{"id":47975,"date":"2023-12-28T15:15:00","date_gmt":"2023-12-28T15:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=47975"},"modified":"2023-12-29T15:29:06","modified_gmt":"2023-12-29T15:29:06","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-7-2-2-2-3-2-4-3-2-31-9-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-75","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=47975","title":{"rendered":"Externalidade positiva de fraudes contabil\u00edsticas"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><span style=\"color: #d8070f;\">Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira, Expresso online<\/span><\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft is-resized\"><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/opiniao\/2023-12-28-Externalidade-positiva-de-fraudes-contabilisticas-70520c36\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" style=\"width:20px;height:20px\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p><em>Uma fraude \u00e9 sempre um crime, gerando, em termos econ\u00f3micos, uma ou mais externalidades econ\u00f3micas negativas. Mas \u201cpoder\u00e1 um crime gerar externalidades positivas?\u201d<\/em><\/p>\n\n\n<!--more-->\n\n\n<p>O conceito de externalidade econ\u00f3mica \u00e9 central na Economia. Refere-se aos efeitos colaterais resultantes de uma qualquer decis\u00e3o econ\u00f3mica, n\u00e3o capturados pelo mercado via pre\u00e7o. Por exemplo, o ato de se viajar num ve\u00edculo a combust\u00e3o, pela polui\u00e7\u00e3o que causa, gera uma externalidade negativa para toda a sociedade, para cada cidad\u00e3o em particular. Por\u00e9m, se o sr. Joaquim decidir semear um prado, que floresce na Primavera, ou encher o seu jardim de flores, est\u00e1 a gerar uma externalidade positiva para o seu compadre Manuel, que \u00e9 apicultor, mesmo que n\u00e3o fosse essa a sua inten\u00e7\u00e3o. Acresce que h\u00e1 decis\u00f5es econ\u00f3micas que podem provocar, simultaneamente, externalidades negativas e positivas. \u00c9 o caso da constru\u00e7\u00e3o de uma f\u00e1brica, que pode gerar algum tipo de polui\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m gera emprego e aumento do rendimento local.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma fraude, genericamente considerada, \u00e9 um esquema il\u00edcito ou de m\u00e1-f\u00e9, implementado por algu\u00e9m para obter ganhos \u00e0 custa de terceiros. No caso da fraude contabil\u00edstica, esse esquema assenta na manipula\u00e7\u00e3o das contas de uma empresa de modo que o seu balan\u00e7o, a fotografia que a empresa divulga sobre a sua situa\u00e7\u00e3o financeira, mostre uma imagem diferente da realmente existente. O objetivo do defraudador pode ser obter um ganho para si ou para a empresa \u2013 por exemplo, quando a manipula\u00e7\u00e3o tem em vista mostrar menos lucros dos que os obtidos, para reduzir o pagamento de imposto; ou evitar uma perda \u2013 por exemplo, quando a manipula\u00e7\u00e3o \u00e9 feita no sentido de mostrar uma situa\u00e7\u00e3o financeira saud\u00e1vel, inexistente na realidade, de modo a evitar que os bancos cessem o financiamento \u00e0 empresa. Uma fraude \u00e9 sempre um crime, gerando, em termos econ\u00f3micos, uma ou mais externalidades econ\u00f3micas negativas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPoder\u00e1 um crime gerar externalidades positivas?\u201d, \u00e9 pergunta que parece n\u00e3o fazer sentido, por se antecipar \u00e0 partida uma resposta negativa. Por\u00e9m, os investigadores R. Carnes, D. Christensen e P. Madsen tomaram-na como base do seu artigo \u201cExternalities of financial statement fraud on the incoming accounting labor force\u201d (Journal of Accounting Research). Partindo de um base de dados com informa\u00e7\u00e3o detalhada de mais de dois milh\u00f5es de estudantes americanos, para um per\u00edodo de 20 anos, complementada com mais 10 anos de hist\u00f3rico de uma base de dados profissionais, testaram o impacto no percurso universit\u00e1rio e profissional desses estudantes resultante da ocorr\u00eancia de fraudes contabil\u00edstico-financeiras. Concretamente, analisaram se o facto de ter ocorrido este tipo de fraudes no per\u00edodo em que eram estudantes do ensino secund\u00e1rio, em empresas com sede social nas zonas ou regi\u00f5es em que aqueles viviam, afetou as suas escolhas por \u00e1reas de forma\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica e de atividade profissional ligadas \u00e0 contabilidade e mat\u00e9rias conexas.<\/p>\n\n\n\n<p>Encontraram evid\u00eancia de que os jovens que tinham estado expostos a informa\u00e7\u00e3o sobre esse tipo de fraudes tenderam a escolher em maior grau cursos e \u00e1reas de especializa\u00e7\u00e3o ligados \u00e0 contabilidade e afins, mais tarde enveredando por carreiras profissionais ligadas a tais \u00e1reas, como sejam a auditoria e a revis\u00e3o de contas (CPA, Certified Public Accountant). Adicionalmente, a partir da informa\u00e7\u00e3o de que dispunham, os investigadores sugerem que tais escolhas ter\u00e3o tido na origem raz\u00f5es n\u00e3o pecuni\u00e1rias, j\u00e1 que s\u00e3o \u00e1reas profissionalmente menos reconhecidas e rent\u00e1veis do que outras ligadas \u00e0 parte comercial das empresas. Concluem que a ocorr\u00eancia de tal tipo de fraudes, adicionalmente a todas as externalidades negativas que provocaram, ter\u00e1 gerado uma natureza positiva ao direcionar jovens estudantes para \u00e1reas de forma\u00e7\u00e3o e, mais tarde, carreiras profissionais geralmente menos procuradas e mais ligadas ao servi\u00e7o de cariz p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o resultados v\u00e1lidos para o contexto americano, que contrariam a expetativa gen\u00e9rica que se teria \u00e0 partida quanto \u00e0 resposta \u00e0 pergunta formulada. Dada a censura social e judicial associada \u00e0 ocorr\u00eancia de tais fraudes e as consequ\u00eancias sociais negativas que em muitos casos elas geram, seria de esperar que os jovens que sofreram tal exposi\u00e7\u00e3o tivessem ficado traumatizados \u2013 como hoje, por tudo e por nada, se teme possa acontecer \u2013 e procurassem \u00e1reas de forma\u00e7\u00e3o e profissionais distintas das que mais de perto interagem com aqueles acontecimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Perceber qual o racional que levou a tais escolhas por parte dos estudantes \u00e9 muito mais do que mera curiosidade. \u00c9 procurar fazer sentido dos resultados da investiga\u00e7\u00e3o. O artigo \u00e9 omisso quanto a este aspeto. Ser\u00e1 que no caso apresentado o racional das escolhas foi id\u00eantico ao que leva jovens a enveredarem por uma carreira m\u00e9dica na sequ\u00eancia da ocorr\u00eancia de doen\u00e7a grave num familiar ou amigo? Ou dos que decidem ser bombeiros, na sequ\u00eancia da exposi\u00e7\u00e3o a inc\u00eandios?<\/p>\n\n\n\n<p>Se foi, \u00e9-se levado a crer que mesmo no meio do mal desponta sempre algo de bom, por diminuto que seja.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira, Expresso online Uma fraude \u00e9 sempre um crime, gerando, em termos econ\u00f3micos, uma ou mais externalidades econ\u00f3micas negativas. 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