{"id":48081,"date":"2024-02-12T19:38:27","date_gmt":"2024-02-12T19:38:27","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=48081"},"modified":"2024-02-13T19:44:07","modified_gmt":"2024-02-13T19:44:07","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-53-3-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-3-2-3-2-2-2-3-4-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-4-7","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=48081","title":{"rendered":"O impacto do aumento dos custos de transporte mar\u00edtimo na infla\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>\u00d3scar Afonso, Dinheiro Vivo<\/strong><\/span><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/www.dinheirovivo.pt\/192268684\/o-impacto-do-aumento-dos-custos-de-transporte-maritimo-na-inflacao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" style=\"width:16px;height:16px\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\"><em>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas habitu\u00e1mo-nos a sentir \u2018na pele\u2019 os efeitos adversos de eventos iniciados noutras partes do mundo, lembrando-nos que o mundo est\u00e1 completamente interligado, fruto da globaliza\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Alguns autores t\u00eam mesmo chamado os anos mais recentes e vindouros de \u2018permacrise\u2019, ou seja, um estado de crise permanente \u2013 incluindo tamb\u00e9m os efeitos das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, que n\u00e3o vou aqui abordar. Considero esta uma vis\u00e3o demasiado pessimista, penso que, come\u00e7ando por resolver algumas crises \u2013 assim haja bom senso dos l\u00edderes atuais em conflito ou dos que os suceder\u00e3o \u2013, poderemos ajudar a solucionar as demais.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste mil\u00e9nio, recordo a \u2018grande recess\u00e3o\u2019 de 2008 (com origem no segmento \u2018subprime\u2019 do mercado imobili\u00e1rio dos EUA), que contribuiu para a crise de d\u00edvidas soberanas dos anos seguintes, para a qual Portugal foi arrastado ap\u00f3s anos de forte subida do r\u00e1cio da d\u00edvida p\u00fablica nos governos de Jos\u00e9 S\u00f3crates, que teve de pedir ajuda externa e nos levou ao duro programa de ajustamento de 2011-2014.<\/p>\n\n\n\n<p>Estas foram crises que penalizaram a atividade econ\u00f3mica a n\u00edvel global e nacional, tendo sido minoradas por uma expans\u00e3o monet\u00e1ria sem precedentes, com realce para as taxas de juro pr\u00f3ximas de zero e gigantescos programas de compras de ativos adotados pelos principais bancos centrais.<\/p>\n\n\n\n<p>Por seu turno, as crises dos \u00faltimos anos refletiram-se no ressurgimento da infla\u00e7\u00e3o \u2013 a par com o efeito adiado de anos a fio de forte expans\u00e3o monet\u00e1ria \u2013 e levaram a uma vincada invers\u00e3o da pol\u00edtica monet\u00e1ria, com uma subida historicamente r\u00e1pida e forte das taxas de juro. A pandemia por covid-19, em 2020-2021, originou uma disrup\u00e7\u00e3o das cadeias log\u00edsticas internacionais, a que se seguiu, desde fevereiro de 2022, a guerra na Ucr\u00e2nia, que fez disparar os pre\u00e7os da energia (com origem na Uni\u00e3o Europeia, pela necessidade de corte com a energia barata da R\u00fassia), mas tamb\u00e9m afetou o com\u00e9rcio internacional face \u00e0s san\u00e7\u00f5es ocidentais \u00e0 R\u00fassia e \u00e0s restri\u00e7\u00f5es do transporte de cereais no Mar Negro.<\/p>\n\n\n\n<p>A fratura cada vez mais vincada em dois blocos geopol\u00edticos em torno de EUA e China, da qual a guerra na Ucr\u00e2nia pode ser considerada uma manifesta\u00e7\u00e3o, estendeu-se desde outubro de 2023 ao M\u00e9dio Oriente com o ataque do Hamas a Israel \u2013 patrocinado pelo Ir\u00e3o, aliado da Federa\u00e7\u00e3o Russa, por sua vez na esfera da China \u2013 e a subsequente escalada com o contra-ataque de Israel em Gaza, que prossegue h\u00e1 v\u00e1rios meses. Desde dezembro de 2023, os Houtis do I\u00e9men, tamb\u00e9m sob patroc\u00ednio do Ir\u00e3o, come\u00e7aram a bombardear cargueiros na rota do Mar Vermelho, no que constitui um alastramento regional da crise do M\u00e9dio Oriente, levando os EUA e o Reino Unido a intervir para defender essa rota, que pesa cerca de 12% do tr\u00e1fego mar\u00edtimo internacional, segundo especialistas na mat\u00e9ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, um ponto comum nestas v\u00e1rias crises recentes, que tamb\u00e9m tem contribu\u00eddo para a eleva\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o, \u00e9 a subida dos custos de transporte mar\u00edtimo a n\u00edvel internacional, que \u00e9 o tema principal deste artigo. Estes custos vinham a recuar para n\u00edveis mais normais (ap\u00f3s a fortes subidas com a pandemia e, posteriormente, devido \u00e0 guerra na Ucr\u00e2nia), mas desde dezembro que voltaram a disparar em face dos ataques dos Houtis no Mar Vermelho, que continuam por estes dias.<\/p>\n\n\n\n<p>Face a estes ataques, os transportadores t\u00eam duas op\u00e7\u00f5es: ou evitam essa rota, implicando um desvio enorme usando a rota do Cabo da Boa Esperan\u00e7a (\u00c1frica do Sul), ou ent\u00e3o arriscam navegar pelo Mar Vermelho, mas cobram mais ao cliente, em ambos os casos elevando o custo do transporte mar\u00edtimo.<\/p>\n\n\n\n<p>A din\u00e2mica de subida dos custos de transporte mar\u00edtimo \u00e9 vis\u00edvel no \u00edndice sint\u00e9tico Baltic Exchange Dry Index (abrangendo diversas rotas internacionais relevantes), que subiu fortemente em dezembro do ano passado e, apesar de uma recente corre\u00e7\u00e3o em baixa (efeito sazonal passado o grosso do tr\u00e1fego do Natal), continua a registar um forte crescimento hom\u00f3logo (139% em 7 de fevereiro face ao mesmo dia de 2023; a varia\u00e7\u00e3o hom\u00f3loga no pico de 5 de janeiro foi de 148%).<\/p>\n\n\n\n<p>No que se refere \u00e0 componente dos contentores medida pelo Freightos Baltic Index (FBX) \u2013 Global Container Freight Index, a subida hom\u00f3loga \u00e9 menor (69% em 2 de fevereiro, que \u00e9 o valor mais recente, pois a atualiza\u00e7\u00e3o do \u00edndice \u00e9 apenas semanal), mas h\u00e1 menos oscila\u00e7\u00f5es e o \u00edndice estabilizou recentemente num n\u00edvel relativamente elevado. Trata-se de um indicador complementar que atesta a tend\u00eancia de subida recente do custo do transporte mar\u00edtimo.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto ao impacto da subida desse custo na infla\u00e7\u00e3o, vou socorrer-me de um estudo do FMI de mar\u00e7o de 2022, motivado precisamente pelo impacto da pandemia por covid-19 nesses custos.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo esse estudo, intitulado \u201cShipping Costs and Inflation\u201d (2022) de Carri\u00e8re-Swallow, Deb, Furceri, Jim\u00e9nez e Ostry, com base num painel de 46 pa\u00edses entre 1992 e 2021, a elasticidade da infla\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica face aos custos de transporte mar\u00edtimo medidos pelo Baltic Exchange Dry Index \u00e9 de 0,0067 no seu valor m\u00e1ximo, ap\u00f3s doze meses. Isto significa que uma subida de 1% nesses custos leva a um aumento m\u00e1ximo de 0,0067 pontos percentuais (p.p.) na infla\u00e7\u00e3o hom\u00f3loga passado um ano. Assim, fazendo as contas com as subidas reportadas acima do \u00edndice (subidas hom\u00f3logas de 148% a 5 de janeiro, no pico recente, ou 139% em 7 de fevereiro, o \u00faltimo valor), chegamos a impactos na infla\u00e7\u00e3o dom\u00e9stica dos pa\u00edses (incluindo Portugal) na ordem de 0,9 p.p. a 1,0 p.p. passado um ano, o que \u00e9 significativo, mas para que esses acr\u00e9scimos se apliquem a um ano completo \u00e9 preciso que as subidas do \u00edndice usadas nos c\u00e1lculos se mantenham tamb\u00e9m no horizonte de um ano. Assim, se o efeito passar passados 6 meses, o adicional ser\u00e1 cerca de metade num ano, na ordem dos 0,5 p.p., o que tamb\u00e9m n\u00e3o deixa de ser relevante. Para j\u00e1, passaram dois meses desde os ataques dos Houtis, pelo que h\u00e1 que estar atento a estes custos.<\/p>\n\n\n\n<p>Caso esses custos persistam elevados, o seu impacto direto na infla\u00e7\u00e3o penalizar\u00e1 o or\u00e7amento das fam\u00edlias e das empresas, podendo ainda adiar a descida das taxas de juro diretoras do BCE, prolongando as dificuldades sentidas no pagamento de juros do cr\u00e9dito contra\u00eddo em face do n\u00edvel ainda historicamente elevado das taxas de juro.<\/p>\n\n\n\n<p>E nesta an\u00e1lise simples estou a assumir que os custos da energia se mant\u00eam contidos, um pressuposto que facilmente poder\u00e1 sair frustrado se a crise no M\u00e9dio Oriente se agravar, tratando-se de uma das regi\u00f5es do globo com maior concentra\u00e7\u00e3o de produtores de petr\u00f3leo e das mais inst\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais recentemente, a morte de tr\u00eas soldados norte-americanos por mil\u00edcias pr\u00f3-iranianas, na Jord\u00e2nia, j\u00e1 levou os EUA a ripostar atacando combatentes pr\u00f3-iranianos no Iraque e na S\u00edria, pelo que, infelizmente, facilmente poder\u00e3o surgir novas escaladas nesta crise do M\u00e9dio Oriente, mas vamos assumir que n\u00e3o, para efeitos de an\u00e1lise, at\u00e9 porque h\u00e1 elei\u00e7\u00f5es presidenciais nos EUA este ano e n\u00e3o interessa \u00e0 Administra\u00e7\u00e3o Biden um aprofundamento desta crise.<\/p>\n\n\n\n<p>Usando as proje\u00e7\u00f5es mais recentes para a economia portuguesa do Banco de Portugal, do Boletim Econ\u00f3mico de dezembro, a previs\u00e3o de infla\u00e7\u00e3o foi revista em baixa para 2,9% em 2024 (face a um valor de 3,6% no Boletim de outubro). Se admitirmos que os custos com o transporte mar\u00edtimo continuam elevados por mais quatro meses, a infla\u00e7\u00e3o este ano poder\u00e1 ficar pr\u00f3xima de 3,4% (mais 0,5 p.p.), mas se admitirmos que n\u00e3o baixar\u00e3o em 2024, a infla\u00e7\u00e3o poder\u00e1 aproximar-se dos 4% (+1,0 p.p.), o que j\u00e1 \u00e9 um valor alto, sobretudo se considerarmos o impacto acumulado da infla\u00e7\u00e3o passada \u2013 recorde-se que viemos de valores de 8,8% em 2022 e 5,3% em 2023, como j\u00e1 h\u00e1 muito n\u00e3o v\u00edamos no nosso pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>No cen\u00e1rio de infla\u00e7\u00e3o mais adverso, se o governo que sair das elei\u00e7\u00f5es de 10 de mar\u00e7o n\u00e3o tiver a preocupa\u00e7\u00e3o de devolver o excesso de receita fiscal face ao or\u00e7amentado \u2013 como foi o caso do atual governo, agora em gest\u00e3o, cujos \u2018brilharetes\u2019 nas contas p\u00fablicas foram explicados, em grande medida, pelo efeito da infla\u00e7\u00e3o, al\u00e9m do&nbsp;<em>boom<\/em>&nbsp;tempor\u00e1rio do turismo e alguma \u2018engenharia financeira\u2019 \u2013, continuaremos a assistir ao agravamento da carga fiscal para novos m\u00e1ximos hist\u00f3ricos \u00e0 custa de fam\u00edlias e empresas, sem que isso tenha, at\u00e9 ao momento, beneficiado os servi\u00e7os p\u00fablicos, cuja degrada\u00e7\u00e3o \u00e9 evidente aos olhos de todos, pelo que o preju\u00edzo \u00e9 a duplicar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, Dinheiro Vivo Nas \u00faltimas d\u00e9cadas habitu\u00e1mo-nos a sentir \u2018na pele\u2019 os efeitos adversos de eventos iniciados noutras partes do mundo, lembrando-nos que o mundo est\u00e1 completamente interligado, fruto da globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,279],"tags":[],"class_list":["post-48081","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-dinheiro-vivo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/48081","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=48081"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/48081\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":48105,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/48081\/revisions\/48105"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=48081"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=48081"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=48081"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}