{"id":48190,"date":"2024-03-23T21:21:46","date_gmt":"2024-03-23T21:21:46","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=48190"},"modified":"2024-03-23T21:21:48","modified_gmt":"2024-03-23T21:21:48","slug":"a-anormalidade-da-fraude-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-4-2-2-2-2-2-2-226","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=48190","title":{"rendered":"Fraude e corrup\u00e7\u00e3o sob o manto da normalidade &#8211; Li\u00e7\u00f5es do filme \u201cA Zona de Interesse\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-align-left\"><strong><span style=\"color: #ff0000;\"><span style=\"color: #005500;\"><span style=\"color: #ff0000;\">Daniel Esp\u00ednola, Jornal i online<\/span><\/span><\/span><\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft\"><a href=\"https:\/\/ionline.sapo.pt\/artigo\/811904\/fraude-e-corrupcao-sob-o-manto-da-normalidade-licoes-do-filme-a-zona-de-interesse?seccao=Opiniao_i\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p><em>A ideia de que todos n\u00f3s possu\u00edmos um potencial sombrio para a crueldade e a corrup\u00e7\u00e3o pode ser perturbadora, mas tamb\u00e9m \u00e9 libertadora, pois nos isenta da ilus\u00e3o reconfortante de nossa pr\u00f3pria inoc\u00eancia<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>No cen\u00e1rio das discuss\u00f5es sobre \u00e9tica, corrup\u00e7\u00e3o e comportamento humano, algumas ideias emergem como far\u00f3is que iluminam os caminhos obscuros da moralidade. Uma delas \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de \"banalidade do mal\", popularizada pela fil\u00f3sofa Hannah Arendt em sua an\u00e1lise sobre o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusal\u00e9m. Essa ideia desafia a no\u00e7\u00e3o simplista de que o mal \u00e9 exclusivo de indiv\u00edduos monstruosos e s\u00e1dicos, lan\u00e7ando luz sobre a capacidade aparentemente comum das pessoas se envolverem em atos atrozes. N\u00e3o s\u00e3o apenas l\u00edderes autorit\u00e1rios ou fan\u00e1ticos ideol\u00f3gicos que se entregam \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o e \u00e0 crueldade \u2013 muitas vezes s\u00e3o funcion\u00e1rios comuns, vizinhos e colegas de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto muitas vezes buscamos ref\u00fagio na percep\u00e7\u00e3o reconfortante de que o mal reside exclusivamente nos \"outros\", como retratado nos diversos filmes sobre o Holocausto, o recente <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=UX_N_x4CfAI\">\"A Zona de Interesse\"<\/a> dirigido por Jonathan Glazer e premiado com \u00d3scar de Melhor Filme Internacional, resgata as reflex\u00f5es de Arendt nos confrontando com a verdade perturbadora de que o mal pode residir em todos n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme adentra na vida da fam\u00edlia de Rudolf H\u00f6ss, comandante do campo de concentra\u00e7\u00e3o de Auschwitz. Enquanto \u00e0 sua volta o mundo gira em torno da guerra e do genoc\u00eddio, sua fam\u00edlia reside em uma redoma de normalidade e aparente felicidade, ignorando os horrores que ocorrem a poucos metros dali.<\/p>\n\n\n\n<p>Atrav\u00e9s de personagens complexos e situa\u00e7\u00f5es moralmente amb\u00edguas, o filme nos obriga a confrontar a realidade desconfort\u00e1vel de que o mal pode se manifestar de maneiras subtis e insidiosas, muitas vezes disfar\u00e7ado sob a m\u00e1scara da normalidade. O filme retrata personagens como o oficial nazi Paul Doll, que representa o arqu\u00e9tipo do l\u00edder corrupto e autorit\u00e1rio, cujo poder \u00e9 mantido pela opress\u00e3o e pela manipula\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m \u00e9 mostrado o judeu Szmul, que colabora com os nazistas para garantir sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia. Durante o longa-metragem, somos desafiados a olhar para al\u00e9m de estere\u00f3tipos simplistas (bons &amp; maus, \u00e9ticos &amp; corruptos) e encarar a complexidade da natureza humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos voltando para as organiza\u00e7\u00f5es modernas, onde a press\u00e3o por resultados, muitas vezes, conflita com considera\u00e7\u00f5es \u00e9ticas, a no\u00e7\u00e3o do conceito da banalidade do mal assume uma relev\u00e2ncia particular. Os esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o que assolam empresas e institui\u00e7\u00f5es em todo o mundo frequentemente n\u00e3o s\u00e3o resultados de a\u00e7\u00f5es de indiv\u00edduos mal\u00e9volos que agem de forma totalmente isolada, mas sim de uma cultura organizacional que tolera e at\u00e9 mesmo encoraja comportamentos anti\u00e9ticos em nome do lucro e dos resultados.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim como Eichmann, retratado por Arendt como um burocrata eficiente e banal, muitos indiv\u00edduos envolvidos em casos de corrup\u00e7\u00e3o podem parecer ordin\u00e1rios e at\u00e9 mesmo respeit\u00e1veis \u00e0 primeira vista. No entanto, \u00e9 precisamente essa normalidade aparente que torna sua conduta t\u00e3o perigosa, pois ela obscurece a verdadeira natureza de suas a\u00e7\u00f5es e facilita a dissemina\u00e7\u00e3o da corrup\u00e7\u00e3o dentro das organiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao refletirmos sobre as li\u00e7\u00f5es do filme \"A Zona de Interesse\", trazendo para a realidade nas nossas organiza\u00e7\u00f5es atuais, somos lembrados da necessidade de constantemente cultivar uma cultura de responsabilidade e de integridade. Nem todos temos a possibilidade de nos tornarmos carrascos, mas n\u00f3s permitimos, ou os encorajamos, a cometer atrocidades em prol do nosso conforto e seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>O filme exp\u00f5e as falhas do tecido social de forma perturbadora, sugerindo que a recusa em agir diante da injusti\u00e7a pode ser t\u00e3o prejudicial quanto a pr\u00f3pria injusti\u00e7a e a apatia e a complac\u00eancia podem ser formas de consentimento t\u00e1cito para atrocidades. A ideia de que todos n\u00f3s possu\u00edmos um potencial sombrio para a crueldade e a corrup\u00e7\u00e3o pode ser perturbadora, mas tamb\u00e9m \u00e9 libertadora, pois nos isenta da ilus\u00e3o reconfortante de nossa pr\u00f3pria inoc\u00eancia. O desafio \u00e0 banalidade do mal, onde quer que ela se manifeste, se concretiza pelo reconhecimento da nossa capacidade de intervir na realidade n\u00e3o apenas como espectadores passivos e indiferentes, mas como agentes ativos de mudan\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniel Esp\u00ednola, Jornal i online A ideia de que todos n\u00f3s possu\u00edmos um potencial sombrio para a crueldade e a corrup\u00e7\u00e3o pode ser perturbadora, mas tamb\u00e9m \u00e9 libertadora, pois nos isenta da ilus\u00e3o reconfortante de nossa pr\u00f3pria inoc\u00eancia<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,129],"tags":[],"class_list":["post-48190","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-jornal-i-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/48190","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=48190"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/48190\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":48191,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/48190\/revisions\/48191"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=48190"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=48190"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=48190"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}