{"id":48717,"date":"2024-11-16T15:34:55","date_gmt":"2024-11-16T15:34:55","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=48717"},"modified":"2024-11-16T15:34:57","modified_gmt":"2024-11-16T15:34:57","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-53-3-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-3-2-3-2-2-2-3-4-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-52","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=48717","title":{"rendered":"Serra de Nogueira: Um tesouro que o centralismo quer destruir"},"content":{"rendered":"\n<p><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>\u00d3scar Afonso, Dinheiro Vivo<\/strong><\/span><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.dinheirovivo.pt\/3170086465\/serra-de-nogueira-um-tesouro-que-o-centralismo-quer-destruir\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" style=\"width:16px;height:16px\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><em>No cora\u00e7\u00e3o de Tr\u00e1s-os-Montes, a Serra da Nogueira ergue-se como um monumento natural e cultural, um santu\u00e1rio que espelha a alma e a hist\u00f3ria de uma regi\u00e3o esquecida pelo centralismo. Esta serra, integrada na rede Natura 2000 e situada nas faldas do Parque Natural de Montesinho, n\u00e3o \u00e9 apenas um amontoado de montes e \u00e1rvores. \u00c9 um ecossistema vibrante, lar de uma biodiversidade rara que preserva a ess\u00eancia da paisagem natural de Tr\u00e1s-os-Montes. Este territ\u00f3rio abriga uma rica popula\u00e7\u00e3o de lobos, cor\u00e7os, javalis, entre outras esp\u00e9cies aut\u00f3ctones, que encontram aqui o \u00faltimo ref\u00fagio contra o avan\u00e7o da explora\u00e7\u00e3o humana. N\u00e3o s\u00e3o apenas animais; s\u00e3o parte da identidade de uma terra e de um povo que aprendeu, ao longo de s\u00e9culos, a viver em harmonia com o que a natureza oferece.<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o \u00e9 apenas a fauna que faz da Serra da Nogueira um local \u00fanico. Com uma flora singular, destacando-se a maior mancha de carvalhos espont\u00e2neos da Europa, esta serra assume-se como um baluarte da biodiversidade. Estes carvalhos n\u00e3o s\u00e3o \u00e1rvores quaisquer; s\u00e3o sentinelas de um ecossistema que evoluiu ao longo de milhares de anos, uma floresta que n\u00e3o existe em mais lado nenhum e que constitui um patrim\u00f3nio natural inestim\u00e1vel. Eles representam a hist\u00f3ria viva de uma regi\u00e3o, com ra\u00edzes que se estendem para l\u00e1 da terra, tocando as vidas e as tradi\u00e7\u00f5es das comunidades locais. Esta floresta de carvalhos \u00e9 tamb\u00e9m fundamental para a regula\u00e7\u00e3o do clima e da qualidade do solo, protegendo a terra contra a eros\u00e3o e mantendo os recursos h\u00eddricos que sustentam tanto a fauna quanto a atividade agr\u00edcola das redondezas.<\/p>\n\n\n\n<p>A Serra da Nogueira alberga ainda um tesouro cient\u00edfico e educativo: o percurso da Esta\u00e7\u00e3o de Biodiversidade de Carrazedo. Este percurso \u00e9 especialmente rico em borboletas diurnas, atraindo naturalistas e cientistas de todo o pa\u00eds, bem como turistas interessados em vivenciar a beleza natural de Tr\u00e1s-os-Montes. Aqui, \u00e9 poss\u00edvel observar mais de metade das esp\u00e9cies de borboletas existentes em Portugal, uma diversidade que torna este local num ponto de refer\u00eancia para a conserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade e para o estudo dos insetos. Al\u00e9m disso, este percurso representa uma oportunidade educativa rara, onde os jovens podem aprender sobre ecossistemas, sustentabilidade e o papel vital de cada esp\u00e9cie no equil\u00edbrio natural. A serra poderia ser transformada num centro de ecoturismo, de estudo e de educa\u00e7\u00e3o ambiental, servindo como exemplo de como um territ\u00f3rio pode ser preservado e, ao mesmo tempo, beneficiar economicamente a regi\u00e3o. No entanto, em vez de se investir na preserva\u00e7\u00e3o deste ecossistema, o que se vislumbra para a Serra da Nogueira \u00e9 um destino de destrui\u00e7\u00e3o, em nome de um \"progresso\" que desconsidera o valor inestim\u00e1vel do territ\u00f3rio e da sua biodiversidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto de explora\u00e7\u00e3o mineira que amea\u00e7a a Serra da Nogueira n\u00e3o representa um desenvolvimento sustent\u00e1vel; antes, \u00e9 um exemplo flagrante do que os economistas <em>Daron Acemoglu<\/em>,<em> Simon Johnson<\/em> e <em>James A. Robinson<\/em> \u2013 vencedores do Pr\u00e9mio Nobel de Economia deste ano \u2013 designam por \u201cinstitui\u00e7\u00f5es extrativas\u201d. Estes acad\u00e9micos, amplamente reconhecidos pelo seu trabalho na defesa das \u201cinstitui\u00e7\u00f5es inclusivas\u201d como motoras de progresso duradouro e equitativo, demonstraram que as \u201cinstitui\u00e7\u00f5es extrativas\u201d retiram recursos de uma regi\u00e3o sem respeitar o seu impacto a longo prazo, beneficiando apenas uma elite restrita e deixando para tr\u00e1s comunidades empobrecidas e ecossistemas destru\u00eddos. No caso da Serra da Nogueira, vemos este modelo de explora\u00e7\u00e3o insustent\u00e1vel e desigual ser aplicado a um territ\u00f3rio rico em patrim\u00f3nio natural, onde a promessa de lucros r\u00e1pidos para uns poucos esconde o elevado custo da devasta\u00e7\u00e3o ambiental e da destrui\u00e7\u00e3o da economia local. Este \u00e9 o tipo de \"desenvolvimento\" que favorece os interesses de alguns, mas prejudica muitos, retirando ao territ\u00f3rio muito mais do que lhe traz, numa l\u00f3gica de colonialismo interno que trata o interior do pa\u00eds como uma mera col\u00f3nia de extra\u00e7\u00e3o, sem voz ou direitos pr\u00f3prios.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, a Serra da Nogueira n\u00e3o \u00e9 apenas um santu\u00e1rio natural. Ela \u00e9 tamb\u00e9m o centro de uma atividade econ\u00f3mica que sustenta as comunidades locais: a cultura do castanheiro. Em toda a regi\u00e3o ao redor da serra, o cultivo de castanheiros ocupa vastas \u00e1reas de solo, e a castanha tornou-se, ao longo dos anos, a principal fonte de rendimento para in\u00fameras fam\u00edlias. Este setor foi apoiado por fundos europeus e pelo pr\u00f3prio Estado, como parte de uma estrat\u00e9gia de desenvolvimento rural que procurava revitalizar a economia local e dar novas oportunidades \u00e0s popula\u00e7\u00f5es do interior. As variedades de castanha produzidas nesta regi\u00e3o s\u00e3o de alt\u00edssima qualidade e s\u00e3o exportadas para v\u00e1rios mercados internacionais, representando n\u00e3o apenas uma fonte de rendimento, mas tamb\u00e9m um orgulho para os produtores e uma prova do potencial do interior do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>A decis\u00e3o de avan\u00e7ar com a explora\u00e7\u00e3o mineira ignora, de forma quase insultuosa, o investimento feito no desenvolvimento da cultura do castanheiro e o esfor\u00e7o das popula\u00e7\u00f5es em construir uma atividade sustent\u00e1vel. Como pode o Estado, que incentivou esta economia agr\u00edcola e promoveu a cultura do castanheiro como uma forma de desenvolvimento sustent\u00e1vel, agora ignorar o seu pr\u00f3prio compromisso e colocar em risco uma atividade consolidada? \u00c9 uma decis\u00e3o que demonstra uma completa falta de vis\u00e3o e um desrespeito pelo trabalho e pela vida das pessoas que dependem da terra para o seu sustento. N\u00e3o se trata apenas de perder um recurso; trata-se de destruir uma parte da identidade regional e de comprometer o futuro de toda uma comunidade que investiu na cultura do castanheiro como uma forma de se manter fiel \u00e0s suas ra\u00edzes, ao mesmo tempo que se adapta \u00e0s exig\u00eancias do mercado global.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m do valor econ\u00f3mico e cultural, a Serra da Nogueira possui um potencial tur\u00edstico que permanece amplamente subaproveitado. Em vez de uma explora\u00e7\u00e3o mineira que destruir\u00e1 a paisagem e afastar\u00e1 os visitantes, a serra poderia ser promovida como um destino de ecoturismo, atraindo aqueles que procuram a paz e a beleza de uma natureza preservada. O ecoturismo \u00e9 uma oportunidade de crescimento sustent\u00e1vel, que beneficia as comunidades locais sem destruir o ambiente. A Serra da Nogueira poderia tornar-se um exemplo de como o turismo de natureza pode coexistir com as atividades agr\u00edcolas e contribuir para o desenvolvimento econ\u00f3mico de uma forma que respeita e valoriza o territ\u00f3rio. No entanto, esta vis\u00e3o de futuro \u00e9 sacrificada em nome de uma explora\u00e7\u00e3o de curto prazo que deixar\u00e1 apenas um rasto de devasta\u00e7\u00e3o e perda.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas esta explora\u00e7\u00e3o mineira, para al\u00e9m dos impactos ambientais e econ\u00f3micos, parece levantar s\u00e9rias quest\u00f5es sobre a transpar\u00eancia do processo. Segundo as popula\u00e7\u00f5es locais, o projeto tem sido conduzido de forma opaca, sem a consulta e participa\u00e7\u00e3o adequadas das comunidades diretamente afetadas. Consta que as vozes das popula\u00e7\u00f5es, que conhecem o valor da serra e dela dependem para o seu sustento, t\u00eam sido ignoradas. A Ag\u00eancia Portuguesa do Ambiente (APA), que deveria proteger o patrim\u00f3nio natural e assegurar processos de decis\u00e3o transparentes e justos, aparenta manter um padr\u00e3o de permissividade, deixando transparecer uma falta de transpar\u00eancia que j\u00e1 vimos noutros casos, como no controverso neg\u00f3cio das barragens do Douro. A mesma aparente indiferen\u00e7a aos interesses das comunidades, a mesma aparente predisposi\u00e7\u00e3o para favorecer interesses econ\u00f3micos em detrimento do bem comum. Esta aparente postura n\u00e3o s\u00f3 descredibiliza a APA, como tamb\u00e9m p\u00f5e em causa a integridade de todo o processo e alimenta um clima de desconfian\u00e7a e revolta entre as popula\u00e7\u00f5es locais, que se sentem tra\u00eddas pelo pr\u00f3prio Estado, o qual deveria defender os seus direitos e interesses.<\/p>\n\n\n\n<p>Destruir a Serra da Nogueira \u00e9 mais do que uma perda ambiental; \u00e9 um ataque \u00e0 identidade e ao modo de vida de uma regi\u00e3o que, ao longo de s\u00e9culos, encontrou na natureza uma aliada e uma fonte de sustento. \u00c9 apagar um legado de resist\u00eancia, uma cultura de respeito pela terra e uma hist\u00f3ria de adapta\u00e7\u00e3o e resili\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>As promessas de desenvolvimento e de cria\u00e7\u00e3o de emprego s\u00e3o ilus\u00f3rias, pois os efeitos, a existirem, ser\u00e3o tempor\u00e1rios; ao mesmo tempo, os riscos para o ambiente e a sa\u00fade p\u00fablica s\u00e3o evidentes enquanto a explora\u00e7\u00e3o mineira durar e, quando terminar, o que restar\u00e1 para as popula\u00e7\u00f5es que dependiam da serra? Restar\u00e1 um territ\u00f3rio degradado, uma comunidade desamparada e um sentimento de perda irrepar\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00e9 o momento de agir. Este \u00e9 o momento de levantar a voz e defender a Serra da Nogueira, porque proteger este territ\u00f3rio \u00e9 proteger a nossa heran\u00e7a, o nosso futuro e a possibilidade de um pa\u00eds que valoriza o seu patrim\u00f3nio natural. Que o grito de Tr\u00e1s-os-Montes ecoe por todo o pa\u00eds e que o governo ou\u00e7a e responda a este apelo com a responsabilidade e o respeito que as comunidades e o ambiente merecem.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, Dinheiro Vivo No cora\u00e7\u00e3o de Tr\u00e1s-os-Montes, a Serra da Nogueira ergue-se como um monumento natural e cultural, um santu\u00e1rio que espelha a alma e a hist\u00f3ria de uma regi\u00e3o esquecida pelo centralismo. 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