{"id":49182,"date":"2025-06-05T08:33:33","date_gmt":"2025-06-05T08:33:33","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49182"},"modified":"2025-06-08T17:49:16","modified_gmt":"2025-06-08T17:49:16","slug":"paradigmas-formacao-e-fraude-3-4-3-2-2-3-2-2-2-3-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49182","title":{"rendered":"Legislativas 2025, a nova dan\u00e7a do \u2018tango a tr\u00eas\u2019"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>\u00d3scar Afonso, Eco\u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n<p data-wp-editing=\"1\"><a href=\"https:\/\/eco.sapo.pt\/opiniao\/legislativas-2025-a-nova-danca-do-tango-a-tres\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-27229 size-full\" src=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/consultar.jpg\" alt=\"\" width=\"24\" height=\"24\" \/><\/a><em> O governo AD tem a oportunidade \u2014 e a responsabilidade \u2014 de deixar marca, n\u00e3o apenas pela governa\u00e7\u00e3o corrente, mas por reformas que resistam a mudan\u00e7as de ciclo e elevem o n\u00edvel de vida da popula\u00e7\u00e3o.<\/em><br \/><!--more--><\/p>\n<footer class=\"entry__footer\">\n<div class=\"author-credits\">\n<div class=\"author-credits__author\">\n<p>No rescaldo das anteriores legislativas, num outro espa\u00e7o de opini\u00e3o, aconselhei o governo a procurar, dentro do \u2018gui\u00e3o\u2019 da altura de Marcelo, \u2018dan\u00e7ar bem o tango a tr\u00eas\u2019 com os dois principais partidos da oposi\u00e7\u00e3o: dois a dois \u00e0 vez, dependendo da \u2018m\u00fasica\u2019 (tema), com profissionalismo e sem azedumes. A ideia era o governo AD procurar entendimentos com as for\u00e7as da oposi\u00e7\u00e3o consoante o tema, visando o cumprimento das respetivas promessas eleitorais, tanto quanto poss\u00edvel. Infelizmente, a t\u00e1tica partid\u00e1ria sobrep\u00f4s-se, muitas vezes, a esse gui\u00e3o ben\u00e9volo, mas as elei\u00e7\u00f5es antecipadas acabaram por chegar por via de um fator ex\u00f3geno (o famoso caso \u2018Spinumviva\u2019), j\u00e1 depois do Or\u00e7amento de Estado aprovado.<\/p>\n<p>Passado um ano e novas elei\u00e7\u00f5es legislativas, o gui\u00e3o do novo governo AD \u00e9, em tudo similar, mas ter\u00e1 de estar atento \u00e0s mudan\u00e7as de \u2018coreografia\u2019 dos parceiros de \u2018dan\u00e7a\u2019 e, sobretudo, ter\u00e1 de seguir melhor esse gui\u00e3o, at\u00e9 porque ter\u00e1 mais tempo para dan\u00e7ar, pois o \u2018sal\u00e3o de baile\u2019 estar\u00e1 aberto at\u00e9 mais tarde.<\/p>\n<p>A urg\u00eancia de reformas s\u00f3 aumentou, como mostram os resultados expressivos do designado partido \u2018antissistema\u2019 Chega, que expressam a insatisfa\u00e7\u00e3o do povo com os poucos resultados entregues pelos dois partidos que t\u00eam governado o pa\u00eds nos \u00faltimos 50 anos, sobretudo o PS, que ap\u00f3s oito anos no poder foi particularmente castigado, possivelmente porque o seu l\u00edder cessante exerceu fun\u00e7\u00f5es nesse per\u00edodo em \u00e1reas como transportes e habita\u00e7\u00e3o, em que os problemas subsistem.<\/p>\n<p>Esses insatisfeitos t\u00eam sido sistematicamente marginalizados. T\u00eam sido ignorados porque n\u00e3o controlam mercados, n\u00e3o financiam campanhas, n\u00e3o compram favores. S\u00e3o os que vivem onde o Estado n\u00e3o chega, os que foram empurrados para a periferia do discurso pol\u00edtico e para o centro do desespero social. S\u00e3o os destro\u00e7ados, os que vivem sem margem de erro, os que sobrevivem sem seguran\u00e7a, sem rede, sem voz. S\u00e3o vencidos, mas cidad\u00e3os. Vencidos, mas indispens\u00e1veis. Vencidos, mas em n\u00famero cada vez maior \u2014 e com voto. Ignorar-lhes o apelo \u00e9 n\u00e3o perceber o que verdadeiramente est\u00e1 em causa.<\/p>\n<p>A AD beneficiou de um \u2018certo estado de gra\u00e7a\u2019 por ter estado apenas um ano no poder, com medidas maioritariamente populares, e ter visto o seu trabalho interrompido por um caso que acabou por ser desvalorizado pelos eleitores. O que muda verdadeiramente no novo quadro pol\u00edtico? Em princ\u00edpio, o novo governo da AD durar\u00e1, pelo menos, dois anos \u2013 dois or\u00e7amentos de Estado \u2013, pois o novo Secret\u00e1rio-geral do PS precisar\u00e1 de tempo para \u2018reerguer\u2019 o partido com novas propostas e n\u00e3o \u00e9 cr\u00edvel que queira provocar elei\u00e7\u00f5es nesse per\u00edodo. Isto significa que o novo governo da AD ter\u00e1 um pouco mais de espa\u00e7o para pol\u00edticas e menos press\u00e3o para agradar sistematicamente ao eleitorado face \u00e0 imin\u00eancia de elei\u00e7\u00f5es legislativas antecipadas.<\/p>\n<p>Esse espa\u00e7o deve ser usado para implementar reformas, gerando os acordos necess\u00e1rios para tal \u2013 com PS e Chega, dependendo do tema \u2013, nomeadamente no que se refere \u00e0 reforma do Estado, que \u00e9 cada vez mais urgente, at\u00e9 porque v\u00e1rias das benesses distribu\u00eddas no mandato anterior, como o aumento de sal\u00e1rios em v\u00e1rias carreiras da fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica (necess\u00e1rias para apaziguar \u00e1reas cr\u00edticas como Educa\u00e7\u00e3o, Sa\u00fade e Seguran\u00e7a) elevaram a despesa permanente e a economia est\u00e1 agora menos forte, penalizando as contas p\u00fablicas, com a Comiss\u00e3o Europeia a apontar agora para um d\u00e9fice de 0,6% do PIB em 2026.<\/p>\n<p>As promessas de desagravamento fiscal (IRC e IRS) da AD, que considero cruciais, poder\u00e3o ter de ser mais graduais no tempo face \u00e0s press\u00f5es referidas, mas tal n\u00e3o ser\u00e1 um problema se o governo conseguir um acordo para a sua n\u00e3o reversibilidade com o PS ou, se este n\u00e3o estiver dispon\u00edvel, com o Chega e a IL.<\/p>\n<p>O quadro parlamentar, apesar de reconfigurado, pouco mudou em termos de aprova\u00e7\u00e3o de leis correntes. A maioria do governo AD \u00e9 \u2018maior\u2019 (como pediu o l\u00edder da AD), mas n\u00e3o absoluta, com 91 deputados, sendo os eleitos pela IL (9) insuficientes para criarem uma coliga\u00e7\u00e3o maiorit\u00e1ria \u2018moderada\u2019. O Chega passou a segunda for\u00e7a pol\u00edtica em n\u00famero de deputados (60) e l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o, ultrapassando o PS (58), que teve uma derrota expressiva, de pouco lhe valendo continuar a ser a segunda for\u00e7a em n\u00famero de votos por uma margem muito pequena, de cerca de 4 mil, face ao Chega (1.442.194 vs. 1.437.881).<\/p>\n<p>No discurso do l\u00edder da AD, ap\u00f3s ser indigitado de novo Primeiro-ministro pelo Presidente da Rep\u00fablica \u2013 \u201cassegurada a viabiliza\u00e7\u00e3o parlamentar\u201d, como refere o comunicado presidencial, pois tanto PS como Chega asseguraram votar contra a mo\u00e7\u00e3o de rejei\u00e7\u00e3o do programa de governo j\u00e1 anunciada pela CDU \u2013Lu\u00eds Montenegro afastou acordos de governo ou de incid\u00eancia parlamentar e prometeu \u201cdialogar com todos\u201d os partidos na \u201cprocura das melhores solu\u00e7\u00f5es legislativas\u201d para \u201cresponder \u00e0s necessidades dos portugueses\u201d. Ou seja, nada de diferente do que prometeu no anterior mandato e do gui\u00e3o de ent\u00e3o \u2013 que o ainda Presidente da Rep\u00fablica dever\u00e1 confirmar no discurso de tomada de posse do novo governo.<\/p>\n<p>Veremos se a perspetiva de estabilidade nos pr\u00f3ximos dois anos ser\u00e1 aproveitada pelo governo e oposi\u00e7\u00e3o de uma forma construtiva, conduzindo a entendimentos e medidas positivas para o pa\u00eds, numa \u2018dan\u00e7a do tango a tr\u00eas\u2019 mais efetiva. Montenegro sinalizou ainda que o elenco governativo ter\u00e1 poucas mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>Nos resultados eleitorais, assinalo ainda que o Chega ultrapassou o PS em n\u00famero de deputados gra\u00e7as aos dois eleitos pelos c\u00edrculos da emigra\u00e7\u00e3o, que \u2018castigaram\u2019 a incapacidade dos governos de Ant\u00f3nio Costa (na figura do l\u00edder seguinte do PS, que integrou esses governos) em reformar \u2013 de resto, Costa era assumidamente avesso \u00e0 palavra \u2018reforma\u2019 \u2013 e elevar o n\u00edvel de vida da popula\u00e7\u00e3o, para n\u00e3o ter de procurar condi\u00e7\u00f5es de vida mais dignas fora do pa\u00eds, sobretudo os jovens.<\/p>\n<p>Costa seguiu o exemplo de muitos desses jovens e emigrou, a diferen\u00e7a \u00e9 que n\u00e3o foi obrigado a isso por falta de empregos bem pagos c\u00e1. Objetivamente, cuidou bem melhor da sua vida \u2013 preparando o caminho futuro nas idas a Bruxelas como l\u00edder do governo \u2013 do que da vida dos demais portugueses enquanto c\u00e1 estava a governar.<\/p>\n<p>Retomando a an\u00e1lise novo quadro parlamentar, embora o governo AD tenha agora um n\u00famero de deputados maior do que a esquerda toda, o que n\u00e3o acontecia anteriormente, continua sujeito a ver propostas legislativas rejeitadas no Parlamento por \u2018coliga\u00e7\u00f5es negativas\u2019 (n\u00e3o coordenadas, que se saiba) de PS e Chega.<\/p>\n<p>Ressalvo ainda que o resultado da AD, embora seja melhor que o anterior, \u00e9 ainda historicamente baixo para o partido vencedor \u2013 para mais numa segunda elei\u00e7\u00e3o e ainda em \u2018estado de gra\u00e7a\u00b4, como referi \u2013 e at\u00e9 no historial dos partidos da AD, sendo pouco superior ao do PSD de Rui Rio quando era l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o, numa situa\u00e7\u00e3o muito mais dif\u00edcil, juntando os votos e mandatos do CDS.<\/p>\n<p>Uma altera\u00e7\u00e3o significativa do quadro parlamentar \u00e9 que a os partidos \u00e0 direita do Parlamento passaram a ter maioria de dois ter\u00e7os e a poder fazer altera\u00e7\u00f5es que exigem essa maioria qualificada, como uma revis\u00e3o constitucional, sem precisarem dos votos da esquerda, incluindo do PS, sendo a primeira vez que este partido deixa de ser indispens\u00e1vel nesse processo.<\/p>\n<p>Na cr\u00f3nica anterior analisei o desafio colocado pelo l\u00edder do Chega, Andr\u00e9 Ventura, de negociar com a AD e a IL uma plataforma pr\u00e9via de entendimento \u00e0 direita para a revis\u00e3o constitucional, isto ap\u00f3s a IL ter lan\u00e7ado o tema. Conclu\u00ed que essa plataforma pode fazer sentido, mas o PS deve ser envolvido numa segunda fase \u2013 pois pode dar contributos relevantes e \u00e9 positivo ter diferentes perspetivas, nomeadamente em termos de an\u00e1lise de riscos das mudan\u00e7as \u2013, tendo encontrado v\u00e1rias propostas atuais e passadas dos principais partidos que podem gerar algum consenso, mais outras possivelmente negoci\u00e1veis. Este n\u00e3o ser\u00e1 o caminho seguido, pelo menos para j\u00e1.<\/p>\n<p>Lu\u00eds Montenegro, logo ap\u00f3s ser indigitado, afirmou que a revis\u00e3o constitucional \u201cn\u00e3o \u00e9 para agora\u201d, mas n\u00e3o afastou voltar ao tema no futuro, \u201cquando houver condi\u00e7\u00f5es e (\u2026) n\u00f3s tivermos o pa\u00eds com as suas orienta\u00e7\u00f5es e as suas prioridades devidamente alinhadas\u201d e \u201ch\u00e1 tempo para tudo\u201d. Assim, Montenegro apenas adiou o tema e evitou, para j\u00e1, o desafio colocado pelo l\u00edder do Chega.<\/p>\n<p>Um problema dessa op\u00e7\u00e3o \u00e9 que o novo governo n\u00e3o se poder\u00e1 queixar quando alguma proposta for rejeitada por quest\u00f5es de constitucionalidade, e decerto o Chega vai procurar, a partir de agora, colocar em cima da mesa propostas que suscitem d\u00favidas constitucionais e a AD possa acompanhar, como a criminaliza\u00e7\u00e3o do enriquecimento il\u00edcito \u2013 uma medida importante, a meu ver \u2013, tentando mostrar que o governo n\u00e3o quer reformar.<\/p>\n<p>Penso que a AD estar\u00e1 a apostar que, se formos a elei\u00e7\u00f5es daqui a dois anos, j\u00e1 ningu\u00e9m se lembrar\u00e1 disso, mas \u00e9 um erro, a meu ver. Teria sido prefer\u00edvel Montenegro encarar j\u00e1 a quest\u00e3o de frente, aceitando o desafio e liderando o processo (a uma s\u00f3 voz em nome da AD, pois o CDS manifestou inten\u00e7\u00e3o de tamb\u00e9m apresentar propostas), colocando como condi\u00e7\u00e3o envolver o PS numa segunda fase para mais contributos, ap\u00f3s um poss\u00edvel entendimento de direita, que n\u00e3o \u00e9 dado como adquirido. Se o Chega ou a IL quiserem integrar medidas mais pol\u00e9micas, sem flexibilidade, n\u00e3o aceitarem envolvimento posterior do PS, ou o PS n\u00e3o queira, o assunto ficaria, desde j\u00e1, politicamente \u2018morto\u2019, desonerando a AD.<\/p>\n<p>Se \u2018todos fossem a jogo\u2019, a AD poderia colocar-se como \u2018construtor de pontes\u2019, o que seria certamente bem visto pelo eleitorado e bom para o pa\u00eds. O processo podia ir correndo em paralelo com a governa\u00e7\u00e3o corrente (que Montenegro considera mais priorit\u00e1ria) e de forma lenta \u2013 para devida an\u00e1lise e pondera\u00e7\u00e3o, como exige uma revis\u00e3o s\u00e9ria \u2013 em comiss\u00f5es t\u00e9cnicas e fora dos holofotes pol\u00edticos, at\u00e9 um acordo no \u00e2mbito da plataforma (antes de envolver o PS) ou, ent\u00e3o, o an\u00fancio de que n\u00e3o foi poss\u00edvel.<\/p>\n<p>A AD n\u00e3o fugiria ao confronto, mostrando firmeza e lideran\u00e7a, e evitando o risco de ser acusada pelo Chega de adiar reformas. Penso, por isso, que o novo governo da AD come\u00e7a mal logo no primeiro desafio, optando pela solu\u00e7\u00e3o mais f\u00e1cil agora, mas que poder\u00e1 trazer problemas mais \u00e0 frente.<\/p>\n<p>Outra decis\u00e3o relevante do Chega, enquanto novo l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o, foi anunciar a prepara\u00e7\u00e3o de um \u2018governo sombra\u2019 \u201cque fiscalize a atividade do governo nas v\u00e1rias \u00e1reas\u201d, constitu\u00eddo por \u201cindependentes, pessoas da sociedade civil com valor, pessoas que tenham curr\u00edculo nas \u00e1reas da sa\u00fade, da habita\u00e7\u00e3o, da economia\u201d, procurando posicionar-se como alternativa de governo quando surgirem as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es legislativas. A ideia de \u2018governo sombra\u2019 n\u00e3o \u00e9 nova, mesmo em Portugal, e at\u00e9 sou favor\u00e1vel por uma quest\u00e3o de transpar\u00eancia, mas vejamos se traz ou n\u00e3o vantagens a esse partido e, sobretudo, ao debate.<\/p>\n<p>Tenho particular curiosidade em saber quem ser\u00e1 a pessoa escolhida para a pasta \u2018sombra\u2019 das Finan\u00e7as, pois o atual programa eleitoral do Chega \u2013 com um impacto or\u00e7amental acima de 8% do PIB, segundo um estudo do ISEG \u2013, a n\u00e3o ser que seja revisto de forma respons\u00e1vel, poder\u00e1 levar o pa\u00eds a uma nova pr\u00e9-bancarrota num cen\u00e1rio de crise financeira internacional nos pr\u00f3ximos anos, que n\u00e3o est\u00e1 afastado, como referi numa outra cr\u00f3nica.<\/p>\n<p>Se Ventura acertar na \u2018profecia\u2019 de que vai ser primeiro-ministro dentro de dois anos, vai ter de moderar o programa ou ent\u00e3o encontrar algu\u00e9m que queira ser Ministro das Finan\u00e7as associado a um programa \u2018desmedido\u00b4, para ser simp\u00e1tico no termo, o que n\u00e3o ser\u00e1 f\u00e1cil, a n\u00e3o ser que seja algu\u00e9m com pouca credibilidade ou n\u00e3o importe de a perder. Na melhor das hip\u00f3teses, ser\u00e1 algu\u00e9m cred\u00edvel com o papel de ir moderando o programa do Chega e torn\u00e1-lo gradualmente exequ\u00edvel \u2013 veremos.<\/p>\n<p>Analisados os resultados eleitorais, o novo quadro parlamentar e as suas implica\u00e7\u00f5es em mat\u00e9ria de governabilidade \u2013 mais o tema da revis\u00e3o constitucional colocado pela IL e Chega \u2013, chamo a aten\u00e7\u00e3o que temos ainda, nos pr\u00f3ximos meses, mais duas elei\u00e7\u00f5es relevantes para o novo panorama pol\u00edtico dos pr\u00f3ximos anos: as aut\u00e1rquicas e as presidenciais.<\/p>\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas, a grande quest\u00e3o \u00e9 saber se o Chega consegue replicar os resultados das legislativas e angariar uma base de poder local que o consolide como segunda for\u00e7a pol\u00edtica.<\/p>\n<p>O mapa eleitoral das elei\u00e7\u00f5es legislativas mostrou uma substitui\u00e7\u00e3o do PS pelo Chega na grande maioria dos distritos do sul do pa\u00eds, mas resta saber se os candidatos ao poder local do Chega conseguem o mesmo feito, sabendo-se que o partido tem a sua notoriedade muito centrada no seu l\u00edder, Andr\u00e9 Ventura.<\/p>\n<p>Por sua vez, a nova lideran\u00e7a do PS (que ser\u00e1 conhecida no final de junho), muito provavelmente encabe\u00e7ada por Jos\u00e9 Lu\u00eds Carneiro (candidato \u00fanico, para j\u00e1), tem a oportunidade de \u2018marcar pontos\u2019 se os resultados forem acima das legislativas, conseguindo um novo el\u00e3 para o partido, mas possivelmente voltar\u00e1 a estar em competi\u00e7\u00e3o direta com o Chega e tudo depender\u00e1 da capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o de ambos os partidos. Uma nova derrota, com perda de base local, tirar\u00e1 ainda mais poder ao PS em favor do Chega. A AD estar\u00e1 relativamente imune aos resultados das aut\u00e1rquicas, a n\u00e3o ser que tenha uma derrota muito significativa, que n\u00e3o \u00e9 previs\u00edvel, ou perca nas grandes \u00e1reas metropolitanas.<\/p>\n<p>No que se refere \u00e0s elei\u00e7\u00f5es presidenciais, a sondagens apontam uma vit\u00f3ria clara \u2013 a confirmar \u2013 do Almirante Gouveia e Melo, possivelmente \u00e0 primeira volta, mesmo que o PSD tenha, no mesmo dia de lan\u00e7amento da candidatura do Almirante (29 de maio), decidido apoiar o candidato Marques Mendes, como j\u00e1 era esperado. Ironicamente, a maior vantagem do Almirante, ao contr\u00e1rio do que acontecia no passado, \u00e9 ser um candidato sem apoios dos partidos \u2013 que rejeitou, de resto \u2013, numa altura em que muitos eleitores parecem preferir candidatos \u2018fora do sistema\u2019, pela falta de respostas a problemas prementes. Ora o Almirante, como \u2018n\u00e3o pol\u00edtico\u2019 (at\u00e9 se candidatar), vem claramente de \u2018fora do sistema\u2019.<\/p>\n<p>Apesar do Almirante ainda pouco ter falado, retenho uma afirma\u00e7\u00e3o importante para o panorama pol\u00edtico a partir do pr\u00f3ximo ano, ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es presidenciais, a de considerar o incumprimento de promessas eleitorais pelo governo em fun\u00e7\u00f5es como um motivo para a dissolu\u00e7\u00e3o da Assembleia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Tal seria uma inova\u00e7\u00e3o relevante e positiva, a meu ver, que parece ter respaldo no mandato presidencial \u2013 pelo menos, n\u00e3o encontrei an\u00e1lises em contr\u00e1rio de especialistas na mat\u00e9ria \u2013, mas sublinho que exige uma an\u00e1lise adequada e sensata do contexto e das raz\u00f5es que levaram \u00e0 eventual n\u00e3o concretiza\u00e7\u00e3o de promessas \u2013 e em que extens\u00e3o, relevando a import\u00e2ncia das medidas n\u00e3o implementadas no conjunto do programa eleitoral \u2013, ap\u00f3s di\u00e1logo com o governo em fun\u00e7\u00f5es, naturalmente.<\/p>\n<p>Dentro dessa perspetiva sensata, considero a ideia das implica\u00e7\u00f5es do incumprimento de promessas eleitorais importante, dada a urg\u00eancia de reformas estruturais, se funcionar como um incentivo para os governos cumprirem as suas promessas.<\/p>\n<p>Um exemplo simples, que j\u00e1 abordei acima, \u00e9 a promessa de desagravamento fiscal da AD (IRC e IRS), que poder\u00e1 ter de ser feita de forma mais gradual no tempo se as condi\u00e7\u00f5es or\u00e7amentais e econ\u00f3micas do momento assim o ditarem. N\u00e3o faria sentido Gouveia e Melo, se vier a ser eleito Presidente, dissolver o governo passado um ano de exerc\u00edcio de fun\u00e7\u00f5es, por exemplo, se o governo tiver uma cronologia diferente dessa medida central do programa eleitoral, adaptada a novas circunst\u00e2ncias de contexto. Mas j\u00e1 teria cabimento, a meu ver, se o governo mostrasse uma incapacidade continuada de implementar essa promessa central, que tamb\u00e9m requer progressos na reforma do Estado e capacidade de obter acordos.<\/p>\n<p>Teremos de esperar por mais detalhes sobre esta nova abordagem aos poderes presidenciais por parte do Almirante, que n\u00e3o abordou o tema no lan\u00e7amento da sua candidatura, mas confirmou o seu posicionamento suprapartid\u00e1rio \u2013 tendo em vista uma maior isen\u00e7\u00e3o \u2013 e situou-se algures no centro do espectro pol\u00edtico, o que tamb\u00e9m favorece a equidist\u00e2ncia necess\u00e1ria para exercer a magistratura de influ\u00eancia da fun\u00e7\u00e3o presidencial.<\/p>\n<p>Essa magistratura de influ\u00eancia ser\u00e1 usada, afirmou, para promover a ado\u00e7\u00e3o de reformas que t\u00eam faltado para o pa\u00eds progredir e se desenvolver mais, considerando que, apesar do mundo l\u00e1 fora estar mais complexo e amea\u00e7ador \u2013 uma das motiva\u00e7\u00f5es para concorrer \u2013, os nossos bloqueios v\u00eam de dentro, por m\u00e1s decis\u00f5es, n\u00e3o decis\u00f5es e adiamento de medidas, prometendo \u2018n\u00e3o ser um mero espectador\u201d.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Portugal entra agora numa nova fase pol\u00edtica, com um novo governo da AD mais robusto (embora ainda minorit\u00e1rio), um PS em reconstru\u00e7\u00e3o e um Chega refor\u00e7ado, passando a l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o. A estabilidade que se antev\u00ea para os pr\u00f3ximos dois anos deve ser usada de forma estrat\u00e9gica: \u00e9 tempo de passar das medidas populares \u00e0s reformas estruturais.<\/p>\n<p>O governo AD tem agora a oportunidade \u2014 e a responsabilidade \u2014 de deixar marca, n\u00e3o apenas pela governa\u00e7\u00e3o corrente, mas por reformas que resistam a mudan\u00e7as de ciclo e elevem o n\u00edvel de vida da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Para isso, ter\u00e1 de construir pontes, \u00e0 esquerda e \u00e0 direita, tema a tema, com pragmatismo e vis\u00e3o de futuro. Pela primeira vez, uma revis\u00e3o constitucional pode ser feita \u00e0 direita, mas deve envolver o PS (assim o queira) para dar maior consist\u00eancia e durabilidade \u00e0s mudan\u00e7as. Adiar a resposta ao desafio do Chega para um entendimento pr\u00e9vio \u00e0 direita com vista a essa revis\u00e3o foi a op\u00e7\u00e3o mais f\u00e1cil para o novo governo de Lu\u00eds Montenegro, mas tem riscos, podendo ser usado pelo Chega para se refor\u00e7ar.<\/p>\n<p>Entendo, por isso, que a AD come\u00e7ou com o \u2018p\u00e9 errado\u2019 esta nova oportunidade para governar, pois poderia ter mostrado, desde logo, capacidade de di\u00e1logo e lideran\u00e7a desse processo. Quem n\u00e3o lidera, arrisca ser liderado.<\/p>\n<p>Concluo que o gui\u00e3o da dan\u00e7a do \u2018tango a tr\u00eas\u2019 se mant\u00e9m, mas com algumas altera\u00e7\u00f5es de coreografia:<\/p>\n<ul>\n<li>O Chega tentar\u00e1 ganhar as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es e \u00e9 melhor que mostre modera\u00e7\u00e3o e responsabilidade se quiser come\u00e7ar a influenciar a governa\u00e7\u00e3o desde j\u00e1. N\u00e3o basta anunciar um \u2018governo sombra\u2019, ter\u00e1 de rever o seu programa de forma respons\u00e1vel para se tornar uma verdadeira alternativa de governo, com a responsabilidade e o sentido de Estado que isso implica. Ser antissistema s\u00f3 tem futuro se conseguir mudar o sistema para melhor e governar a partir da\u00ed, mas precisar\u00e1 sempre dos parceiros do atual sistema para o fazer, implicando capacidade de fazer ced\u00eancias, consist\u00eancia de posi\u00e7\u00f5es e fiabilidade (palavra). Ventura at\u00e9 poder\u00e1 continuar aos ziguezagues como at\u00e9 aqui e ganhar assim as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es, mas a seguir cair\u00e1 qual \u2018\u00cdcaro que voou demasiado perto do sol\u2019 e o problema \u00e9 que Portugal cair\u00e1 com ele.<\/li>\n<li>O PS precisa de novas ideias, de sair da zona de conforto e de ter maior humidade e flexibilidade para se reerguer, ap\u00f3s um resultado eleitoral muito negativo, correndo risco da irrelev\u00e2ncia no futuro \u2013 como sucedeu a outros partidos socialistas por essa Europa fora \u2013 se n\u00e3o mudar rapidamente de rumo;<\/li>\n<li>O novo governo AD\u00a0ter\u00e1 de aprender a liderar em permanente negocia\u00e7\u00e3o com estes dois parceiros \u2013 que querer\u00e3o mostrar os novos \u2018movimentos de dan\u00e7a\u2019 \u2013 para aprovar medidas com um e com outro, procurando evitar armadilhas de entendimentos (\u2018dan\u00e7as\u2019) exclusivos, pois s\u00f3 o encostar\u00e3o a um canto, refor\u00e7ando, sobretudo, o Chega. A\u00a0AD\u00a0dever\u00e1, assim, manter uma \u2018rela\u00e7\u00e3o aberta\u2019, mas frutuosa, ao centro, sem se prender em propostas de exclusividade de PS e Chega. Ter\u00e1 ainda de estar atento a uma interpreta\u00e7\u00e3o inovadora e mais ativa da fun\u00e7\u00e3o presidencial a partir de 2026 se se confirmar que o Almirante Gouveia e Melo ser\u00e1 o pr\u00f3ximo Presidente da Rep\u00fablica.<\/li>\n<\/ul>\n<p>As pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es aut\u00e1rquicas e presidenciais podem redesenhar os equil\u00edbrios pol\u00edticos e refor\u00e7ar ou fragilizar lideran\u00e7as, mas o essencial continua a ser a capacidade de responder aos problemas concretos do pa\u00eds com medidas eficazes e n\u00e3o insistir em jogos pol\u00edticos est\u00e9reis. O tempo de governar a pensar nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es deve dar lugar a uma governa\u00e7\u00e3o que pense no pa\u00eds e nas v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/footer>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, Eco\u00a0 O governo AD tem a oportunidade \u2014 e a responsabilidade \u2014 de deixar marca, n\u00e3o apenas pela governa\u00e7\u00e3o corrente, mas por reformas que resistam a mudan\u00e7as de ciclo e elevem o n\u00edvel de vida da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,131],"tags":[],"class_list":["post-49182","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-diversos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49182","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=49182"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49182\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49184,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/49182\/revisions\/49184"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=49182"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=49182"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=49182"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}