{"id":48710,"date":"2024-11-04T14:35:00","date_gmt":"2024-11-04T14:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=48710"},"modified":"2024-11-06T14:41:58","modified_gmt":"2024-11-06T14:41:58","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-53-3-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-3-2-3-2-2-2-3-4-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-51","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=48710","title":{"rendered":"O Centralismo est\u00e1 a matar a minha Terra"},"content":{"rendered":"\n<p><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>\u00d3scar Afonso, Dinheiro Vivo<\/strong><\/span><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.dinheirovivo.pt\/7105626049\/o-centralismo-esta-a-matar-a-minha-terra\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" style=\"width:16px;height:16px\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><em>Nasci na Terra de Miranda, no ventre do planalto mirand\u00eas, onde as arribas do Douro e demais montanhas se erguem como sentinelas, guardi\u00e3s de uma terra onde a imensid\u00e3o do c\u00e9u se encontra com a profundidade da alma. Este peda\u00e7o de Portugal, escondido nos confins do mapa, pode parecer irrelevante aos olhos de quem nunca o pisou, de quem nunca ouviu o vento gelado rasgar as manh\u00e3s de inverno ou sentiu o calor intenso do ver\u00e3o que faz as pedras escaldarem. Mas, para mim, para n\u00f3s que aqui nascemos, esta \u00e9 a verdadeira p\u00e1tria. \u00c9 uma terra que habitamos, que habita em n\u00f3s, que nos define e que nos d\u00e1 o mais valioso: o sentido de perten\u00e7a, a nossa l\u00edngua, a nossa alma.<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Cresci em Sendim, uma vila do concelho de Miranda do Douro, onde as pedras parecem guardar as vozes de quem ali viveu, onde o sendin\u00eas (uma vers\u00e3o do mirand\u00eas) ecoa como uma prece, uma l\u00edngua que vai desaparecendo, mas que teima em resistir. O sendin\u00eas\/mirand\u00eas \u00e9 mais do que palavras. \u00c9 a express\u00e3o de uma hist\u00f3ria de s\u00e9culos, contada nas longas noites frias de inverno \u00e0 volta da lareira e nas noites quentes de ver\u00e3o, nas ruas e pra\u00e7as. Cada palavra era um peda\u00e7o de n\u00f3s, um fragmento da nossa mem\u00f3ria. E hoje, sinto que, com cada palavra que se perde, \u00e9 tamb\u00e9m uma parte de quem sou que se vai desvanecendo, como uma fogueira que se apaga lentamente.<\/p>\n\n\n\n<p>A Terra de Miranda, com as suas paisagens vastas e o seu c\u00e9u sem fim, \u00e9, para muitos, um lugar de liberdade. Mas esta liberdade \u00e9 uma miragem. Aqui, onde o horizonte \u00e9 infinito, os nossos sonhos esbarram nas fronteiras invis\u00edveis do esquecimento, nas barreiras que nos afastam do progresso, das oportunidades, do futuro que nunca chega. Os habitantes sentem-se prisioneiros de uma cela invis\u00edvel, onde o que \u00e9 belo tamb\u00e9m aprisiona, onde cada jovem que parte deixa uma ferida aberta, uma nova aus\u00eancia que se enra\u00edza no cora\u00e7\u00e3o da terra.<\/p>\n\n\n\n<p>Sou filho dessa terra que me deu tudo \u2013 as mem\u00f3rias, a l\u00edngua, o orgulho de ser mirand\u00eas \u2013, mas que tamb\u00e9m me ensinou a dor de partir, de deixar para tr\u00e1s o lugar onde nasci e onde aprendi o valor da tradi\u00e7\u00e3o, da fam\u00edlia, do sangue. Parti como tantos outros, levado pela necessidade, pela aus\u00eancia de futuro, pelo sil\u00eancio que esmaga os sonhos. E a cada quil\u00f3metro que me afasta da minha terra, carrego um peso, uma saudade incur\u00e1vel, um peda\u00e7o da minha alma que ficou para tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a Terra de Miranda n\u00e3o morre apenas porque os jovens partem. Ela morre porque foi abandonada por quem deveria cuidar dela, por quem a v\u00ea de longe, nas luzes das grandes cidades, mas nunca lhe toca, nunca sente a sua dor. D\u00e9cadas de centralismo, de pol\u00edticas cegas e distantes, levaram tudo o que esta terra tinha para dar, deixando-nos esmagados, com as migalhas, com uma sensa\u00e7\u00e3o de injusti\u00e7a que \u00e9 t\u00e3o profunda quanto as suas arribas e montanhas. As barragens, s\u00edmbolos de progresso para alguns, s\u00e3o, para os mirandeses, cicatrizes profundas. As \u00e1guas e o patrim\u00f3nio da regi\u00e3o s\u00e3o sugados, transformados em fortunas para outros, sem que nada seja devolvido. A cada barragem constru\u00edda, vai-se mais um peda\u00e7o do territ\u00f3rio, uma mem\u00f3ria submersa, uma riqueza roubada. E, enquanto isso, a terra vai definhando, os jovens partem, a l\u00edngua morre. A identidade local vai sendo apagada, pouco a pouco, sem que nada seja feito.<\/p>\n\n\n\n<p>Cresci a sentir o peso deste esquecimento, a ver a minha terra ser tratada como uma curiosidade, como um peda\u00e7o de museu, um lugar bonito de onde outros tiram riqueza, mas onde ningu\u00e9m investe, onde ningu\u00e9m se preocupa com as pessoas que ali vivem. A Terra de Miranda \u00e9 como uma m\u00e3e que nos ama, mas que n\u00e3o nos pode dar o que precisamos. E, por isso, partimos. Deixamos para tr\u00e1s a terra que nos deu vida, a l\u00edngua que nos ensinou a falar, as tradi\u00e7\u00f5es que nos moldaram. E, ao partirmos, levamos connosco a dor de saber que estamos a deixar um lugar que nos \u00e9 mais do que querido, que \u00e9 uma parte de quem somos.<\/p>\n\n\n\n<p>E o que resta para quem fica? Resta o sil\u00eancio. Um sil\u00eancio profundo, vazio, que ecoa nas ruas desertas, nas casas vazias, nas palavras n\u00e3o ditas em mirand\u00eas. O que resta \u00e9 um vazio que consome a alma, uma tristeza que \u00e9 quase uma sombra a pairar sobre cada recanto desta terra. Esta \u00e9 a verdadeira trag\u00e9dia da Terra de Miranda: uma riqueza que n\u00e3o nos pertence, uma l\u00edngua que morre, uma juventude que parte e que, provavelmente, nunca mais volta.<\/p>\n\n\n\n<p>E, no entanto, esta terra \u00e9 rica. Rica em hist\u00f3ria, rica em recursos, rica em tudo o que deveria ser suficiente para nos sustentar, para nos dar o que precisamos. Mas essa riqueza \u00e9 levada para longe. A carne de vaca mirandesa, o vinho das encostas do Douro, a energia das barragens \u2013 tudo isso enriquece outros, enquanto a popula\u00e7\u00e3o local fica cada vez mais pobre, mais esquecida. Ficam apenas as promessas vazias, as pol\u00edticas que nunca se concretizam e a sensa\u00e7\u00e3o de invisibilidade para o resto do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Sinto que, a cada dia que passa, a Terra de Miranda vai morrendo um pouco mais. A cada jovem que parte, a cada palavra de mirand\u00eas que se perde, a cada promessa quebrada, vamos ficando mais vazios, mais despojados da nossa identidade. E o que mais d\u00f3i \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia, o saber que se est\u00e1 a perder mais do que uma l\u00edngua, mais do que uma cultura. Est\u00e1-se a perder a pr\u00f3pria ess\u00eancia, aquilo que torna esta comunidade \u00fanica.<\/p>\n\n\n\n<p>A Terra de Miranda precisa de mais do que promessas. Precisa de a\u00e7\u00f5es concretas, de pol\u00edticas que tragam vida a este planalto, que devolvam o que lhe \u00e9 devido, que permitam aos jovens ver um futuro aqui, em vez de uma necessidade de partida. Precisa de uma reforma profunda, de um grito de justi\u00e7a, de uma nova forma de olhar para o interior, n\u00e3o como uma paisagem para turistas, mas como um lugar de vida, de cultura, de futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>O tempo de agir j\u00e1 vai tarde. O pa\u00eds n\u00e3o pode mais ignorar o que se desmorona em sil\u00eancio. N\u00e3o podemos permitir que o centralismo mate o interior, que continue a desertifica\u00e7\u00e3o lenta de territ\u00f3rios inteiros onde h\u00e1 ainda uma r\u00e9stia de chama de uma cultura viva, uma l\u00edngua, um povo que resiste. Precisamos de uma nova dire\u00e7\u00e3o, de uma mudan\u00e7a estrutural e decisiva que traga vida ao que resta e proteja o que ainda subsiste no interior. As terras esquecidas de Portugal n\u00e3o podem ser deixadas para tr\u00e1s, e cada dia que passa sem a\u00e7\u00e3o \u00e9 uma nova cicatriz na alma do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Chegou a hora das pol\u00edticas p\u00fablicas reconhecerem que a vida de uma na\u00e7\u00e3o vai muito al\u00e9m da sua capital, que o desenvolvimento, a dignidade e a esperan\u00e7a devem pulsar em cada aldeia, em cada vila e em cada cidade. \u00c9 urgente que a aloca\u00e7\u00e3o de recursos reflita a import\u00e2ncia da proximidade, porque \u00e9 a n\u00edvel local, junto das pessoas, que as solu\u00e7\u00f5es se tornam reais. O interior precisa de autonomia, de investimento e de uma voz, para que possa reerguer-se e se valorizar com a mesma intensidade que o litoral.<\/p>\n\n\n\n<p>Portugal \u00e9, neste momento, uma das na\u00e7\u00f5es mais centralizadas da Uni\u00e3o Europeia, com um peso irris\u00f3rio da despesa p\u00fablica local e regional no total da despesa p\u00fablica. As decis\u00f5es tomadas em Lisboa parecem cada vez mais alheias \u00e0 realidade dos que vivem longe dos grandes centros urbanos, dos que ainda teimam em fazer do interior a sua casa. Esta falta de investimento no interior n\u00e3o \u00e9 apenas um desrespeito pela diversidade cultural e hist\u00f3rica do pa\u00eds, \u00e9 um erro estrat\u00e9gico que amea\u00e7a o futuro do todo nacional. A desertifica\u00e7\u00e3o das nossas aldeias e o abandono das tradi\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem continuar a ser apenas n\u00fameros em relat\u00f3rios. S\u00e3o peda\u00e7os de Portugal que se apagam, s\u00e3o vozes que se calam, s\u00e3o sonhos que nunca se realizar\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E das duas uma: ou continuamos a centralizar o poder e os recursos, condenando o interior ao esquecimento, ou tomamos o caminho da verdadeira justi\u00e7a territorial. Esta escolha n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o administrativa, \u00e9 uma decis\u00e3o de vida ou morte para as nossas comunidades, para o nosso patrim\u00f3nio, para a nossa l\u00edngua e a nossa cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>O futuro de Portugal deve ser constru\u00eddo em torno de um pa\u00eds inteiro, onde cada regi\u00e3o, cada aldeia, vila e cidade tem um papel a desempenhar e um valor inestim\u00e1vel a preservar. Precisamos de pol\u00edticas que reconhe\u00e7am isso, que protejam e invistam no que ainda resta, que incentivem a autonomia regional e a cria\u00e7\u00e3o de uma economia forte e sustent\u00e1vel no interior.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, Dinheiro Vivo Nasci na Terra de Miranda, no ventre do planalto mirand\u00eas, onde as arribas do Douro e demais montanhas se erguem como sentinelas, guardi\u00e3s de uma terra onde a imensid\u00e3o do c\u00e9u se encontra com a profundidade da alma. 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