{"id":49158,"date":"2025-05-22T20:57:25","date_gmt":"2025-05-22T20:57:25","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49158"},"modified":"2025-05-22T21:04:28","modified_gmt":"2025-05-22T21:04:28","slug":"paradigmas-formacao-e-fraude-3-4-3-2-2-3-2-2-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49158","title":{"rendered":"\u2018Profeta\u2019 Ventura tem dois anos para moderar-se ou achar o ministro das Finan\u00e7as da nova bancarrota"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>\u00d3scar Afonso, Eco\u00a0<\/strong><\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/eco.sapo.pt\/opiniao\/profeta-ventura-tem-dois-anos-para-moderar-se-ou-achar-o-ministro-das-financas-da-nova-bancarrota\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-27229\" src=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/consultar.jpg\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a>\u00a0 \u00a0 <em>A seguir ao PS, \u00e9 a AD que est\u00e1 em risco de ser ultrapassada pela direita populista se n\u00e3o mudar de rumo e promover reformas. O Pa\u00eds cansou-se de esperar.<\/em><br \/><!--more--><\/p>\n<footer class=\"entry__footer\">\n<div class=\"author-credits\">\n<div class=\"author-credits__author\">\n<p>No rescaldo dos resultados das elei\u00e7\u00f5es legislativas antecipadas de 2025, este artigo serve como um alerta para um futuro que, de improv\u00e1vel, passou a cada vez mais prov\u00e1vel e merece reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 Ventura, no discurso de celebra\u00e7\u00e3o da noite eleitoral \u2013 em que o Chega, que lidera, se tornou, provavelmente, a segunda for\u00e7a pol\u00edtica em Portugal, algo s\u00f3 poss\u00edvel de confirmar ap\u00f3s apurar os votos da emigra\u00e7\u00e3o \u2013, lembrou a sua \u2018profecia\u2019 no dia em que se tornou deputado \u00fanico, h\u00e1 seis anos, de que em oito anos se tornaria Primeiro-ministro. Estamos, portanto, a dois anos de tal poder acontecer e, perante os resultados eleitorais, essa \u2018profecia\u2019 tornou-se uma possibilidade real que deve ser analisada.<\/p>\n<p>Se os eleitores n\u00e3o se chocarem, desde j\u00e1, com os poss\u00edveis efeitos nefastos para o pa\u00eds de um futuro governo Ventura nos moldes atuais \u2013 dado o grau de suposto irrealismo e irresponsabilidade do seu programa eleitoral, que nos pode levar a todos para perto de uma nova bancarrota, como sucedeu em 2010 \u2013, ser\u00e1 a realidade a chocar contra n\u00f3s dentro em breve, \u00e9 preciso que todos estejamos cientes e avisados. Isto, a n\u00e3o ser que Ventura se modere, o que dever\u00e1 fazer se quiser mesmo vir a influenciar a governa\u00e7\u00e3o, agora ou depois.<\/p>\n<p>Do lado da AD, o risco de ser ultrapassada pelo Chega nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es legislativas \u00e9 claro. Se esta lideran\u00e7a do PSD n\u00e3o envolver o Chega em algumas mat\u00e9rias da governa\u00e7\u00e3o, com os custos pol\u00edticos associados, ter\u00e1 de ser outra lideran\u00e7a com capacidade para tal, mas poder\u00e1 j\u00e1 ser tarde. O que aconteceu ao PS nestas elei\u00e7\u00f5es \u00e9 um aviso s\u00e9rio para a AD se n\u00e3o mudar a abordagem.<\/p>\n<p>Vou-me focar, sobretudo, em quest\u00f5es econ\u00f3micas suscitadas pelo programa eleitoral do Chega, que choca tamb\u00e9m por outras quest\u00f5es, como sabemos, mas n\u00e3o cabem neste artigo.<\/p>\n<p>Come\u00e7o por descrever o chamado \u2018<strong>efeito de rebanho<\/strong>\u2019, que me parece explicar, pelo menos em parte, os resultados destas elei\u00e7\u00f5es e que poder\u00e1 continuar num futuro pr\u00f3ximo. Esse efeito refere-se \u00e0 tend\u00eancia dos agentes \u2014 sejam indiv\u00edduos, investidores ou mesmo governos \u2014 tomarem decis\u00f5es com base nas a\u00e7\u00f5es dos outros, em vez de recorrerem \u00e0 sua pr\u00f3pria an\u00e1lise racional.<\/p>\n<p>Quando se instala um clima de incerteza ou press\u00e3o social, os comportamentos imitativos \u2013 refor\u00e7ados cada vez mais pelas redes sociais, no caso dos eleitores \u2013 ganham for\u00e7a e podem criar din\u00e2micas coletivas com consequ\u00eancias nefastas para a economia, levando-a a afastar-se dos fundamentos e precipitar bolhas, desequil\u00edbrios ou mesmo colapsos financeiros. Este fen\u00f3meno \u00e9 particularmente perigoso quando aplicado \u00e0 pol\u00edtica econ\u00f3mica.<\/p>\n<p>Num contexto assim, o \u2018efeito de rebanho\u2019 pode surgir de duas formas, teoricamente:<\/p>\n<ol>\n<li>Entre os eleitores, que podem apoiar partidos populistas porque outros o fazem, num efeito de imita\u00e7\u00e3o hoje ampliado pelas redes sociais, ou pelo apelo imediatista de verem medidas que os podem beneficiar, sem pensar custo global do \u2018pacote\u2019 proposto e nas consequ\u00eancias do mesmo para o pa\u00eds.<\/li>\n<li>Nos mercados, onde os investidores \u2014 ao perceberem um caminho de irresponsabilidade or\u00e7amental e instabilidade institucional \u2014 podem come\u00e7ar a retirar capital de forma abrupta, temendo um cen\u00e1rio de bancarrota. O resultado seria o aumento dos juros da d\u00edvida p\u00fablica, fuga de investimento e poss\u00edvel exclus\u00e3o dos mercados internacionais de financiamento.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Ou seja, o risco real n\u00e3o est\u00e1 apenas nas medidas em si, mas na ilus\u00e3o coletiva que se cria em torno da viabilidade de um modelo econ\u00f3mico irrealista, promovido pelo comportamento de \u2018rebanho\u2019 e irresponsabilidade coletiva. A hist\u00f3ria econ\u00f3mica est\u00e1 repleta de exemplos \u2014 da Gr\u00e9cia \u00e0 Argentina \u2014 de promessas populistas que, aliadas ao seguidismo social e pol\u00edtico, conduziram pa\u00edses ao precip\u00edcio.<\/p>\n<p>Um eventual futuro governo liderado por Andr\u00e9 Ventura poder\u00e1 levar a um desfecho semelhante em certas condi\u00e7\u00f5es, como procuro aqui evidenciar.<\/p>\n<p>O \u2018efeito rebanho\u2019 nos resultados eleitorais parece ser j\u00e1 uma evid\u00eancia e poder\u00e1 acentuar-se se o novo governo da AD n\u00e3o conseguir resolver os problemas econ\u00f3micos e sociais, que est\u00e3o sempre na base da ascens\u00e3o do populismo, pela aus\u00eancia de respostas efetivas dos partidos tradicionalmente no poder.<\/p>\n<blockquote class=\"quote--hero full-width\">\n<div class=\"full-width__container\">\n<div class=\"quote--hero__entry full-width__entry-container\">\n<p>O voto populista gerador do \u2018efeito rebanho\u2019 deve ser compreendido no seu verdadeiro contexto, sob pena de se menosprezar o seu significado mais profundo. \u00c9 a express\u00e3o eleitoral daqueles que, por mais que se esforcem, continuam sistematicamente arredados dos centros de decis\u00e3o. N\u00e3o t\u00eam acesso ao poder pol\u00edtico, n\u00e3o influenciam os mercados, n\u00e3o financiam campanhas nem compram influ\u00eancia.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/blockquote>\n<p>O voto populista gerador do \u2018efeito rebanho\u2019 deve ser compreendido no seu verdadeiro contexto, sob pena de se menosprezar o seu significado mais profundo. \u00c9 a express\u00e3o eleitoral daqueles que, por mais que se esforcem, continuam sistematicamente arredados dos centros de decis\u00e3o. N\u00e3o t\u00eam acesso ao poder pol\u00edtico, n\u00e3o influenciam os mercados, n\u00e3o financiam campanhas nem compram influ\u00eancia.<\/p>\n<p>S\u00e3o os que n\u00e3o t\u00eam voz \u2014 ou, quando a t\u00eam, raramente s\u00e3o ouvidos. \u00c9 o voto dos empurrados para longas margens pela engrenagem econ\u00f3mica, dos que vivem numa luta constante pela sobreviv\u00eancia e sentem, dia ap\u00f3s dia, que o sistema lhes falha.<\/p>\n<p>Resta agora saber se \u00e9 poss\u00edvel chegarmos ao pior cen\u00e1rio, o da bancarrota, decorrente do referido \u2018efeito de rebanho\u2019 tamb\u00e9m nos mercados financeiros, algo que est\u00e1 para j\u00e1 afastado, como \u00e9 patente na rea\u00e7\u00e3o normal dos mercados a seguir \u00e0s elei\u00e7\u00f5es em Portugal \u2013 at\u00e9 porque o cen\u00e1rio de um governo Ventura n\u00e3o se coloca para j\u00e1 \u2013, mas h\u00e1 que analisar a possibilidade em termos prospetivos.<\/p>\n<p>O programa econ\u00f3mico do Chega assenta em promessas populares, mas economicamente insustent\u00e1veis, como cortes dr\u00e1sticos nos impostos e aumentos generalizados nos sal\u00e1rios e nas pens\u00f5es sem redu\u00e7\u00e3o equivalente (realista) na despesa p\u00fablica, sendo antes suportados em medidas como a recupera\u00e7\u00e3o de montantes elevad\u00edssimos de impostos perdidos na economia paralela que, como j\u00e1 expliquei em v\u00e1rios espa\u00e7os de opini\u00e3o, s\u00e3o completamente irrealistas.<\/p>\n<p>Tenho publica\u00e7\u00f5es cient\u00edficas nessa \u00e1rea e sei do que estou a falar. O partido Chega chegou a usar valores de economia n\u00e3o registada (ou paralela) que estimei para Portugal \u2013 quase 35% do PIB em 2022 \u2013 como suporte das suas promessas irrealistas, apontando para valores de recupera\u00e7\u00e3o ut\u00f3picos, sobretudo a curto prazo e com as medidas preconizadas, como prontamente denunciei.<\/p>\n<p>Com efeito, muitos dos fen\u00f3menos inclu\u00eddos na economia paralela t\u00eam ra\u00edzes culturais profundas, dif\u00edceis de inverter, e alguns nem sequer s\u00e3o, em si, conden\u00e1veis \u2014 como o autoconsumo. Essas receitas potenciais devem ser encaradas com prud\u00eancia e, no limite, consideradas como cen\u00e1rios otimistas, nunca como receita certa e inscrita no Or\u00e7amento de Estado para compensar promessas de despesa altamente ambiciosas. A Comiss\u00e3o Europeia rir-se-ia de um tal Or\u00e7amento.<\/p>\n<p>Fa\u00e7o ainda notar que, tendo analisado, neste mesmo espa\u00e7o de opini\u00e3o, algumas das principais medidas econ\u00f3micas e custos dos programas da AD e do PS, n\u00e3o fiz o mesmo em rela\u00e7\u00e3o ao Chega precisamente para n\u00e3o dar credibilidade a algo que n\u00e3o o merece, mas dou como bons os resultados de um estudo do ISEG, que estima um impacto or\u00e7amental do programa do Chega ligeiramente acima dos 8%, apenas com paralelo no da CDU, com um n\u00famero semelhante e muito acima dos valores da AD e do PS.<\/p>\n<p>Sublinho que um d\u00e9fice de 8% do PIB s\u00f3 seria poss\u00edvel saindo da \u00e1rea euro (AE) e, possivelmente, tamb\u00e9m da Uni\u00e3o Europeia (UE), pois as regras or\u00e7amentais aplicam-se a todos os Estados-membros, com maior rigor e abrang\u00eancia para os pa\u00edses da AE.<\/p>\n<p>Admitindo que o Chega n\u00e3o quereria enveredar por esse caminho \u2013 caso contr\u00e1rio, teria de apresentar a sa\u00edda da AE e da UE no seu programa \u2013, a Comiss\u00e3o Europeia rapidamente faria \u2018descer os p\u00e9s \u00e0 terra\u2019 pela exig\u00eancia de cumprimento das regras or\u00e7amentais, que limitam o d\u00e9fice or\u00e7amental anual a 3% do PIB, al\u00e9m de outras regras novas, como a despesa l\u00edquida.<\/p>\n<p>Contudo, chamo a aten\u00e7\u00e3o que Portugal quase chegou \u00e0 bancarrota em 2010 com regras or\u00e7amentais n\u00e3o muito diferentes, isto porque o governo de Jos\u00e9 S\u00f3crates desleixou a situa\u00e7\u00e3o or\u00e7amental do pa\u00eds e colocou-nos no \u2018olho do furac\u00e3o\u2019 quando eclodiu a crise de d\u00edvidas soberanas.<\/p>\n<blockquote class=\"quote--hero full-width\">\n<div class=\"full-width__container\">\n<div class=\"quote--hero__entry full-width__entry-container\">\n<p>No mesmo fim de semana das elei\u00e7\u00f5es em Portugal, a ag\u00eancia de nota\u00e7\u00e3o Moody\u2019s retirou, pela primeira vez, o rating m\u00e1ximo de triplo A \u00e0 d\u00edvida soberana dos EUA \u2013 com perspetiva negativa, pelo que poder\u00e1 haver novos cortes e as outras ag\u00eancias dever\u00e3o seguir o exemplo \u2013 devido ao acumular de d\u00edvida p\u00fablica, e os republicanos n\u00e3o se entenderam quanto ao programa or\u00e7amental da Administra\u00e7\u00e3o Trump, que prev\u00ea a extens\u00e3o e at\u00e9 amplia\u00e7\u00e3o dos cortes de impostos (incluindo aos mais ricos), sendo os cortes de despesa previstos insuficientes (para j\u00e1) para evitar que a d\u00edvida continue a aumentar.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/blockquote>\n<p>N\u00e3o estamos hoje numa situa\u00e7\u00e3o semelhante, mas h\u00e1 riscos de uma nova crise financeira no horizonte. No mesmo fim de semana das elei\u00e7\u00f5es em Portugal, a ag\u00eancia de nota\u00e7\u00e3o Moody\u2019s retirou, pela primeira vez, o rating m\u00e1ximo de triplo A \u00e0 d\u00edvida soberana dos EUA \u2013 com perspetiva negativa, pelo que poder\u00e1 haver novos cortes e as outras ag\u00eancias dever\u00e3o seguir o exemplo \u2013 devido ao acumular de d\u00edvida p\u00fablica, e os republicanos n\u00e3o se entenderam quanto ao programa or\u00e7amental da Administra\u00e7\u00e3o Trump, que prev\u00ea a extens\u00e3o e at\u00e9 amplia\u00e7\u00e3o dos cortes de impostos (incluindo aos mais ricos), sendo os cortes de despesa previstos insuficientes (para j\u00e1) para evitar que a d\u00edvida continue a aumentar.<\/p>\n<p>Relembro que a crise imobili\u00e1ria do subprime, que levou \u00e0 crise financeira e grande recess\u00e3o global de 2008 \u2013 desencadeando depois a crise de d\u00edvidas soberanas e o pedido de ajuda externa de Portugal \u2013 teve origem nos EUA. Juntem, \u00e0 perda do rating m\u00e1ximo da d\u00edvida soberana dos EUA, os riscos do sistema banc\u00e1rio \u2018sombra\u2019 (shadow banking), a emerg\u00eancia das criptomoedas e o afrouxamento regulat\u00f3rio da banca promovidos pela administra\u00e7\u00e3o Trump, bem como os desequil\u00edbrios macroecon\u00f3micos globais, s\u00f3 para falar dos principais fatores, e temos os ingredientes para uma futura nova crise financeira global.<\/p>\n<p>Esta poder\u00e1 eclodir e impactar Portugal dentro de dois anos, quando o \u2018profeta\u2019 Ventura prev\u00ea estar a governar o pa\u00eds. Por isso, neste cen\u00e1rio, Ventura tem dois anos para arranjar um Ministro das Finan\u00e7as que n\u00e3o se importe de estar ligado a uma nova pr\u00e9-bancarrota.<\/p>\n<p>A alternativa \u00e9 deixar de se posicionar como um partido de protesto e de prometer \u2018tudo a todos\u2019, aproximando-se do centro, mas deixar\u00e1 de agradar a tanta gente. Enquanto a popula\u00e7\u00e3o continuar iludida com o \u2018milagre or\u00e7amental\u2019 de Ventura, \u00e9 natural que continue a tentar usar a mesma receita, mas em algum momento vai deixar de o poder fazer, isto se quiser efetivamente influenciar a governa\u00e7\u00e3o, seja com governo pr\u00f3prio ou em acordos.<\/p>\n<p>Portugal tem vindo a reduzir o r\u00e1cio da d\u00edvida p\u00fablica e est\u00e1 hoje menos exposto a oscila\u00e7\u00f5es nos mercados internacionais. \u00c9 crucial que prossigamos uma estrat\u00e9gia de redu\u00e7\u00e3o gradual do r\u00e1cio da d\u00edvida \u2013 particularmente perante um contexto internacional complexo e com riscos crescentes \u2013, mas com uma melhoria da composi\u00e7\u00e3o e da qualidade dos agregados or\u00e7amentais, com menos peso da despesa corrente prim\u00e1ria para acomodar um maior peso do investimento p\u00fabico e um corte significativo da carga fiscal de IRS e, sobretudo, de IRC. A reforma fiscal e do Estado s\u00e3o fundamentais, mas h\u00e1 muitas mais que o pa\u00eds precisa fazer, como tenho vindo a defender por variadas vezes nas minhas cr\u00f3nicas.<\/p>\n<p>Caber\u00e1 ao novo governo da AD conseguir os acordos necess\u00e1rios com os dois principais partidos da oposi\u00e7\u00e3o \u2013 Chega e PS \u2013, consonante os temas, para levar a cabo o seu programa eleitoral, que a meu ver peca pelo d\u00e9fice de reformas ou falta de detalhe, como tamb\u00e9m j\u00e1 analisei neste espa\u00e7o de opini\u00e3o.<\/p>\n<p>Dado o grau de desgaste e atritos pessoais entre os l\u00edderes da AD e do Chega, com v\u00e1rios epis\u00f3dios de desacordo na anterior legislatura, \u00e9 dif\u00edcil perceber se e como alcan\u00e7ar\u00e3o algum acordo \u2013 n\u00e3o de governo, o que foi afastado pela AD, mas de incid\u00eancia parlamentar \u2013, mesmo que pontual, mas exige-se profissionalismo, a bem do pa\u00eds.<\/p>\n<blockquote class=\"quote--hero full-width\">\n<div class=\"full-width__container\">\n<div class=\"quote--hero__entry full-width__entry-container\">\n<p>Se a AD n\u00e3o se entender com o Chega, pelo menos nalgumas mat\u00e9rias, associando Ventura a algumas medidas e op\u00e7\u00f5es de governa\u00e7\u00e3o, com os custos pol\u00edticos inerentes, corre o risco de, nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es \u2013 daqui a um ano, pelo menos, \u2018aceitando-se apostas\u2019 sobre qual o pr\u00f3ximo fator ex\u00f3geno que desencadear\u00e1 novas elei\u00e7\u00f5es antecipadas \u2013, perder mesmo a maioria para o Chega ou ter de dar lugar a uma nova lideran\u00e7a na AD que consiga entendimentos com esse partido, sobretudo se continuar a adiar reformas essenciais e n\u00e3o conseguir resolver problemas cruciais do pa\u00eds.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/blockquote>\n<p>Se a AD n\u00e3o se entender com o Chega, pelo menos nalgumas mat\u00e9rias, associando Ventura a algumas medidas e op\u00e7\u00f5es de governa\u00e7\u00e3o, com os custos pol\u00edticos inerentes, corre o risco de, nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es \u2013 daqui a um ano, pelo menos, \u2018aceitando-se apostas\u2019 sobre qual o pr\u00f3ximo fator ex\u00f3geno que desencadear\u00e1 novas elei\u00e7\u00f5es antecipadas \u2013, perder mesmo a maioria para o Chega ou ter de dar lugar a uma nova lideran\u00e7a na AD que consiga entendimentos com esse partido, sobretudo se continuar a adiar reformas essenciais e n\u00e3o conseguir resolver problemas cruciais do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Ao novo l\u00edder do PS exige-se que esteja \u00e0 altura das circunst\u00e2ncias e da hist\u00f3ria do partido, pois \u00e9 a sua sobreviv\u00eancia que est\u00e1 em jogo, o que poder\u00e1 fazer, a meu ver, aproximando-se do centro e abrindo caminho a acordos com a AD em mat\u00e9rias fundamentais para o crescimento e desenvolvimento do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Por exemplo, sinalizar a retoma do acordo de 2014 entre PSD e PS para a redu\u00e7\u00e3o gradual da taxa de IRC at\u00e9 17% \u2013 celebrado entre o governo de Pedro Passos Coelho e o ent\u00e3o l\u00edder do PS, Ant\u00f3nio Jos\u00e9 Seguro, tendo sido depois \u2018rasgado\u2019 por Ant\u00f3nio Costa \u2013, que est\u00e1 prevista no programa de 2025 da AD, seria um passo importante (e uma invers\u00e3o face \u00e0 anterior lideran\u00e7a, que correu mal) e uma vit\u00f3ria sobre o Chega, se fosse alcan\u00e7ado um acordo. Entendo que a elimina\u00e7\u00e3o da progressividade do IRC \u00e9 mais priorit\u00e1ria para a atra\u00e7\u00e3o de investimento estruturante, mas ainda mais importante \u00e9 a previsibilidade e confian\u00e7a dos investidores na n\u00e3o revers\u00e3o do desagravamento fiscal. Ressuscitar o acordo de 2014 seria um sinal de confian\u00e7a do PS e da pr\u00f3pria AD na recupera\u00e7\u00e3o da tradicional altern\u00e2ncia de poder em Portugal.<\/p>\n<p>De forma relacionada, \u00e9 tamb\u00e9m crucial um acordo sobre a reforma do Estado, pelo menos quanto a objetivos \u2013 com realce para a redu\u00e7\u00e3o do r\u00e1cio de entradas por cada sa\u00edda de funcion\u00e1rios p\u00fablicos para um valor inferior a 1, o que deve resultar de melhorias na gest\u00e3o e maior efici\u00eancia da despesa p\u00fablica \u2013, podendo ser atingidos com medidas de pol\u00edtica da respetiva prefer\u00eancia. Saliento que as proje\u00e7\u00f5es de maio da Comiss\u00e3o Europeia apontam para o retorno a um d\u00e9fice p\u00fablico em 2026 (0,6% do PIB).<\/p>\n<p>Por sua vez, se o Chega sinalizar imediatamente uma aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 AD nestas mat\u00e9rias, implicando uma modera\u00e7\u00e3o face ao seu programa, poderia ganhar a dianteira ao PS, tendo em conta que est\u00e1 em fase de mudan\u00e7a de lideran\u00e7a. O que est\u00e1 em jogo, al\u00e9m da capacidade de di\u00e1logo do novo governo AD, pois n\u00e3o tem a maioria absoluta, \u00e9 a lideran\u00e7a efetiva da oposi\u00e7\u00e3o, o que poder\u00e1 beneficiar a AD se a competi\u00e7\u00e3o for respons\u00e1vel. Se o Chega se moderar e mostrar responsabilidade e capacidade para se substituir ao PS como principal l\u00edder da oposi\u00e7\u00e3o, poder\u00e1 mudar, desde j\u00e1, o futuro do sistema pol\u00edtico em Portugal.<\/p>\n<p>Tudo \u00e9 ainda poss\u00edvel. Est\u00e1 nas m\u00e3os dos atuais e novos protagonistas pol\u00edticos o caminho rumo a um futuro de maior progresso e inclus\u00e3o ou, pelo contr\u00e1rio, a queda para o abismo de uma pr\u00e9-bancarrota, um cen\u00e1rio que aqui mostrei ser uma possibilidade real.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio de progresso requer reformas decisivas e protagonistas \u00e0 altura para as implementar. Portugal precisa de crescer, pelo menos, 1,4 pontos percentuais (p.p.) acima da evolu\u00e7\u00e3o m\u00e9dia anual do PIB da UE se quiser entrar na metade de pa\u00edses europeus com maior n\u00edvel de vida no espa\u00e7o de uma d\u00e9cada, segundo um estudo da Faculdade de Economia da Universidade do Porto (FEP). Tal n\u00e3o ir\u00e1 acontecer nos pr\u00f3ximos anos, olhando para as mais recentes previs\u00f5es de crescimento econ\u00f3mico.<\/p>\n<p>Nos n\u00fameros de maio da Comiss\u00e3o Europeia, agora divulgados, a UE cresce 1,1% em 2025 e 1,5% em 2026, pelo que, seguindo o referencial de longo prazo do estudo da FEP, Portugal deveria progredir 2,5% e 2,9% nesses dois anos assumindo que as reformas estavam em curso, um pouco acima dos valores de 2,4% e 2,6%, respetivamente, que a AD projeta no seu programa eleitoral.<\/p>\n<p>Ora as previs\u00f5es da Comiss\u00e3o para Portugal s\u00e3o significativamente inferiores (1,8% e 2,2%) \u00e0s do programa da AD, que \u00e9 ainda mais otimista \u00e0 luz das proje\u00e7\u00f5es de abril do FMI (2,0% e 1,7%), institui\u00e7\u00e3o que para 2027 apresenta um valor ainda menor (1,5%), a refletir o fim do PRR (de notar a Comiss\u00e3o n\u00e3o apresenta previs\u00f5es para esse ano). Relembro ainda que, num cen\u00e1rio sem mudan\u00e7as de pol\u00edtica, passado o PRR, a taxa de crescimento potencial de Portugal aproximar-se-\u00e1 da tend\u00eancia de 1% ao ano neste mil\u00e9nio, segundo o Ageing Report de 2024 da Comiss\u00e3o. J\u00e1 se v\u00ea que os pr\u00f3ximos tempos n\u00e3o ser\u00e3o f\u00e1ceis.<\/p>\n<blockquote class=\"quote--hero full-width\">\n<div class=\"full-width__container\">\n<div class=\"quote--hero__entry full-width__entry-container\">\n<p>A proposta de quotas \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o do Chega equivale, na pr\u00e1tica, a impor limites ao potencial de crescimento da economia portuguesa \u2013 pois, ap\u00f3s a regulariza\u00e7\u00e3o em curso de um n\u00famero substancial de imigrantes, muitos dos quais ter\u00e3o de sair do pa\u00eds ao abrigo da lei, ser\u00e1 preciso um fluxo regular de imigrantes para compensar os que saem voluntariamente para outros pa\u00edses (\u00e0 procura de melhores condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas), bem como a emigra\u00e7\u00e3o e o saldo natural negativo (devido ao envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o), mesmo que atenuados nesse cen\u00e1rio de maior crescimento econ\u00f3micos, como mostra tamb\u00e9m o estudo da FEP.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/blockquote>\n<p>O estudo da FEP mostra ainda que a eleva\u00e7\u00e3o do ritmo de crescimento econ\u00f3mico para um valor sustentado na casa dos 3% ao ano (ou, o que \u00e9 mais robusto o referido diferencial de 1,4 p.p. face \u00e0 UE) requer um fluxo continuado de imigra\u00e7\u00e3o regulada, com mecanismos de liga\u00e7\u00e3o \u00e0 atividade econ\u00f3mica, como contrato pr\u00e9vio e ausculta\u00e7\u00e3o das entidades representativas das empresas, exigindo mais recursos para regulariza\u00e7\u00e3o (AIMA) e a forma\u00e7\u00e3o e integra\u00e7\u00e3o dessas pessoas.<\/p>\n<p>Isto significa que a proposta de quotas \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o do Chega equivale, na pr\u00e1tica, a impor limites ao potencial de crescimento da economia portuguesa \u2013 pois, ap\u00f3s a regulariza\u00e7\u00e3o em curso de um n\u00famero substancial de imigrantes, muitos dos quais ter\u00e3o de sair do pa\u00eds ao abrigo da lei, ser\u00e1 preciso um fluxo regular de imigrantes para compensar os que saem voluntariamente para outros pa\u00edses (\u00e0 procura de melhores condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas), bem como a emigra\u00e7\u00e3o e o saldo natural negativo (devido ao envelhecimento da popula\u00e7\u00e3o), mesmo que atenuados nesse cen\u00e1rio de maior crescimento econ\u00f3micos, como mostra tamb\u00e9m o estudo da FEP.<\/p>\n<p>O mecanismo da \u2018via verde\u2019 da imigra\u00e7\u00e3o promovida pelo governo vai no sentido correto, a meu ver, resta saber se funciona com a efic\u00e1cia prometida, sendo uma medida ainda recente.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>A democracia portuguesa entrou numa nova fase: a subida do Chega deixou de ser um fen\u00f3meno passageiro e n\u00e3o pode ser ignorada. Ventura tem agora dois anos para escolher se quer ser s\u00f3 um l\u00edder ruidoso e sem impacto real ou ent\u00e3o um verdadeiro protagonista, capaz de assumir responsabilidades num quadro democr\u00e1tico, institucional e europeu.<\/p>\n<p>O tempo da conversa f\u00e1cil e das promessas sem base est\u00e1 a acabar. Se quiser influenciar a governa\u00e7\u00e3o, ter\u00e1 de moderar-se, rever o programa econ\u00f3mico e preparar-se para enfrentar os problemas do pa\u00eds \u2014 com seriedade, compet\u00eancia e compromisso com a estabilidade. A alternativa \u00e9 manter a radicaliza\u00e7\u00e3o e o confronto com a realidade, o que pode levar o pa\u00eds uma nova pr\u00e9-bancarrota se vier a governar com uma nova crise financeira global, que \u00e9 um risco atual.<\/p>\n<blockquote class=\"quote--hero full-width\">\n<div class=\"full-width__container\">\n<div class=\"quote--hero__entry full-width__entry-container\">\n<p>H\u00e1 margem para acordos estrat\u00e9gicos entre for\u00e7as moderadas, que permita fazer algumas das reformas de que o pa\u00eds precisa para crescer de forma sustentada e inclusiva, com estabilidade financeira e institucional. Se o Chega se moderar, h\u00e1 tamb\u00e9m margem para acordos com esse partido.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/blockquote>\n<p>Portugal n\u00e3o pode voltar a cometer os erros do passado. Cabe ao novo governo da AD liderar com responsabilidade \u2013 promovendo acordos sustent\u00e1veis \u00e0 direita e ao centro \u2013 e ao PS, com uma nova lideran\u00e7a, mostrar que est\u00e1 \u00e0 altura do momento e pode liderar, efetivamente, a oposi\u00e7\u00e3o. H\u00e1 margem para acordos estrat\u00e9gicos entre for\u00e7as moderadas, que permita fazer algumas das reformas de que o pa\u00eds precisa para crescer de forma sustentada e inclusiva, com estabilidade financeira e institucional. Se o Chega se moderar, h\u00e1 tamb\u00e9m margem para acordos com esse partido.<\/p>\n<p>O futuro est\u00e1 em aberto, mas exige coragem, compet\u00eancia e vis\u00e3o. Se falharmos agora, o custo ser\u00e1 alto. E, como a hist\u00f3ria mostra, quando a pol\u00edtica econ\u00f3mica vive de ilus\u00f5es, a realidade acaba por cobrar a fatura \u2014 com juros. A seguir ao PS, \u00e9 a AD que est\u00e1 em risco de ser ultrapassada pela direita populista se n\u00e3o mudar de rumo e promover reformas. Se n\u00e3o for com a lideran\u00e7a atual da AD, ser\u00e1 com outra. O Pa\u00eds cansou-se de esperar.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/footer>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, Eco\u00a0 \u00a0 \u00a0 A seguir ao PS, \u00e9 a AD que est\u00e1 em risco de ser ultrapassada pela direita populista se n\u00e3o mudar de rumo e promover reformas. 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