{"id":49053,"date":"2025-03-31T19:02:23","date_gmt":"2025-03-31T19:02:23","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49053"},"modified":"2025-04-06T19:05:05","modified_gmt":"2025-04-06T19:05:05","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-53-3-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-3-2-3-2-2-2-3-4-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-59","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=49053","title":{"rendered":"O futuro da educa\u00e7\u00e3o e do emprego (c\u00e1): \u00e9tica, tecnologia e a realidade nacional"},"content":{"rendered":"\n<p><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>\u00d3scar Afonso, Dinheiro Vivo<\/strong><\/span><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/dinheirovivo.dn.pt\/opiniao\/o-futuro-da-educa%C3%A7%C3%A3o-e-do-emprego-c%C3%A1-%C3%A9tica-tecnologia-e-a-realidade-nacional\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" style=\"width:16px;height:16px\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><em>A hist\u00f3ria das sociedades modernas tem sido, em grande medida, marcada pela capacidade de adapta\u00e7\u00e3o a ciclos sucessivos de transforma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. Cada nova vaga de inova\u00e7\u00e3o trouxe consigo promessas de progresso, mas tamb\u00e9m desafios profundos para os sistemas educativos, para o mercado de trabalho e para a coes\u00e3o social.<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>A atual transi\u00e7\u00e3o digital, potenciada pelo desenvolvimento acelerado da Intelig\u00eancia Artificial (IA), n\u00e3o foge a esta l\u00f3gica. No entanto, h\u00e1 nesta transi\u00e7\u00e3o um car\u00e1cter disruptivo que se distingue das anteriores: a velocidade sem precedentes da mudan\u00e7a e a sua penetra\u00e7\u00e3o transversal em praticamente todos os setores econ\u00f3micos e sociais colocam press\u00f5es in\u00e9ditas sobre as institui\u00e7\u00f5es e os indiv\u00edduos. Portugal, com as suas especificidades estruturais, enfrenta este desafio a partir de uma posi\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel, mas tamb\u00e9m repleta de potencialidades.<\/p>\n\n\n\n<p>A realidade nacional evidencia, desde logo, um paradoxo inquietante. Nas gera\u00e7\u00f5es mais jovens, as taxas de qualifica\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica aproximam-se, em muitos indicadores, da m\u00e9dia europeia. Em 2023, cerca de 41,5% dos jovens adultos com idades entre os 25 e os 34 anos possu\u00edam um diploma do ensino superior, um n\u00famero apenas ligeiramente inferior \u00e0 m\u00e9dia da Uni\u00e3o Europeia (UE), situada em 43,1%. Contudo, considerando a popula\u00e7\u00e3o adulta entre os 25 e os 74 anos, verifica-se que 47,9% continuam a deter apenas n\u00edveis de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sicos ou inferiores \u2014 mais do dobro da m\u00e9dia europeia (22,9%) e o valor mais elevado da UE. Ao mesmo tempo, muitos dos nossos jovens qualificados emigram por n\u00e3o encontrarem c\u00e1 oportunidades de emprego com bons sal\u00e1rios e uma carreira atrativa. Esta assimetria profunda tanto nas qualifica\u00e7\u00f5es como no mercado de trabalho revela um tecido econ\u00f3mico que n\u00e3o conseguiu acompanhar o aumento das qualifica\u00e7\u00f5es formais, refletindo uma especializa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica ainda com pouca representatividade de setores com elevada produtividade e valor acrescentado, cuja competitividade est\u00e1 assente na intensidade em conhecimento e tecnologia.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal explica que, em 2023, a produtividade hor\u00e1ria se tenha situado ainda num dos valores mais baixos no contexto europeu em 71,2% da m\u00e9dia da UE. S\u00f3 com o aumento da produtividade as empresas e o Estado poder\u00e3o agar melhores sal\u00e1rios e travar a emigra\u00e7\u00e3o dos nossos jovens. Ora, \u00e9 precisamente neste contexto que a transi\u00e7\u00e3o digital, e em particular o avan\u00e7o da IA, se revela simultaneamente uma oportunidade hist\u00f3rica e uma amea\u00e7a concreta.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a transforma\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria no sistema produtivo se deve refletir em indicadores econ\u00f3micos como a produtividade, ela come\u00e7a na qualifica\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o dos recursos humanos \u00e0s novas ferramentas, que exige tamb\u00e9m transforma\u00e7\u00f5es a montante, no sistema educativo.<\/p>\n\n\n\n<p>A aplica\u00e7\u00e3o da IA ao sistema educativo tem um potencial transformador ineg\u00e1vel. Ferramentas de aprendizagem adaptativa, algoritmos que personalizam conte\u00fados pedag\u00f3gicos, sistemas de avalia\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica e tutores virtuais oferecem possibilidades que, h\u00e1 apenas uma d\u00e9cada,<\/p>\n\n\n\n<p>pareceriam ut\u00f3picas. A capacidade de moldar o ensino ao ritmo, compet\u00eancias e interesses de cada estudante promete, em teoria, democratizar o acesso ao conhecimento e reduzir desigualdades de base. Mas este potencial traz consigo riscos relevantes que devem ser minorados, tanto quanto poss\u00edvel. A personaliza\u00e7\u00e3o, se levada ao extremo, corre o risco de atomizar a experi\u00eancia educativa, reduzindo a intera\u00e7\u00e3o humana a um mero acess\u00f3rio. E \u00e9 precisamente na intera\u00e7\u00e3o entre professor e estudante que se desenvolvem compet\u00eancias essenciais como pensamento cr\u00edtico, criatividade ou capacidade de debate \u2014 compet\u00eancias essas que algoritmos dificilmente replicar\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais grave ainda s\u00e3o os desafios \u00e9ticos colocados pelo uso massivo de dados e pela opacidade algor\u00edtmica. A recolha sistem\u00e1tica de informa\u00e7\u00e3o sobre estudantes, a utiliza\u00e7\u00e3o de sistemas baseados em machine learning com crit\u00e9rios de decis\u00e3o pouco transparentes para os utilizadores e a possibilidade de enviesamentos discriminat\u00f3rios introduzidos no pr\u00f3prio desenho dos modelos exigem um escrut\u00ednio rigoroso. A \u00e9tica n\u00e3o pode ser uma reflex\u00e3o a posteriori; deve ser um princ\u00edpio orientador desde o momento da conce\u00e7\u00e3o das solu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas. A prote\u00e7\u00e3o da privacidade, a explicabilidade dos algoritmos e a preven\u00e7\u00e3o ativa de vieses devem ser garantias inalien\u00e1veis num sistema educativo que se pretende inclusivo e equitativo.<\/p>\n\n\n\n<p>Paralelamente, o impacto da IA no mercado de trabalho suscita quest\u00f5es ainda mais prementes. Ao contr\u00e1rio de revolu\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas anteriores, que substitu\u00edram maioritariamente fun\u00e7\u00f5es f\u00edsicas ou mecanizadas, a IA tem a capacidade de automatizar tarefas cognitivas, muitas delas associadas a profiss\u00f5es de qualifica\u00e7\u00e3o interm\u00e9dia ou mesmo elevada. Tal cen\u00e1rio alimenta ansiedades compreens\u00edveis quanto \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o de empregos e ao aumento da precariedade laboral. Contudo, a hist\u00f3ria econ\u00f3mica ensina-nos que cada revolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica destruiu determinadas fun\u00e7\u00f5es, mas acabou, a prazo, por criar novos empregos e melhorar as condi\u00e7\u00f5es gerais de vida. O saldo l\u00edquido tem sido, tendencialmente, positivo.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema reside na transi\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o forem tomadas medidas concertadas, \u00e9 previs\u00edvel que amplos segmentos da popula\u00e7\u00e3o \u2014 particularmente aqueles que j\u00e1 hoje apresentam baixos n\u00edveis de qualifica\u00e7\u00e3o \u2014 sejam os mais penalizados. A urg\u00eancia da requalifica\u00e7\u00e3o profissional e da forma\u00e7\u00e3o cont\u00ednua \u00e9, por isso, incontorn\u00e1vel, procurando que ningu\u00e9m fique para tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui, a colabora\u00e7\u00e3o entre os diferentes atores \u2014 universidades, empresas, Estado e sociedade civil \u2014 assume um papel determinante. \u00c9 imperativo estreitar a rela\u00e7\u00e3o entre a academia e o setor produtivo, garantindo que o conhecimento gerado nas institui\u00e7\u00f5es cient\u00edficas n\u00e3o permanece circunscrito ao espa\u00e7o acad\u00e9mico, mas se traduz efetivamente em valor econ\u00f3mico e inova\u00e7\u00e3o empresarial. Portugal enfrenta h\u00e1 d\u00e9cadas um desafio identificado de forma clara nos relat\u00f3rios do European Innovation Scoreboard: a dificuldade em converter conhecimento e investiga\u00e7\u00e3o em produtos com retorno econ\u00f3mico, promovendo uma economia mais competitiva e um desenvolvimento mais sustent\u00e1vel. A IA pode ser um catalisador para superar este bloqueio, mas exige um ecossistema colaborativo s\u00f3lido, onde os investimentos privados e p\u00fablicos se complementem, e onde as pol\u00edticas p\u00fablicas incentivem a transfer\u00eancia de conhecimento de forma sistem\u00e1tica e n\u00e3o epis\u00f3dica.<\/p>\n\n\n\n<p>O quadro regulat\u00f3rio assume aqui tamb\u00e9m um papel crucial. A recente Agenda Nacional de Intelig\u00eancia Artificial (em fase de finaliza\u00e7\u00e3o, ap\u00f3s o fecho da consulta p\u00fablica no final de fevereiro), integrada na Estrat\u00e9gia Digital Nacional e alinhada com o AI Act europeu, define objetivos pertinentes: fomentar um ecossistema \u00e9tico, competitivo, assente na excel\u00eancia cient\u00edfica e no bem-estar social. Contudo, como tantas vezes sucede, a efic\u00e1cia desta agenda depender\u00e1 menos do seu enunciado e mais da sua implementa\u00e7\u00e3o concreta, que muitas vezes falha em Portugal. Ser\u00e1 necess\u00e1rio assegurar que as linhas estrat\u00e9gicas n\u00e3o se perdem em burocracias ou ficam limitadas a inten\u00e7\u00f5es. Medidas efetivas de apoio \u00e0 forma\u00e7\u00e3o digital desde os primeiros ciclos de ensino, pol\u00edticas fiscais e de financiamento que favore\u00e7am a requalifica\u00e7\u00e3o de trabalhadores, incentivos claros \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o academia-ind\u00fastria e um enquadramento robusto de prote\u00e7\u00e3o de dados s\u00e3o algumas das exig\u00eancias inadi\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u00e9tica, em particular, deve ser encarada como um eixo estruturante e n\u00e3o acess\u00f3rio. A tenta\u00e7\u00e3o de priorizar ganhos de efici\u00eancia ou competitividade \u00e0 custa de valores como privacidade, equidade ou transpar\u00eancia ser\u00e1 sempre elevada, sobretudo num contexto globalizado onde a press\u00e3o para inovar \u00e9 constante. Mas ignorar a dimens\u00e3o \u00e9tica da transi\u00e7\u00e3o digital \u00e9, a prazo, comprometer a sustentabilidade do pr\u00f3prio modelo econ\u00f3mico e social.<\/p>\n\n\n\n<p>No fundo, o futuro da educa\u00e7\u00e3o e do emprego em Portugal ser\u00e1 aquilo que formos capazes de construir coletivamente. A tecnologia, por si s\u00f3, n\u00e3o resolve problemas estruturais nem garante prosperidade. \u00c9 uma ferramenta poderosa, sim, mas que requer uma governa\u00e7\u00e3o consciente, colaborativa e ancorada em princ\u00edpios claros. Perante um pa\u00eds que continua a lutar contra d\u00e9fices de produtividade, desigualdades educacionais e assimetrias sociais, a integra\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel da IA poder\u00e1 ser n\u00e3o apenas um motor de crescimento econ\u00f3mico, mas tamb\u00e9m uma oportunidade para redesenhar um modelo de desenvolvimento mais justo, inclusivo e resiliente.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas tal futuro n\u00e3o se desenha automaticamente. Requer escolhas. Escolhas pol\u00edticas, empresariais, educativas. Requer, sobretudo, uma vis\u00e3o de longo prazo onde a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica n\u00e3o seja um fim em si mesma, mas um meio ao servi\u00e7o do bem comum.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, Dinheiro Vivo A hist\u00f3ria das sociedades modernas tem sido, em grande medida, marcada pela capacidade de adapta\u00e7\u00e3o a ciclos sucessivos de transforma\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica. 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