{"id":47455,"date":"2023-04-20T19:41:16","date_gmt":"2023-04-20T19:41:16","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=47455"},"modified":"2023-04-23T19:45:53","modified_gmt":"2023-04-23T19:45:53","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-7-2-2-2-3-2-4-3-2-31-9-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-57","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=47455","title":{"rendered":"M\u00e9dias, frangos e truques em tempo de infla\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><span style=\"color: #d8070f;\">Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira, Expresso online<\/span><\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft\"><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/opiniao\/2023-04-20-Medias-frangos-e-truques-em-tempo-de-inflacao-110a88bf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p><em>A narrativa do Governo refere que n\u00e3o se podem aumentar demasiado os sal\u00e1rios sob pena de se alimentarem as tens\u00f5es inflacionistas. Por\u00e9m, \u00e9 ele mesmo que pega em milhares de milh\u00f5es de euros e atribui subs\u00eddios \u201ca torto e a direito\u201d, subs\u00eddios para quase tudo<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>A m\u00e9dia estat\u00edstica proporciona-se, com facilidade, a servir de base a hist\u00f3rias do tipo \u201c<em>nonsense<\/em>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma delas, muito popular, \u00e9 a que toma como contexto a refei\u00e7\u00e3o de dois companheiros. Encomendaram um frango assado. Este foi servido quando um dos convivas estava momentaneamente ausente. O outro, n\u00e3o esperou, iniciando a refei\u00e7\u00e3o. Quando o primeiro chegou o frango tinha desaparecido, tragado pelo apetite voraz do segundo. Para efeitos estat\u00edsticos, em m\u00e9dia, cada um dos personagens consumiu meio frango. [Para al\u00e9m de se sentir defraudado, seria maior a irrita\u00e7\u00e3o do primeiro conviva se soubesse que lhe foi imputado o consumo de parte do frango?]<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e9dia, como medida estat\u00edstica, apresenta o inconveniente, que a hist\u00f3ria ilustra, de atribuir a cada elemento da popula\u00e7\u00e3o envolvida a mesma propor\u00e7\u00e3o, independentemente do que, no caso, consumiu. \u00c9, em termos metaf\u00f3ricos, \u201co casaco que n\u00e3o serve ao gordo, nem fica bem ao magro\u201d. Por tal motivo, o respetivo uso, diretamente, sem a intermedia\u00e7\u00e3o de outras medidas estat\u00edsticas, \u00e9 pass\u00edvel de gerar enviesamentos, que podem levar a injusti\u00e7as, porque, sob o manto de que todos t\u00eam igual comportamento, uns \u201ccomem muito\u201d e outros \u201ccomem pouco ou nada\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Baixe-se do dom\u00ednio dos frangos para o do rendimento. As distor\u00e7\u00f5es s\u00e3o as mesmas. Por exemplo, segundo a Pordata, em 2020, na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, o sal\u00e1rio m\u00e9dio mensal era de 1.168 euros para os homens (1.328 euros para as mulheres). \u00c9 \u00f3bvio que h\u00e1 muitos funcion\u00e1rios que ganham menos do que a m\u00e9dia e, claro, muitos que ganham mais. Talvez por isso, o Governo, quando se trata de ajustar sal\u00e1rios, no \u00e2mbito da sua pol\u00edtica de redu\u00e7\u00e3o administrativa das desigualdades, procura distribuir assimetricamente o que h\u00e1 dispon\u00edvel, atribuindo proporcionalmente mais a quem ganha menos. Significa que tem presente que a m\u00e9dia n\u00e3o \u00e9 medida estat\u00edstica indicada para ser utilizada diretamente neste tipo de contexto.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, do mesmo modo que as pessoas v\u00e3o tendo lapsos de mem\u00f3ria, cada vez mais not\u00f3rios \u00e0 medida que a idade avan\u00e7a, tamb\u00e9m o Governo parece denotar este tipo de lapsos. \u00c9 certo que em tais casos fica sempre a d\u00favida se ser\u00e3o mesmo lapsos de mem\u00f3ria \u2013 por estar h\u00e1 j\u00e1 muito tempo em fun\u00e7\u00f5es \u2013 ou se \u00e9 de prop\u00f3sito para defraudar quem trabalha. [Isto \u00e9 sarcasmo, obviamente.]<\/p>\n\n\n\n<p>Concretize-se. Face a uma taxa de infla\u00e7\u00e3o esperada para 2023 de cerca de 6% (B. Portugal), o Governo decidiu que se tinham de ajustar os sal\u00e1rios dos trabalhadores. Era esperado. No caso da fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica, a estrat\u00e9gia que delineou e imp\u00f4s foi a seguinte: como a expetativa para o ano corrente era de um crescimento m\u00e9dio da massa salarial pr\u00e9-ajustamento de cerca de 3,6%, por via de promo\u00e7\u00f5es, ajustamentos salariais e novas contrata\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o ao ajustamento salarial para compensa\u00e7\u00e3o da infla\u00e7\u00e3o deduziu esse incremento. Parece ter-se esquecido das distor\u00e7\u00f5es que a utiliza\u00e7\u00e3o acr\u00edtica da m\u00e9dia tem associada. Neste caso, que n\u00e3o \u00e9 uma mera hist\u00f3ria \u201cnonsense\u201d, tais distor\u00e7\u00f5es ocasionam um grau n\u00e3o despiciendo de injusti\u00e7a, pela desigualdade de tratamento subjacente. [Leitor, n\u00e3o se esque\u00e7a da irrita\u00e7\u00e3o do conviva que n\u00e3o comeu frango.]<\/p>\n\n\n\n<p>Em simult\u00e2neo, na distribui\u00e7\u00e3o do montante que havia para ajustamentos, o mesmo Governo j\u00e1 n\u00e3o se esqueceu das limita\u00e7\u00f5es inerentes \u00e0 m\u00e9dia e, para o provar, voltou a percentualmente discriminar pela positiva quem ganhava menos.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 pela inconsist\u00eancia relativa das solu\u00e7\u00f5es adotadas em cada uma das situa\u00e7\u00f5es referidas, \u00e9 \u00f3bvio que o recurso do Governo \u00e0 m\u00e9dia do crescimento salarial esperado foi um truque para defraudar os funcion\u00e1rios. F\u00ea-lo, a todos.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos que viram os seus sal\u00e1rios ajustados por raz\u00f5es diversas da infla\u00e7\u00e3o, porque se esta n\u00e3o estivesse presente as remunera\u00e7\u00f5es teriam aumentado em termos reais. Devido ao referido truque esse aumento desapareceu como ajustamento inflacion\u00e1rio. No caso dos funcion\u00e1rios que n\u00e3o tiveram direito a qualquer promo\u00e7\u00e3o o impacto foi ainda pior. No espa\u00e7o de dois anos, contando o de 2023 e tamb\u00e9m o \u201cb\u00f3nus\u201d de 1% que o Governo muito recentemente \u201cofereceu\u201d, ter\u00e3o o respetivo sal\u00e1rio real reduzido em pelo menos 10%, s\u00f3 por via da infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A narrativa do Governo refere que n\u00e3o se podem aumentar demasiado os sal\u00e1rios sob pena de se alimentarem as tens\u00f5es inflacionistas. Por\u00e9m, \u00e9 ele mesmo que pega em milhares de milh\u00f5es de euros e atribui subs\u00eddios \u201ca torto e a direito\u201d, subs\u00eddios para quase tudo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais um ato de verdadeiro e profissional ilusionismo. Quase t\u00e3o grande como a perda real de rendimento que desde h\u00e1 muito a classe m\u00e9dia paulatinamente vem verificando, \u00e9 a irrita\u00e7\u00e3o sentida pelo facto de se estar constantemente a ser defraudado [\u201ccomido\u201d] pelo executivo.<\/p>\n\n\n\n<p><em>PS: Declara\u00e7\u00e3o de interesses. O autor \u00e9 funcion\u00e1rio p\u00fablico, mas nem sequer teve direito a cheirar o frango.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira, Expresso online A narrativa do Governo refere que n\u00e3o se podem aumentar demasiado os sal\u00e1rios sob pena de se alimentarem as tens\u00f5es inflacionistas. 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