{"id":46442,"date":"2022-01-29T22:04:21","date_gmt":"2022-01-29T22:04:21","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=46442"},"modified":"2022-02-10T22:05:21","modified_gmt":"2022-02-10T22:05:21","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-53-3-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-3-2-3-2-2-2-3-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=46442","title":{"rendered":"Custos da infla\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>\u00d3scar Afonso, Dinheiro Vivo<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"https:\/\/www.dinheirovivo.pt\/opiniao\/custos-da-inflacao-14526367.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"cc_cursor alignleft wp-image-19\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"25\" height=\"23\" \/><\/a><\/p>\n<div>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Infla\u00e7\u00e3o \u00e9 um conceito econ\u00f3mico que traduz o aumento sustentado do n\u00edvel de pre\u00e7os dos bens e servi\u00e7os (tipicamente de um cabaz representativo) num territ\u00f3rio (habitualmente numa economia) e num determinado per\u00edodo. Usualmente, a respetiva taxa \u00e9 medida com base na varia\u00e7\u00e3o do \u00edndice de pre\u00e7os no consumidor. Este, tendo subjacente o cabaz de bens e servi\u00e7os representativo do padr\u00e3o m\u00e9dio de consumo, permite medir o valor que os consumidores t\u00eam de gastar para manterem o n\u00edvel de vida, ao longo do tempo.<\/p>\n<p>Curiosamente, a infla\u00e7\u00e3o tanto pode significar que a economia est\u00e1 em dificuldades como pode ser um sinal de vitalidade. Nesta cr\u00f3nica pretendo descrever doze efeitos potenciais da infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>1. Corr\u00f3i o poder de compra da moeda. Dito por outras palavras, diminui a quantidade do que pode ser comprado com determinada quantidade de moeda, reduzindo assim o respetivo poder de compra. Nesse sentido, tende a encorajar os agentes econ\u00f3micos a adquirir ativos alternativos \u00e0 moeda, que perdem mais lentamente valor.<\/p>\n<p>2. Incentiva despesas, poupan\u00e7as e investimentos, no curto prazo. Uma resposta previs\u00edvel \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o do poder de compra da moeda passa por antecipar compras ou adquirir ativos imunes \u00e0s varia\u00e7\u00f5es de pre\u00e7os. Para os consumidores, significa antecipar a compra de bens com alguma durabilidade, ou poupar e investir em ativos financeiros ou em metais preciosos. Para as empresas, significa realizar investimentos que, em circunst\u00e2ncias diferentes, poderiam ser adiados para mais tarde.<\/p>\n<p>3. Causa mais infla\u00e7\u00e3o. As aquisi\u00e7\u00f5es e investimentos antecipados pela infla\u00e7\u00e3o pressionam a sua procura, pelo que fomentam a infla\u00e7\u00e3o, criando um ciclo de\u00a0<em>feedback<\/em>. Por outras palavras, a oferta de moeda supera a procura, e o seu pre\u00e7o - o poder de compra - cai. Como os agentes econ\u00f3micos gastam mais rapidamente na tentativa de reduzir o tempo de dete\u00e7\u00e3o da moeda, no limite, pode haver fen\u00f3menos de hiperinfla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>4. Penaliza a confian\u00e7a na moeda. A moeda desempenha um triplo papel: meio de troca, unidade de conta, e reserva de valor. Estas fun\u00e7\u00f5es, e em especial a primeira, s\u00f3 s\u00e3o poss\u00edveis com confian\u00e7a na moeda. O que permite trocar \"um peda\u00e7o de papel\" por um bem ou servi\u00e7o \u00e9 a confian\u00e7a de que (esse papel) manter\u00e1 o seu poder de compra. Se a moeda perder valor de forma consider\u00e1vel, os agentes econ\u00f3micos deixam de ter confian\u00e7a e deixa de cumprir as suas fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>5. Aumenta o custo dos empr\u00e9stimos, perante bancos centrais independentes. Particularmente desde os anos 80, o quadro para a defini\u00e7\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas macroecon\u00f3micas mudou. Os governos perderam os instrumentos de oferta monet\u00e1ria, que felizmente passaram para a responsabilidade dos bancos centrais. Por sua vez, a pol\u00edtica monet\u00e1ria viu-se constrangida por regras vinculativas para evitar uma oferta monet\u00e1ria excessiva. A necessidade de disciplina monet\u00e1ria foi justificada pelos potenciais efeitos negativos resultantes de uma infla\u00e7\u00e3o indesejada. Os bancos centrais t\u00eam \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o dois instrumentos principais que, de formas diferentes, se baseiam na varia\u00e7\u00e3o da quantidade de moeda em circula\u00e7\u00e3o nas economias. Desejando diminuir a infla\u00e7\u00e3o, o primeiro passa por retirar moeda do sistema, vendendo t\u00edtulos do governo, mas tem pouco efeito a longo prazo. A segunda op\u00e7\u00e3o consiste em aumentar a taxa de juro, desincentivando o cr\u00e9dito e, consequentemente, o consumo e o investimento, enquanto incentiva a poupan\u00e7a. Deste modo, a circula\u00e7\u00e3o da moeda diminui, e a sua escassez faz aumentar o seu valor, embora, em regra, os bancos centrais n\u00e3o queiram que a moeda se torne exageradamente valiosa por temerem defla\u00e7\u00e3o. Devem, isso sim, fixar a taxa de juro de modo a manter a infla\u00e7\u00e3o em torno de uma taxa alvo (geralmente 2% nas economias desenvolvidas e 3% a 4% nas economias emergentes).<\/p>\n<p>6. Diminui o custo dos empr\u00e9stimos, perante bancos centrais (fracos porque) coniventes com pol\u00edticos. Quando os bancos centrais se deixam guiar por pol\u00edticos, como acontecia at\u00e9 aos anos 80, a infla\u00e7\u00e3o baixava os custos do empr\u00e9stimo, mas felizmente este cen\u00e1rio acabou! Neste caso, quando os n\u00edveis de d\u00edvida das fam\u00edlias eram significativos, os pol\u00edticos acham eleitoralmente lucrativo ordenar ao banco central que emitisse moeda, comprando t\u00edtulos do governo, ou diminuir a taxa de juro, ati\u00e7ando a infla\u00e7\u00e3o e afastando temporariamente as obriga\u00e7\u00f5es dos eleitores. Quando era o pr\u00f3prio governo que estava muito endividado, os pol\u00edticos tinham incentivo ainda mais \u00f3bvio para emitir moeda e us\u00e1-la para pagar a d\u00edvida, fomentando a infla\u00e7\u00e3o. Foi o \"gosto interesseiro\" dos pol\u00edticos pela infla\u00e7\u00e3o que convenceu os pa\u00edses mais bem geridos a entregar a pol\u00edtica monet\u00e1ria a bancos centrais independentes.<\/p>\n<p>7. Reduz o desemprego. Keynes teorizou que a Grande Depress\u00e3o resultou, em parte, da rigidez dos sal\u00e1rios \u00e0 baixa. O desemprego aumentou porque os trabalhadores resistiram aos cortes salariais e, consequentemente, foram despedidos. O mesmo fen\u00f3meno pode tamb\u00e9m funcionar no sentido inverso: a rigidez ascendente dos sal\u00e1rios significa que, quando a infla\u00e7\u00e3o atinge uma determinada taxa, os custos salariais reais dos empregadores caem e os empregadores contratam mais trabalhadores. Esta hip\u00f3tese parece explicar a correla\u00e7\u00e3o inversa entre desemprego e infla\u00e7\u00e3o - uma rela\u00e7\u00e3o conhecida como curva de Phillips -, mas uma explica\u00e7\u00e3o mais comum coloca o \u00f3nus no desemprego. \u00c0 medida que o desemprego cai, os empregadores s\u00e3o for\u00e7ados a pagar mais. Ora, aumentos salariais melhoram o poder de compra dos consumidores, estimulando a infla\u00e7\u00e3o porque a economia \u00e9 \"aquecida\".<\/p>\n<p>8. Aumenta o crescimento econ\u00f3mico, no curto prazo. A menos que haja um banco central atento para aumentar as taxas de juro, a infla\u00e7\u00e3o desencoraja a poupan\u00e7a, dado que o poder de compra dos dep\u00f3sitos diminui com o tempo. Esta perspetiva incentiva consumidores e empresas a gastar ou investir. No curto prazo, o impulso \u00e0s despesas e ao investimento gera atividade econ\u00f3mica e, assim, conduz ao crescimento econ\u00f3mico. Da mesma forma, a correla\u00e7\u00e3o negativa da infla\u00e7\u00e3o com o desemprego implica uma tend\u00eancia para p\u00f4r mais pessoas a trabalhar, estimulando o crescimento.<\/p>\n<p>9. Reduz o emprego, a competitividade e o crescimento econ\u00f3mico, no longo prazo. A literatura fornece ampla evid\u00eancia de que a produ\u00e7\u00e3o requer liquidez porque os produtores precisam de moeda para fazer pagamentos. Considerando restri\u00e7\u00f5es Cash-in-Advance (CIA) sobre a produ\u00e7\u00e3o em geral e o investimento em I&amp;D em particular, emerge uma rela\u00e7\u00e3o negativa entre a infla\u00e7\u00e3o e a taxa de crescimento econ\u00f3mico, j\u00e1 que as restri\u00e7\u00f5es CIA sob taxas de juros altas, impostas pela pol\u00edtica monet\u00e1ria dos bancos centrais, penalizam a produ\u00e7\u00e3o e, portanto, os motores do crescimento. Consequentemente, desincentiva o investimento, a competitividade e a cria\u00e7\u00e3o de emprego.<\/p>\n<p>10. Enfraquece a moeda local. Uma infla\u00e7\u00e3o significativa est\u00e1 geralmente associada a uma moeda enfraquecida no contexto internacional - i.e., deprecia a taxa de c\u00e2mbio. As economias que importam quantidades significativas de bens e servi\u00e7os t\u00eam de pagar mais pelas importa\u00e7\u00f5es em termos de moeda local, havendo uma deteriora\u00e7\u00e3o dos termos de troca.<\/p>\n<p>11. Refor\u00e7a a moeda local, perante bancos centrais independentes. Mas tamb\u00e9m a este n\u00edvel, a infla\u00e7\u00e3o pode refor\u00e7ar a moeda, dependendo do contexto. Desejando diminuir a infla\u00e7\u00e3o, bancos centrais independentes aumentam a taxa de juro, incentivando, por esta via, a procura de moeda nacional e, deste modo, contribuem para refor\u00e7ar a moeda.<\/p>\n<p>12. Penaliza a estabilidade social. Numa conjuntura de infla\u00e7\u00e3o, os pre\u00e7os t\u00eam tend\u00eancia a variar de forma imprevis\u00edvel, o que pode acarretar perdas consider\u00e1veis; por exemplo, ao reduzir o valor das poupan\u00e7as. Habitualmente s\u00e3o os grupos mais desfavorecidos que mais s\u00e3o penalizados.<\/p>\n<\/div>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, Dinheiro Vivo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,279],"tags":[],"class_list":["post-46442","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-dinheiro-vivo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/46442","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=46442"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/46442\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":46474,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/46442\/revisions\/46474"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=46442"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=46442"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=46442"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}