{"id":47397,"date":"2023-03-23T15:05:00","date_gmt":"2023-03-23T15:05:00","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=47397"},"modified":"2023-03-26T17:07:20","modified_gmt":"2023-03-26T17:07:20","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-7-2-2-2-3-2-4-3-2-31-9-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-53","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=47397","title":{"rendered":"De que ser humano estamos falando na agenda anticorrup\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><span style=\"color: #d8070f;\">Daniel Aguiar Esp\u00ednola e Marcus Vinicius Braga,<\/span><\/strong> <strong><span style=\"color: #d8070f;\">Estad\u00e3o<\/span><\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft\"><a href=\"https:\/\/www.estadao.com.br\/politica\/gestao-politica-e-sociedade\/de-que-ser-humano-estamos-falando-na-agenda-anticorrupcao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\"\/><\/a><\/figure><\/div>\n\n\n<p><em>Richard Thaler (1945-), pesquisador americano laureado com o Pr\u00eamio Nobel de Economia em 2017, inserido no ramo do conhecimento comumente chamado de economia comportamental, defendeu em suas obras que o comportamento das pessoas n\u00e3o segue, necessariamente, a l\u00f3gica apontada pela teoria econ\u00f4mica cl\u00e1ssica.<\/em><\/p>\n\n\n\n<!--more-->\n\n\n\n<p>Sustentado nos ombros de outros gigantes, tamb\u00e9m ganhadores do mesmo pr\u00eamio, como Daniel Kahneman (1934-) e Herbert Simon (1916-2001), Thaler humanizou a discuss\u00e3o econ\u00f4mica, observando que o&nbsp;<em>homo economicus<\/em>&nbsp;- chamado por ele de \"Econs\" - que atua e decide de forma racional, com amplo acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o e plena capacidade de processamento, \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o. O mundo, segundo Thaler, \u00e9 feito de pessoas reais, e as escolhas dos indiv\u00edduos n\u00e3o seguem uma racionalidade t\u00e3o perfeita e previs\u00edvel. Para o ganhador do Nobel, antes de \"Econs\", ser\u00edamos, na verdade, \"Humans\".<\/p>\n\n\n\n<p>As discuss\u00f5es de Thaler ilustram algo que j\u00e1 se sabe intuitivamente - que a vis\u00e3o do indiv\u00edduo, suas motiva\u00e7\u00f5es e sua l\u00f3gica, s\u00e3o pressupostos relevantes para qualquer constructo te\u00f3rico. E em tempos nos quais as discuss\u00f5es de integridade andam t\u00e3o afloradas, em especial na Administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, certamente essa abordagem se aplica \u00e0 quest\u00e3o: De que ser humano estamos falando quando o tema \u00e9 a agenda anticorrup\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>Quando se tenta compreender as motiva\u00e7\u00f5es que levam um agente p\u00fablico a adotar uma conduta desonesta, o senso comum nos arrasta para os extremos de pessoas \u00edntegras contrapostas \u00e0s fac\u00ednoras. As primeiras buscam ser corretas em quaisquer circunst\u00e2ncias, e as segundas buscam burlar as regras, qualquer que seja o contexto. Este racioc\u00ednio implica em um reducionismo frente a uma quest\u00e3o t\u00e3o complexa. Todavia essa mesma fal\u00e1cia cotidiana direciona com frequ\u00eancia a agenda anticorrup\u00e7\u00e3o governamental, gerando implica\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas e reflexos nas pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa vis\u00e3o simplista, a honestidade seria algo dado, de foro \u00edntimo, fruto de hist\u00f3ria familiar ou de uma forma\u00e7\u00e3o religiosa, e se fortaleceria atrav\u00e9s de convencimentos externos, fundamentados em uma s\u00f3lida base moral. Superestima-se dessa forma o altru\u00edsmo, na vis\u00e3o de que os indiv\u00edduos buscar\u00e3o sempre fazer a coisa certa, independentes de um sistema de san\u00e7\u00f5es e incentivos, simplesmente por terem personalidades que cultuam valores, convencidos de seguir a senda do bem, independente do contexto.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao sair dessa vis\u00e3o manique\u00edsta, tem-se avan\u00e7os na explica\u00e7\u00e3o para a honestidade e desonestidade dos indiv\u00edduos derivada dos estudos do economista Gary Becker (1930-2014), que sugeriu que as pessoas cometeriam crimes com base em uma an\u00e1lise racional de cada situa\u00e7\u00e3o. Tal concep\u00e7\u00e3o baseava-se em uma an\u00e1lise de custo-benef\u00edcio, em que o indiv\u00edduo estimaria as vantagens do ato desonesto, as poss\u00edveis puni\u00e7\u00f5es, e a probabilidade de ser descoberto.<\/p>\n\n\n\n<p>Com base nesta teoria, entende-se que para reduzir as atitudes desonestas, o Estado poderia optar por interven\u00e7\u00f5es com diferentes graus de coer\u00e7\u00e3o, tais como realizar campanhas informativas sobre os riscos relacionados \u00e0s condutas, penalizar com \"toler\u00e2ncia zero\" situa\u00e7\u00f5es de fraude e corrup\u00e7\u00e3o etc. Construindo assim um sistema de incentivos e san\u00e7\u00f5es que aumentariam os custos de se cometer atos corruptos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo essa abordagem,&nbsp; que se sobrep\u00f5e a uma vis\u00e3o de fossiliza\u00e7\u00e3o do car\u00e1ter, n\u00e3o explica todos os fen\u00f4menos.&nbsp; As rea\u00e7\u00f5es que as pessoas apresentam frente a dilemas \u00e9ticos s\u00e3o muitas vezes inconsistentes, ou at\u00e9 hip\u00f3critas, se comparadas com suas autoimagens ou forma\u00e7\u00f5es \u00e9ticas - ou seja, as pessoas podem se atribuir possuidoras de certos princ\u00edpios morais ou serem instru\u00eddas para agirem dessa forma, mas frequentemente encontram justificativas para agirem de modo contr\u00e1rio a eles.<\/p>\n\n\n\n<p>Discuss\u00f5es a partir das obras do pesquisador israelense Dan Ariely (1967-), um cr\u00edtico das ideias de Becker, demonstram que as quest\u00f5es que perpassam a atua\u00e7\u00e3o corrupta dos indiv\u00edduos se baseiam em uma racionalidade distinta daquela que tradicionalmente pens\u00e1vamos. Atrav\u00e9s de estudos cient\u00edficos, Ariely observou que as pessoas tendem a trapacear menos do que poderiam, mesmo quando n\u00e3o h\u00e1 possibilidade de detec\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, elas agem de forma desonesta mais do que imaginam, por raz\u00f5es que s\u00e3o uma mistura complexa de disposi\u00e7\u00f5es, quadros cognitivos e influ\u00eancias situacionais - at\u00e9 o limite em que elas possam manter uma autoimagem \u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma breve explana\u00e7\u00e3o, j\u00e1 se veem tr\u00eas vis\u00f5es do ser humano e das suas motiva\u00e7\u00f5es para a probidade. Uma centrada no tra\u00e7o moral imanente, a segunda no c\u00e1lculo mental de custo-benef\u00edcio do ato corrupto, e uma terceira que se pauta na pr\u00f3pria percep\u00e7\u00e3o do agente em rela\u00e7\u00e3o a sua moralidade, permeada pela rea\u00e7\u00e3o de terceiros. Tr\u00eas prismas que impactam, como pressupostos, na constru\u00e7\u00e3o dos mecanismos que instrumentalizam a&nbsp; agenda anticorrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Perceber que a agenda se sustenta por uma determinada vis\u00e3o de mundo, e que n\u00e3o \u00e9 coerente as vezes, quebra a vis\u00e3o supostamente hegem\u00f4nica da atua\u00e7\u00e3o anticorrup\u00e7\u00e3o, como fez Thaler com a economia comportamental. Assim, se traz para essas pol\u00edticas e orienta\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas o fundamento de estudos das ci\u00eancias comportamentais, rompendo paradigmas de ado\u00e7\u00e3o de modelos padronizados de regulamenta\u00e7\u00e3o, bem como de a\u00e7\u00f5es de comunica\u00e7\u00e3o adotadas em programas de promo\u00e7\u00e3o de integridade de cunho eminentemente moralista, remetendo a padr\u00f5es \u00e9ticos abstratos e \u00e0 boa vontade individual.<\/p>\n\n\n\n<p>Um componente central da agenda anticorrup\u00e7\u00e3o consiste, portanto, em entender a a\u00e7\u00e3o \u00e9tica (ou anti\u00e9tica) como um comportamento humano, em toda a sua complexidade e contextualiza\u00e7\u00e3o, carregado de seus fatores individuais, culturais e organizacionais. Nesse campo, os estudos das ci\u00eancias comportamentais, que trazem \"Humans\" para o centro das discuss\u00f5es, podem ser de grande utilidade para novas interven\u00e7\u00f5es e aprimoramento daquelas tradicionalmente empregadas, buscando pol\u00edticas anticorrup\u00e7\u00e3o mais efetivas e menos onerosas, e que lidem com pessoas reais.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Daniel Aguiar Esp\u00ednola e Marcus Vinicius Braga, Estad\u00e3o Richard Thaler (1945-), pesquisador americano laureado com o Pr\u00eamio Nobel de Economia em 2017, inserido no ramo do conhecimento comumente chamado de economia comportamental, defendeu em suas obras que o comportamento das pessoas n\u00e3o segue, necessariamente, a l\u00f3gica apontada pela teoria econ\u00f4mica cl\u00e1ssica.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72],"tags":[],"class_list":["post-47397","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/47397","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=47397"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/47397\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":47404,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/47397\/revisions\/47404"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=47397"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=47397"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=47397"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}