{"id":48884,"date":"2025-01-07T14:33:48","date_gmt":"2025-01-07T14:33:48","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=48884"},"modified":"2025-01-12T14:36:25","modified_gmt":"2025-01-12T14:36:25","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-53-3-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-3-2-3-2-2-2-3-4-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-55","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=48884","title":{"rendered":"Turismo \u2013 fonte de crescimento ou de desvio de recursos?"},"content":{"rendered":"\n<p><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>\u00d3scar Afonso, Dinheiro Vivo<\/strong><\/span><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/dinheirovivo.dn.pt\/opiniao\/turismo-fonte-de-crescimento-ou-de-desvio-de-recursos\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" style=\"width:16px;height:16px\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><em>Portugal \u00e9 um pa\u00eds que respira turismo. \u00c9 dif\u00edcil ignorar o impacto deste setor na economia, desde os hot\u00e9is e restaurantes cheios, passando pelas ruas hist\u00f3ricas vibrantes, at\u00e9 ao peso significativo no PIB nacional<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Das praias do Algarve ao encanto do Porto, da vibrante Lisboa \u00e0s paisagens deslumbrantes dos A\u00e7ores e Madeira, passando pela beleza e tradi\u00e7\u00f5es culturais do interior, o turismo \u00e9 uma das grandes for\u00e7as motrizes da economia nacional. Mas ser\u00e1 que todo o turismo \u00e9 intrinsecamente bom? Ser\u00e1 suficiente atrair mais turistas para garantir um crescimento econ\u00f3mico sustent\u00e1vel e justo? A resposta n\u00e3o \u00e9 simples, mas \u00e9 crucial para o crescimento sustent\u00e1vel do pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O turismo \u00e9 uma oportunidade poderosa, mas tamb\u00e9m uma amea\u00e7a subtil se n\u00e3o for bem gerido. Por um lado, \u00e9 uma fonte de receitas, promove o emprego e estimula o consumo. Por outro lado, pode comprometer a capacidade produtiva da economia ao desviar ainda mais m\u00e3o-de-obra e recursos essenciais de setores cr\u00edticos como a agricultura e a ind\u00fastria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Este desvio, que ocorre quando trabalhadores s\u00e3o retirados de setores mais produtivos para atividades tur\u00edsticas, de menor produtividade, pode ter consequ\u00eancias profundas. A produ\u00e7\u00e3o de bens, seja na agricultura ou na ind\u00fastria, \u00e9 vital para garantir a autonomia econ\u00f3mica do pa\u00eds e evitar depend\u00eancias externas. Sem uma base produtiva robusta, a economia torna-se vulner\u00e1vel a choques externos e perde capacidade de resili\u00eancia a longo prazo. Assim, quando o turismo absorve recursos que poderiam ser utilizados na produ\u00e7\u00e3o de bens, o pa\u00eds arrisca-se a comprometer a sustentabilidade do seu crescimento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, o turismo tem o potencial de gerar externalidades positivas que beneficiam toda a economia. Quando bem orientado, pode incentivar avan\u00e7os na organiza\u00e7\u00e3o empresarial, novos modelos de neg\u00f3cio e at\u00e9 a cria\u00e7\u00e3o de produtos e servi\u00e7os inovadores. Mas esta dualidade exige uma gest\u00e3o cuidadosa: o impacto do turismo depende da sua capacidade de gerar inova\u00e7\u00e3o suficiente para compensar os custos do desvio de recursos produtivos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O turismo, especialmente o de qualidade, pode ser um motor de inova\u00e7\u00e3o \u2013 de produto, de processo, de marketing e organizacional, usando a classifica\u00e7\u00e3o seguida no Portugal 2030 \u2013, pois o contacto com turistas internacionais mais exigentes exp\u00f5e o setor a novos desafios e, de forma associada, a novas ideias e pr\u00e1ticas, pela necessidade de recrutamento de trabalhadores e gestores mais qualificados (nacionais e estrangeiros) que sigam e investiguem as tend\u00eancias e ideias mais recentes na \u00e1rea. Tal leva ao desenvolvimento de produtos e servi\u00e7os com ofertas mais atrativas e diferenciadoras que melhoram a competitividade do turismo pela sua qualifica\u00e7\u00e3o, promovendo uma maior gera\u00e7\u00e3o de valor. O contacto com esse turismo de gama mais alta promove, assim, a difus\u00e3o e transfer\u00eancia de conhecimento e tecnologia, mas tamb\u00e9m impele a investiga\u00e7\u00e3o e desenvolvimento na \u00e1rea, para gerar ofertas inovadoras no nosso pa\u00eds, movimentando ainda setores conexos e melhorando estruturalmente a economia. A prioriza\u00e7\u00e3o e incremento desse turismo de qualidade e gera\u00e7\u00e3o de valor oferece uma oportunidade de modernizar uma economia com um peso t\u00e3o elevado do turismo como a nossa, mas em que predomina um turismo de massas de baixo valor, cujo balan\u00e7o se est\u00e1 a tornar negativo como aqui saliento.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, turistas exigentes podem motivar os hot\u00e9is a investir em efici\u00eancia energ\u00e9tica ou em solu\u00e7\u00f5es digitais para melhorar a experi\u00eancia dos clientes, enquanto os restaurantes podem inovar nas ementas, valorizando produtos locais e t\u00e9cnicas culin\u00e1rias ancestrais. Tal cria uma procura tamb\u00e9m mais exigente a montante, promovendo inova\u00e7\u00e3o em setores conexos, como agricultura, telecomunica\u00e7\u00f5es e as m\u00faltiplas ind\u00fastrias que integram a fileira habitat (constru\u00e7\u00e3o, materiais e produtos para a casa \u2013 como madeira, corti\u00e7a, mobili\u00e1rio, cer\u00e2mica, rochas ornamentais, decora\u00e7\u00e3o, t\u00eaxteis-lar, design, produtos met\u00e1licos ou equipamentos el\u00e9tricos \u2013, climatiza\u00e7\u00e3o e planeamento urban\u00edstico, nomeadamente).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, este impacto positivo n\u00e3o ocorre uniformemente. Os setores mais qualificados tendem a ser os grandes benefici\u00e1rios, enquanto o turismo de massas, baseado no consumo r\u00e1pido e na explora\u00e7\u00e3o intensiva de recursos, oferece pouco incentivo \u00e0 inova\u00e7\u00e3o. Sem pol\u00edticas p\u00fablicas adequadas, o turismo pode tornar-se uma oportunidade perdida para modernizar a economia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos paradoxos mais inquietantes do turismo \u00e9 a forma como amplia as desigualdades econ\u00f3micas. Ao potencialmente favorecer alguns setores intensivos em trabalho qualificado, o turismo contribui para aumentar o \"pr\u00e9mio de qualifica\u00e7\u00e3o\" \u2013 a diferen\u00e7a salarial entre trabalhadores qualificados e n\u00e3o qualificados. Este fen\u00f3meno agrava as disparidades econ\u00f3micas, especialmente em regi\u00f5es onde a press\u00e3o tur\u00edstica \u00e9 mais intensa, como Lisboa e Porto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, o turismo tende a elevar os pre\u00e7os da habita\u00e7\u00e3o, agravando a exclus\u00e3o dos residentes locais. A procura por alojamentos tur\u00edsticos frequentemente ultrapassa a capacidade de resposta do mercado, especialmente nas \u00e1reas metropolitanas, deslocando fam\u00edlias de rendimentos m\u00e9dios e baixos para periferias com menos infraestruturas e oportunidades.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No interior, onde o turismo ainda \u00e9 escasso, as desigualdades manifestam-se face ao resto do pa\u00eds. A falta de emprego e investimento agrava a desertifica\u00e7\u00e3o destas regi\u00f5es, que permanecem fora do radar dos grandes fluxos tur\u00edsticos. Este desequil\u00edbrio territorial \u00e9 um dos maiores desafios que Portugal enfrenta no aproveitamento do turismo como motor de desenvolvimento econ\u00f3mico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para maximizar os benef\u00edcios do turismo e minimizar os seus custos, \u00e9 essencial implementar pol\u00edticas p\u00fablicas que promovam um turismo sustent\u00e1vel e inclusivo, sem descurar a import\u00e2ncia dos setores produtivos como alicerces de uma economia resiliente. Algumas medidas incluem:&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\">\n<li>Fomentar o turismo no interior, territ\u00f3rio com imenso potencial, com paisagens de cortar a respira\u00e7\u00e3o, uma gastronomia rica e tradi\u00e7\u00f5es culturais \u00fanicas. Investir na promo\u00e7\u00e3o destas regi\u00f5es como destinos tur\u00edsticos de excel\u00eancia n\u00e3o s\u00f3 redistribui os benef\u00edcios do turismo, como tamb\u00e9m revitaliza economias locais fragilizadas, promovendo a coes\u00e3o territorial.\u00a0<\/li>\n\n\n\n<li>Incentivar a inova\u00e7\u00e3o e o turismo de qualidade. Eventos culturais, confer\u00eancias internacionais e turismo de neg\u00f3cios s\u00e3o excelentes oportunidades para estimular a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e organizacional. Estes segmentos tur\u00edsticos geram externalidades positivas que beneficiam setores qualificados e criam condi\u00e7\u00f5es para um crescimento econ\u00f3mico sustentado.\u00a0<\/li>\n\n\n\n<li>Qualificar a m\u00e3o-de-obra, oferecendo forma\u00e7\u00e3o aos trabalhadores menos qualificados para que possam aceder a fun\u00e7\u00f5es mais valorizadas e contribuir para uma economia mais inclusiva. Al\u00e9m disso, \u00e9 crucial integrar programas que promovam o emprego no interior, com incentivos que atraiam e fixem talentos nessas regi\u00f5es.\u00a0<\/li>\n\n\n\n<li>Diversificar a base econ\u00f3mica, reduzindo a depend\u00eancia do turismo, promovendo o desenvolvimento de setores produtivos como a agricultura e a ind\u00fastria \u2013 tendo em conta as oportunidades e prioridades da Uni\u00e3o Europeia \u2013,\u00a0 para garantir uma economia equilibrada e menos vulner\u00e1vel a choques externos.\u00a0<\/li>\n\n\n\n<li>Proteger a sustentabilidade, estabelecendo limites claros ao turismo de massas e incentivar pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis, protegendo os recursos naturais e culturais que s\u00e3o a base do apelo tur\u00edstico de Portugal.\u00a0<\/li>\n<\/ul>\n\n\n\n<p>As medidas acima concorrem para uma maior uniformiza\u00e7\u00e3o dos benef\u00edcios do turismo no territ\u00f3rio, mas tamb\u00e9m ao longo do ano, mitigando outro dos grandes problemas do turismo de massas (de sol e mar), a sua sazonalidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Concluo que o turismo n\u00e3o \u00e9, por si s\u00f3, uma solu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica para os nossos desafios econ\u00f3micos. O seu impacto depende de como \u00e9 gerido e integrado numa estrat\u00e9gia de desenvolvimento mais ampla. Quando promove inova\u00e7\u00e3o, valoriza o interior e contribui para o crescimento econ\u00f3mico inclusivo, o turismo pode ser uma for\u00e7a transformadora positiva. Mas se os seus custos \u2013 como o desvio de m\u00e3o-de-obra da agricultura e da ind\u00fastria (para um turismo de massas de baixa produtividade), e o potencial aumento das desigualdades \u2013 n\u00e3o forem geridos com rigor, o turismo pode agravar os problemas que deveria resolver.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Portugal tem a oportunidade de repensar o seu setor tur\u00edstico. Com as pol\u00edticas certas, podemos transformar o turismo num motor de crescimento sustent\u00e1vel, que valoriza o interior, promove a inova\u00e7\u00e3o e distribui os seus benef\u00edcios por toda a sociedade. Afinal, o turismo n\u00e3o deve ser apenas uma fonte de receitas de curto prazo \u2013 deve ser uma alavanca para o progresso coletivo.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, Dinheiro Vivo Portugal \u00e9 um pa\u00eds que respira turismo. \u00c9 dif\u00edcil ignorar o impacto deste setor na economia, desde os hot\u00e9is e restaurantes cheios, passando pelas ruas hist\u00f3ricas vibrantes, at\u00e9 ao peso significativo no PIB nacional<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,279],"tags":[],"class_list":["post-48884","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-dinheiro-vivo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/48884","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=48884"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/48884\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":48885,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/48884\/revisions\/48885"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=48884"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=48884"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=48884"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}