{"id":45872,"date":"2021-03-20T00:47:31","date_gmt":"2021-03-20T00:47:31","guid":{"rendered":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=45872"},"modified":"2021-03-20T00:47:34","modified_gmt":"2021-03-20T00:47:34","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-7-2-2-2-3-2-4-3-2-31-9-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-31","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=45872","title":{"rendered":"Previs\u00f5es para a insensibilidade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira<\/strong><\/span>, Expresso online (108 26\/01\/2021)<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/opiniao\/2021-01-26-Previsoes-para-a-insensibilidade-1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/108-JAMoreira-JAN2021.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2032\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n\n\n\n\n<p><em>However, if I checked the assumptions, they were almost always wrong.\u201d<\/em><em><br>Jonah, in Goldratt e Cox (1993)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Com o futebol em tom menor, jogado longe da turba, os casos dos jogos, continuando a existir, perderam a virul\u00eancia habitual, enviando para segundo plano a pl\u00eaiade de comentadores residentes nos diversos canais. Tomando esse lugar proeminente no \u201cprime time\u201d das esta\u00e7\u00f5es televisivas surgiu um outro tipo de comentadores, os virologistas, os epidemiologistas, os estat\u00edsticos \u201ctout court\u201d, os fazedores de previs\u00f5es sobre a evolu\u00e7\u00e3o pand\u00e9mica, em geral. Profissionais que, por detr\u00e1s da respetiva \u201cexpertise\u201d, s\u00e3o, na maior parte dos casos, v\u00edtimas da respetiva inexperi\u00eancia frente \u00e0s c\u00e2maras, e tamb\u00e9m de um certo deslumbramento pessoal pela oportunidade de sobressa\u00edrem da multid\u00e3o an\u00f3nima dos seus pares. V\u00edtimas, igualmente, dos \u201cpivots\u201d, que lhes procuram extrair opini\u00f5es bomb\u00e1sticas, daquelas repetidas \u201cad nauseum\u201d no rodap\u00e9 dos blocos noticiosos. A an\u00e1lise dos n\u00fameros de mortos e internados, de modo particular as previs\u00f5es, viraram o assunto do momento, num contexto em que se perde, definitivamente, a sensibilidade para o facto de que por detr\u00e1s desses n\u00fameros estarem (ou virem a estar) concidad\u00e3os em sofrimento, v\u00edtimas diretas ou indiretas do v\u00edrus. Para n\u00e3o falar das respetivas fam\u00edlias \u2026<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 poucos dias, no Jornal da Noite da RTP1, o \u201cpivot\u201d de servi\u00e7o ladeou-se de dois desses peritos. Um apresentava quadros e estat\u00edsticas das v\u00edtimas do dia; o outro, propunha previs\u00f5es de infetados e mortos para as pr\u00f3ximas semanas. Era este, de modo particular, o que o jornalista pressionava, numa abordagem do tipo \u201cX milhares de mortos nas pr\u00f3ximas semanas?! E se acontecer isto? E se acontecer aquilo?\u201d Com um (chocante) sorriso na face, potencialmente atribu\u00edvel ao deslumbramento dos minutos de fama que lhe estavam a ser concedidos, o perito respondia a todas as perguntas com uma certeza n\u00e3o compagin\u00e1vel com o que s\u00e3o, na ess\u00eancia, previs\u00f5es, qualquer que seja a respetiva natureza. \u201cSim, se isso acontecer ent\u00e3o o n\u00famero de mortos subir\u00e1 para y milhares, caso contr\u00e1rio ser\u00e1 de y+z milhares\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A determinada altura, para mim, espetador, o irrazo\u00e1vel e defraudador ato de se apresentarem previs\u00f5es como se de certezas se tratasse, fez com que os n\u00fameros deixassem de ser informa\u00e7\u00e3o, passando apenas a valer pela musicalidade das palavras, complementando o colorido do cen\u00e1rio. O tema do momento, o desastre pand\u00e9mico que se vive, deixara de existir. Apenas som e cor. \u201cE acha que a abertura concedida pelo Governo no Natal foi a causa de termos chegado \u00e0 situa\u00e7\u00e3o em que nos encontramos?\u201d, o \u00faltimo esfor\u00e7o do \u201cpivot\u201d para encontrar o rodap\u00e9 das pr\u00f3ximas emiss\u00f5es noticiosas, j\u00e1 nem se percebia onde encaixava, o que \u00e9 que o justificava.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tendo sido lan\u00e7adas as perguntas que efetivamente poderiam ter ajudado a contextualizar os n\u00fameros e deixassem bem claro o que s\u00e3o previs\u00f5es e respetiva fiabilidade, aqueles largos minutos de tempo de antena nunca foram parte de um efetivo servi\u00e7o p\u00fablico noticioso. Por isso, aquele espa\u00e7o televisivo, id\u00eantico ao da generalidade dos restantes canais noticiosos, deve ter sido mais um contributo para a consolida\u00e7\u00e3o da (pelo menos aparente) insensibilidade dos cidad\u00e3os relativamente ao drama que atualmente se vive nos hospitais e em tantas fam\u00edlias. N\u00e3o foi, certamente, esse o prop\u00f3sito do jornalista\/canal, mas ter\u00e1 sido esse o efeito.<\/p>\n\n\n\n<p>Se se pretende sensibilizar os cidad\u00e3os para a extrema gravidade da situa\u00e7\u00e3o \u2013 e tem de se conseguir tal sensibiliza\u00e7\u00e3o, custe o que custar, para que cada um seja parte da solu\u00e7\u00e3o, n\u00e3o do problema \u2013 afigura-se contraindicado que se descarreguem \u201ctoneladas\u201d de previs\u00f5es catastr\u00f3ficas em cima deles. N\u00e3o. Pegue-se numa situa\u00e7\u00e3o real, a de algu\u00e9m que deixou um familiar \u00e0 entrada de uma urg\u00eancia hospitalar, que durante dias esperou ansiosamente que o telefone tocasse e trouxesse uma mensagem de conforto sobre a evolu\u00e7\u00e3o cl\u00ednica favor\u00e1vel do doente, at\u00e9 ao dia em que a mensagem chegou, fora de horas, noite adentro, e trouxe o aperto de uma despedida que n\u00e3o teve lugar, de uma ilus\u00e3o que caiu por terra, de um funeral sem vel\u00f3rio, de um defunto que fez a sua \u00faltima viagem envolto um saco de pl\u00e1stico.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 porque a informa\u00e7\u00e3o do Governo n\u00e3o tem tido a qualidade e foco minimamente necess\u00e1rios a engajar os cidad\u00e3os na cruzada que se tem de lutar, \u00e9 acrescida a import\u00e2ncia dos jornalistas e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social neste dom\u00ednio. Mas que n\u00e3o se trate a situa\u00e7\u00e3o pand\u00e9mica do mesmo que se trata um jogo de futebol com casos. A fazerem-no, ser\u00e3o tamb\u00e9m culpados da insensibiliza\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os para o problema e um contributo para o agravar da situa\u00e7\u00e3o catastr\u00f3fica que o pa\u00eds vive.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira, Expresso online (108 26\/01\/2021) \u00a0 \u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,282],"tags":[],"class_list":["post-45872","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-expresso-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/45872","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=45872"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/45872\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":45873,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/45872\/revisions\/45873"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=45872"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=45872"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=45872"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}