esp\u00e9cie de tend\u00eancia, podemos estar perante processos an\u00f3micos de mudan\u00e7a da ordem social e dos valores culturais, no sentido indicado por autores como \u00c9mile Durkheim e Robert Merton<\/p>\n\n\n\n<p>E ser\u00e1 neste enquadramento que falamos em processos desviantes de fraude, e, sobretudo na gest\u00e3o do Estado e das suas estruturas, de corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Deste ponto de vista, pode assumir-se que n\u00e3o existem sociedades imunes a estes problemas. Por muitos e bons controlos que existam, nomeadamente quanto \u00e0 preven\u00e7\u00e3o e controlo da fraude e da corrup\u00e7\u00e3o nas sociedades e nas organiza\u00e7\u00f5es, a possibilidade da exist\u00eancia de situa\u00e7\u00f5es desviantes nunca \u00e9 nula. A possibilidade de termos a presen\u00e7a de algum indiv\u00edduo menos alinhado com os prop\u00f3sitos da organiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 \u2013 e sempre dever\u00e1 estar \u2013 sobre a mesa. Os indiv\u00edduos, as organiza\u00e7\u00f5es e as pr\u00f3prias sociedades s\u00e3o melhor\u00e1veis!<\/p>\n\n\n\n<p>Foi deste ponto de vista que observei as pessoas com que me ia cruzando ao longo dos dias em Copenhaga, no sentido de perceber que diferen\u00e7as apresentavam nos seus comportamentos que pudessem fornecer algumas pistas para explicar os baixos \u00edndices da presen\u00e7a da corrup\u00e7\u00e3o que ali s\u00e3o percebidos (no pressuposto de que \u00e0 baixa perce\u00e7\u00e3o corresponde tamb\u00e9m a uma baixa dimens\u00e3o real do problema).<\/p>\n\n\n\n<p>E de facto existem algumas diferen\u00e7as na atitude e postura das pessoas relativamente ao que se verifica nos povos do sul da Europa. Desde logo, os sinais de calma e tranquilidade na forma como falam uns com os outros, por exemplo no aeroporto, nas esta\u00e7\u00f5es de comboio e metro e nas pr\u00f3prias viagens nos transportes, h\u00e1 uma permanente tranquilidade, traduzida por um falar disciplinado e baixa sonoridade. A pronta disponibilidade para ajudar sempre que s\u00e3o abordados por um estrangeiro \u00e9 um outro sinal relevante, e sempre acompanhado com um sorriso.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, parecem existir sinais de uma confian\u00e7a e seguran\u00e7a fortes, traduzidas por exemplo pelo facto de deixarem as bicicletas, com que diariamente se deslocam na cidade, parqueadas nos locais pr\u00f3prios, sem qualquer corrente ou cadeado a prend\u00ea-las, com a certeza de que no final do dia, quando regressarem, elas ali estar\u00e3o sem que nada lhes tenha acontecido e sem que ningu\u00e9m as tenha utilizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Um outro elemento que me pareceu interessante, que provavelmente se explica pelo \u00edndice de desenvolvimento econ\u00f3mico, traduz-se na inexist\u00eancia de mendigos, incluindo na esta\u00e7\u00e3o central de comboios, nem de sinais da exist\u00eancia de pessoas sem-abrigo. Importa referir ainda a quase inexist\u00eancia de lixo espalhado pelas ruas, mesmo nos sub\u00farbios.<\/p>\n\n\n\n<p>Com estes elementos n\u00e3o pretendo defender, nem afirmar, nem sequer sugerir, que os cidad\u00e3os do norte da Europa, nomeadamente os dinamarqueses, s\u00e3o melhores do que os de outras latitudes. Nada disso. Trata-se apenas de formas diferentes de organiza\u00e7\u00e3o e de viv\u00eancia social, que podem ajudar a explicar o maior ou menor respeito pelos outros e pelas quest\u00f5es de interesse coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Considero que as atitudes que testemunhei evidenciam acima de tudo fortes sinais de considera\u00e7\u00e3o e respeito pelo outro \u2013 se queres ser respeitado, respeita \u2013 e que porventura eles podem explicar, pelo menos em parte, a quest\u00e3o dos baixos valores de perce\u00e7\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m n\u00e3o se julgue que n\u00e3o h\u00e1 problemas de corrup\u00e7\u00e3o na Dinamarca. Ap\u00f3s uma r\u00e1pida pesquisa na net, verifiquei por exemplo que, em mar\u00e7o passado, um <a href=\"https:\/\/search.coe.int\/directorate_of_communications#{%22CoEIdentifier%22:[%220900001680b4f9f0%22],%22sort%22:[%22CoEValidationDate%20Descending%22]}\">relat\u00f3rio de avalia\u00e7\u00e3o<\/a> do GRECO recomendava \u00e0s autoridades dinamarquesas a necessidade de adotar medidas de refor\u00e7o de preven\u00e7\u00e3o e controlo da corrup\u00e7\u00e3o relativamente ao exerc\u00edcio das atividades dos membros do parlamento, dos ju\u00edzes e procuradores, e tamb\u00e9m no governo central. Identifiquei tamb\u00e9m uma <a href=\"https:\/\/cphpost.dk\/2024-05-31\/life-in-denmark\/opinion\/documentary-mirrors-a-side-of-denmark-we-would-rather-not-know-exists\/\">not\u00edcia<\/a> de 2024, com v\u00e1rias refer\u00eancias a pr\u00e1ticas de fraude, branqueamento de capitais e fuga ao fisco, envolvendo advogados, empres\u00e1rios e pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 pessoas, nem organiza\u00e7\u00f5es, nem sociedades perfeitas!<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1, sim, pessoas, organiza\u00e7\u00f5es e sociedades melhor\u00e1veis!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Jo\u00e3o Maia, Jornal i online Trata-se apenas de formas diferentes de organiza\u00e7\u00e3o e de viv\u00eancia social, que podem ajudar a explicar o maior ou menor respeito pelos outros e pelas quest\u00f5es de interesse coletivo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,129],"tags":[],"class_list":["post-49199","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-jornal-i-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49199","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=49199"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49199\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49200,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49199\/revisions\/49200"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=49199"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=49199"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=49199"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}