{"id":47490,"date":"2023-05-06T10:28:00","date_gmt":"2023-05-06T10:28:00","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=47490"},"modified":"2023-05-10T10:31:43","modified_gmt":"2023-05-10T10:31:43","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-53-3-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-3-2-3-2-2-2-3-4-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-12","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=47490","title":{"rendered":"Dados econ\u00f3micos e decis\u00f5es pol\u00edticas"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>\u00d3scar Afonso, Dinheiro Vivo<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"https:\/\/www.dinheirovivo.pt\/opiniao\/dados-economicos-e-decisoes-politicas-16300380.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"cc_cursor alignleft wp-image-19\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>Recentemente, o INE revelou uma melhoria nos dados da atividade econ\u00f3mica e dos pre\u00e7os.<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<div class=\"t-article-body-1\">\n<div class=\"t-ab-i\">\n<div class=\"t-ab-content js-sshow-sidebar-1-ref-content\">\n<div class=\"t-abc-i\">\n<div class=\"t-abc-i-i js-article-content-rm-full js-sshow-sidebar-1-ref-content-full\">\n<p>Apesar de favor\u00e1vel, essa evolu\u00e7\u00e3o deve ser vista como conjuntural e, por isso mesmo, n\u00e3o \u00e9 \u00fatil que entre como fator decisivo numa altura de grande instabilidade a n\u00edvel pol\u00edtico, que deve ser debelada para que n\u00e3o prejudique o normal funcionamento da sociedade e da economia no per\u00edodo mais alargado da legislatura.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o Presidente da Rep\u00fablica esteve bem ao dizer \"pode haver alguma boa economia e isso n\u00e3o ser suficiente para haver boa pol\u00edtica\", mas \u00e9 preciso relativizar e enquadrar os recentes dados econ\u00f3micos de forma mais substanciada para que mere\u00e7am apenas a import\u00e2ncia devida aos olhos da opini\u00e3o p\u00fablica, \u00e9 esse o contributo deste artigo.<\/p>\n<p>Na altura de reda\u00e7\u00e3o deste artigo, a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica estava j\u00e1 mais degradada, pois a rejei\u00e7\u00e3o pelo Primeiro-Ministro do pedido de demiss\u00e3o do Ministro das Infraestruturas, Jo\u00e3o Galamba (que seria a segunda demiss\u00e3o do Ministro dessa pasta), gerou discord\u00e2ncia do Presidente da Rep\u00fablica, que ter\u00e1 agora de tomar decis\u00f5es dif\u00edceis para debelar a instabilidade pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Tr\u00eas cen\u00e1rios est\u00e3o em cima da mesa nesta altura: (i) N\u00e3o fazer nada para j\u00e1 e esperar que a continua\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito \u00e0 TAP traga a lume novas revela\u00e7\u00f5es e leve o Primeiro-Ministro a uma remodela\u00e7\u00e3o ministerial (ou mesmo \u00e0 sua demiss\u00e3o), o que n\u00e3o \u00e9 garantido, ou d\u00ea ainda mais for\u00e7a e sustenta\u00e7\u00e3o \u00e0 escolha de uma das duas op\u00e7\u00f5es seguintes; (ii) Demitir o Governo para que o Primeiro-Ministro forme um novo elenco governativo; (iii) Dissolver a Assembleia da Rep\u00fablica e convocar elei\u00e7\u00f5es legislativas antecipadas.<\/p>\n<p>Vejamos ent\u00e3o as raz\u00f5es pelas quais a recente melhoria dos dados econ\u00f3micos deve ser vista como \"uma gota no oceano\" e n\u00e3o influenciar de forma relevante as decis\u00f5es do Presidente da Rep\u00fablica e do pr\u00f3prio Primeiro-Ministro, nem as inten\u00e7\u00f5es de voto dos cidad\u00e3os eleitores.<\/p>\n<p>Comecemos pelos n\u00fameros da evolu\u00e7\u00e3o do PIB, que mede o andamento da atividade econ\u00f3mica. A estimativa r\u00e1pida do INE (sujeita a revis\u00e3o) mostrou um crescimento real em cadeia de 1,6%, que foi o mais alto da UE (dados do Eurostat), como enfatizaram as not\u00edcias, mas em muitos casos esqueceram-se de mencionar que, para j\u00e1, apenas h\u00e1 12 pa\u00edses com dados dispon\u00edveis, menos de metade do total, pelo que a compara\u00e7\u00e3o \u00e9 muito incompleta e preliminar.<\/p>\n<p>Por outro lado, o crescimento hom\u00f3logo de 2,5% do PIB (o terceiro maior em 12 pa\u00edses da UE com dados), em termos reais, n\u00e3o deixa de traduzir um abrandamento face ao trimestre anterior (3,2%) e ao conjunto de 2022 (6,7%). Conforme assinalado em cr\u00f3nicas anteriores, a atividade econ\u00f3mica em Portugal tem refletido a retoma mais acelerada do que antecipado do turismo, beneficiando da imagem de pa\u00eds seguro e longe da guerra, bem como a continua\u00e7\u00e3o da realiza\u00e7\u00e3o de despesa adiada durante a pandemia usando as poupan\u00e7as guardadas nessa altura.<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia desses fatores ir\u00e1 desvanecer-se de forma gradual, pois h\u00e1 alguma in\u00e9rcia.<\/p>\n<p>Em termos de componentes do PIB, a estimativa r\u00e1pida do INE para j\u00e1 apenas permite destacar, de forma qualitativa (os dados quantificados ser\u00e3o disponibilizados s\u00f3 daqui a algum tempo), que a redu\u00e7\u00e3o do crescimento hom\u00f3logo do PIB resultou da \"desacelera\u00e7\u00e3o do consumo privado e da redu\u00e7\u00e3o do investimento, determinada por um contributo negativo da varia\u00e7\u00e3o de exist\u00eancias\", e s\u00f3 n\u00e3o foi superior devido \u00e0 \"acelera\u00e7\u00e3o das exporta\u00e7\u00f5es de bens e servi\u00e7os e abrandamento das importa\u00e7\u00f5es de bens e servi\u00e7os\".<\/p>\n<p>Ao n\u00edvel do consumo, os dados deflacionados das vendas a retalho no primeiro trimestre (j\u00e1 dispon\u00edveis) mostram uma nova queda hom\u00f3loga das despesas com \"alimenta\u00e7\u00e3o, bebidas e tabaco\", bem como um abrandamento das outras despesas exceto combust\u00edvel, sendo claro o impacto negativo da perda de poder de compra e da subida das taxas de juro.<\/p>\n<p>Ao n\u00edvel do investimento, a execu\u00e7\u00e3o do PRR est\u00e1 atrasada ao n\u00edvel dos pagamentos (apenas 10%) e a do PT 2030 ainda \"quase n\u00e3o mexe\", j\u00e1 para n\u00e3o falar do dinheiro por executar do PT 2020, sendo este o \u00faltimo ano. Quem olhar para os fracos dados do investimento e a tend\u00eancia negativa no trimestre apontada pelo INE n\u00e3o diria que h\u00e1 tanto dinheiro dispon\u00edvel para investir.<\/p>\n<p>Acresce que o abrandamento hom\u00f3logo do PIB no trimestre \u00e9 compat\u00edvel com as perspetivas de perda de dinamismo da economia em 2023 das principais entidades que fazem previs\u00f5es, para valores de crescimento entre 1,0% (FMI) e 1,8% (Governo e Banco de Portugal), devido \u00e0 desacelera\u00e7\u00e3o da procura interna e externa. A subida do PIB acima do esperado no primeiro trimestre apenas faz esperar uma evolu\u00e7\u00e3o no conjunto do ano mais pr\u00f3xima do limiar superior das previs\u00f5es, mas nada nos garante que o movimento de desacelera\u00e7\u00e3o n\u00e3o se intensifique de forma mais marcada nos pr\u00f3ximos trimestres, dada a incerteza no exterior e mesmo a n\u00edvel interno, em consequ\u00eancia da instabilidade pol\u00edtica. \u00c9 por isso que o fen\u00f3meno do crescimento econ\u00f3mico deve ser analisado em per\u00edodos mais longos, para alisar flutua\u00e7\u00f5es conjunturais.<\/p>\n<p>A realidade \u00e9 que a tend\u00eancia de crescimento econ\u00f3mico de Portugal desde o in\u00edcio do mil\u00e9nio \u00e9 muito fraca (apenas 0,9% ao ano neste mil\u00e9nio, entre 1999 e 2022, pouco mais de metade do registado no conjunto da UE) e a din\u00e2mica de 2023 a 2027 tamb\u00e9m ser\u00e1 relativamente baixa no contexto europeu, a julgar pelas recentes previs\u00f5es do FMI (1,7% ao ano, o d\u00e9cimo valor mais baixo entre os pa\u00edses da UE), conforme referido na cr\u00f3nica anterior.<\/p>\n<p>\u00c9 esta tend\u00eancia de fraco crescimento econ\u00f3mico passado e futuro, em termos relativos, por insufici\u00eancia de reformas, que deve estar na mente dos cidad\u00e3os eleitores na altura de votar, pois \u00e9 o que determina o nosso baixo n\u00edvel de vida, a incapacidade das empresas e do Estado em pagar melhores sal\u00e1rios e, assim, a emigra\u00e7\u00e3o de muitos dos nossos jovens mais talentosos.<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os, a infla\u00e7\u00e3o hom\u00f3loga medida pelo \u00cdndice de Pre\u00e7os no Consumidor (IPC) - representativo da despesa das fam\u00edlias residentes - reduziu-se de 7,4% para 5,7% em abril, mas tal traduziu, sobretudo, a desacelera\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os da eletricidade, do g\u00e1s e dos produtos alimentares, devido a um efeito de base. De facto, o indicador de infla\u00e7\u00e3o subjacente (\u00edndice total excluindo produtos alimentares n\u00e3o transformados e energ\u00e9ticos) reduziu-se de forma muito mais moderada do que o \u00edndice geral, de 7,0% para 6,6%. O INE destaca que \"a grande maioria dos pre\u00e7os considerados no (...) IPC de abril foram recolhidos antes da entrada em vigor da isen\u00e7\u00e3o de IVA num conjunto de bens alimentares essenciais, pelo que os eventuais efeitos desta medida s\u00f3 ter\u00e3o efetivamente impacto no IPC em maio\".<\/p>\n<p>Contudo, n\u00e3o \u00e9 de esperar que a medida tenha um impacto significativo na redu\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o, como o pr\u00f3prio Governador do Banco de Portugal tem apontado, tendo de ser isolada da tend\u00eancia de descida que j\u00e1 se observa para se aferir a influ\u00eancia isolada.<\/p>\n<p>Face ao resto da Europa, a situa\u00e7\u00e3o favor\u00e1vel de Portugal na infla\u00e7\u00e3o (a refletir o maior peso relativo de energias renov\u00e1veis e a menor depend\u00eancia do g\u00e1s natural, incluindo na produ\u00e7\u00e3o de eletricidade, que foi refor\u00e7ada pela ado\u00e7\u00e3o do dito \"Mecanismo Ib\u00e9rico\") j\u00e1 quase desapareceu. Usando agora o \u00cdndice Harmonizado de Pre\u00e7os no Consumidor (IHPC), os dados do Eurostat para abril mostram, para Portugal, uma descida de 8,0% para 6,9%, valor quase em linha com o registado na \u00c1rea Euro e o d\u00e9cimo em 20 pa\u00edses com informa\u00e7\u00e3o (precisamente os da \u00c1rea Euro). Em mar\u00e7o, o valor de 8,0% em Portugal foi o 15.\u00ba mais alto em 27 pa\u00edses da UE, onde o n\u00edvel foi j\u00e1 pouco superior (8,3%). Mais importante, esse diferencial de 0,3 pontos de infla\u00e7\u00e3o abaixo da UE, favor\u00e1vel a Portugal, foi o mais reduzido desde o in\u00edcio da guerra, comparando com um m\u00e1ximo de 2,3 p.p. em mar\u00e7o de 2022 (5,5% em Portugal e 7,8% na UE).<\/p>\n<p>De notar que o IHPC \u00e9 representativo da despesa das fam\u00edlias no territ\u00f3rio, incluindo a despesa de n\u00e3o residentes (turistas), que n\u00e3o \u00e9 considerada no IPC. Assim, a diferen\u00e7a entre a infla\u00e7\u00e3o hom\u00f3loga de 5,7% do IPC e de 6,9% do IHC em abril deve-se, sobretudo, ao crescimento relativamente mais forte dos pre\u00e7os na despesa realizada pelos turistas. Se \u00e9 verdade que tal significa mais dinheiro deixado pelos turistas em Portugal, o que \u00e9 positivo, nesta altura essa procura tamb\u00e9m contribui para o fen\u00f3meno geral da infla\u00e7\u00e3o, esperando-se que abrande dado que o fen\u00f3meno de perda de poder de compra penaliza tamb\u00e9m os turistas.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise acima demonstra que os recentes dados favor\u00e1veis de atividade e pre\u00e7os, de natureza conjuntural, n\u00e3o devem influenciar de forma muito relevante as perspetivas e as decis\u00f5es dos agentes pol\u00edticos face a um quadro geral do Pa\u00eds que, infelizmente, \u00e9 negativo em termos estruturais, com realce para o baixo desempenho no crescimento econ\u00f3mico, instrumental para a melhoria do n\u00edvel de vida e o financiamento do investimento p\u00fablico em educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e inova\u00e7\u00e3o, entre outras \u00e1reas cruciais para o desenvolvimento econ\u00f3mico sustentado.<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, Dinheiro Vivo Recentemente, o INE revelou uma melhoria nos dados da atividade econ\u00f3mica e dos pre\u00e7os.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,279],"tags":[],"class_list":["post-47490","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-dinheiro-vivo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/47490","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=47490"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/47490\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":47491,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/47490\/revisions\/47491"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=47490"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=47490"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=47490"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}