{"id":45831,"date":"2021-03-07T00:01:34","date_gmt":"2021-03-07T00:01:34","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=45831"},"modified":"2021-03-07T00:01:41","modified_gmt":"2021-03-07T00:01:41","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-7-2-2-2-3-2-4-3-2-31-9-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-3-9","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=45831","title":{"rendered":"Os grunhos"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Pedro Moura<\/strong><\/span>, Expresso online (107 20\/01\/2021)<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/opiniao\/2021-01-20-Os-grunhos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2021\/03\/107-PMoura-JAN2021.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2032\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n\n\n\n\n<p>As&nbsp;discuss\u00f5es sobre corrup\u00e7\u00e3o ou fraude tendem a centrar-se em aspetos sist\u00e9micos, tendendo-se a esquecer que o \u2018sistema\u2019 funciona sobre algo muito mais profundo: a cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Os \u2018esquemas\u2019, os deficientes mecanismos de dete\u00e7\u00e3o, o arrastar inconceb\u00edvel dos processos judiciais, a sistem\u00e1tica impunidade dos casos de corrup\u00e7\u00e3o, s\u00e3o todos eles um \u2018sistema\u2019 que \u00e9 baseado na cultura do povo que somos.<\/p>\n\n\n\n<p>Algu\u00e9m considerar, conceber e levar a cabo um ato fraudulento e\/ou corrupto \u00e9 sempre, no limite, um ato individual consciente exercido por um ou mais agentes, no meio de um caldo cultural de costumes e influ\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Importa assim perceber melhor o que \u00e9 esse caldo cultural. Visto sermos p\u00e9ssimos ju\u00edzes em causa pr\u00f3pria (basta termos no\u00e7\u00e3o que somos os \u2018melhores\u2019 do mundo em praticamente tudo), temos de tentar olhar para n\u00f3s a partir de fora, desejavelmente com base em dados com um m\u00ednimo de objetividade e credibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>O site da&nbsp;<a href=\"https:\/\/hi.hofstede-insights.com\/national-culture\">Hofstede Insights<\/a>&nbsp;disponibiliza um conjunto interessante de dados comparativos de tra\u00e7os culturais de um largo n\u00famero de pa\u00edses, entre os quais a nossa ocidental praia lusitana.<\/p>\n\n\n\n<p>Para tentar perceber as diferen\u00e7as entre Portugal e outros pa\u00edses menos corruptos, recorri ao\u00a0<a href=\"https:\/\/www.transparency.org\/en\/cpi\/2019\/index\/\">Corruption Perceptions Index<\/a>\u00a0(CPI) da Transparency International para identificar os pa\u00edses europeus mais bem classificados neste \u00edndice, por forma a comparar com Portugal nas v\u00e1rias dimens\u00f5es culturais do Hofstede Insights. Estes pa\u00edses s\u00e3o: Dinamarca (1\u00ba pa\u00eds no ranking do CPI), Finl\u00e2ndia (3\u00ba lugar CPI), Su\u00ed\u00e7a e Su\u00e9cia (4\u00ba lugar CPI ex-aequo). Para nota, Portugal ocupa o 30\u00ba lugar no CPI, ex-aequo com Barbados, Qatar e Espanha. <\/p>\n\n\n\n<p>Relativamente a \u2018<strong>Power Distance<\/strong>\u2019 (dist\u00e2ncia ao poder), esta dimens\u00e3o expressa o grau em que os membros menos poderosos de uma sociedade aceitam e esperam que o poder seja distribu\u00eddo de forma desigual. Valores baixos nesta dimens\u00e3o espelham sociedades em que as pessoas exigem justifica\u00e7\u00f5es para desigualdades de poder e se esfor\u00e7am para equalizar a distribui\u00e7\u00e3o de mesmo. Valores elevado indiciam uma atitude de \u2018comes e calas\u2019 ou \u2018respeitinho\u2019. Penso que \u00e9 f\u00e1cil de perceber onde Portugal est\u00e1, e em termos de corrup\u00e7\u00e3o onde isto leva.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre a dimens\u00e3o \u2018<strong>Individualism<\/strong>\u2019 (vs \u2018Colectivism\u2019), valores elevados indicam uma estrutura social pouco r\u00edgida, na qual \u00e9 esperado os indiv\u00edduos assumirem a responsabilidade por si e pela sua fam\u00edlia. Valores mais baixos nesta dimens\u00e3o indiciam uma l\u00f3gica mais \u2018Coletivista\u2019, em que os indiv\u00edduos esperam que a fam\u00edlia ou grupos a que pertencem tomem conta deles em troca de uma lealdade inquestion\u00e1vel. Mais uma vez \u00e9 f\u00e1cil de perceber onde lealdade inquestion\u00e1vel leva no que a corrup\u00e7\u00e3o toca, sendo bem clara a posi\u00e7\u00e3o de Portugal tamb\u00e9m nesta escala.<\/p>\n\n\n\n<p>Acerca de \u2018<strong>Long-term Orientation<\/strong>\u2019 (orienta\u00e7\u00e3o ao longo prazo), valores elevados denotam uma sociedade com foco no futuro, apostada na evolu\u00e7\u00e3o social e econ\u00f3mica baseada na mudan\u00e7a e na educa\u00e7\u00e3o, com olhos postos em objetivos de longo prazo, quer para as gera\u00e7\u00f5es atuais, quer para as vindouras. Valores baixos indiciam sociedades com prefer\u00eancia pela manuten\u00e7\u00e3o de tradi\u00e7\u00f5es e normas estabelecidas, olhando com desconfian\u00e7a para mudan\u00e7a sociais. Um dito portugu\u00eas aplic\u00e1vel \u00e0 pontua\u00e7\u00e3o de Portugal nesta escala poderia ser \u2018na mesma como a lesma\u2019 (ou \u2018na lama como a lesma\u2019). Por c\u00e1 todos parecem achar sempre que \u00e9 preciso mudar, mas somente da boca para fora.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora \u2018<strong>Indulgence vs Restraint\u2019<\/strong>&nbsp; (indulg\u00eancia vs constrangimento). Esta dimens\u00e3o representa o n\u00edvel ao qual uma sociedade permite os seus membros gozarem a vida. Valores altos indicam uma sociedade que se permite a gratifica\u00e7\u00e3o derivada da satisfa\u00e7\u00e3o de impulsos humanos b\u00e1sicos e naturais relacionados com a divers\u00e3o e o apreciar da vida. Valores mais baixos s\u00e3o caracter\u00edsticos de sociedades que se regulam por normais sociais mais estritas e repressivas, contr\u00e1rias \u00e0 possibilidade de gratifica\u00e7\u00e3o pessoal. Aparentemente as sociedades dos pa\u00edses em compara\u00e7\u00e3o com Portugal andar\u00e3o mais preocupadas em viver e gozar a vida que em inventar \u2018esquemas manhosos\u2019. Ser\u00e1 que o sermos mais \u2018tristonhos\u2019 nos leva a buscar compensa\u00e7\u00e3o em ocupa\u00e7\u00f5es menos nobres?<\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, a minha dimens\u00e3o favorita: \u2018<strong>Uncertainty Avoidance<\/strong>\u2019 (avers\u00e3o \u00e0 incerteza, ou avers\u00e3o ao risco). Esta dimens\u00e3o representa o grau de inc\u00f3modo dos membros de uma sociedade com a incerteza ou ambiguidade. A principal quest\u00e3o aqui \u00e9: como lida uma sociedade com o facto de o futuro n\u00e3o poder ser conhecido? Evita tomar atitudes perante a incerteza, resignando-se e aceitando passivamente o que vier a ser o futuro, mantendo c\u00f3digos de cren\u00e7a e comportamento r\u00edgidos, bem como intoler\u00e2ncia para com ideias n\u00e3o ortodoxas (valores elevados)? Ou, pelo contr\u00e1rio, aceita a incerteza com naturalidade, tentando gerir e controlar o futuro com uma atitude pragm\u00e1tica e pr\u00e1tica, aberta \u00e0s novidades (valores baixos)? A posi\u00e7\u00e3o de Portugal nesta dimens\u00e3o \u00e9, para mim, exemplificativa de um esp\u00edrito tacanho e medroso, que nos paralisa enquanto sociedade perante o futuro, e nos coloca \u00e0 merc\u00ea de grupos de poder que apostam tudo no clientelismo e na cria\u00e7\u00e3o de um nepotismo democraticamente legitimado.<\/p>\n\n\n\n<p>Para quem gosta de visualiza\u00e7\u00f5es de dados (como eu) deixo uma outra vis\u00e3o dos mesmos dados num outro formato <\/p>\n\n\n\n<p>Diria, no final de tudo isto, que somos o nosso principal inimigo. Diria ainda que enquanto nos continuarmos a enganar alegremente sobre quem realmente somos, abanando a cauda de cada vez que um qualquer site internacional nos nomeia como os melhores do mundo em qualquer categoria sem interesse nenhum, e n\u00e3o assumirmos de vez as nossas lacunas a n\u00edvel cultural, dificilmente teremos uma chance de sair deste marasmo que nos arrasta paulatinamente para a cauda da Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>Combater fraude e corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 combater a nossa pr\u00f3pria cultura de cabe\u00e7a erguida e olhos abertos. N\u00e3o tenhamos medo ou vergonha disso. N\u00e3o culpemos simplesmente o \u2018sistema\u2019 para nos desculparmos a n\u00f3s pr\u00f3prios de todas as vezes que desviamos o olhar ou aceitamos que \u2018\u00e9 mesmo assim\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Tentemos, pelo menos tentemos, n\u00e3o ser um pa\u00eds de grunhos. Acreditem, n\u00e3o nos fica nada bem.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td><strong>Figura 1 \u2013 \u00cdndices segundo Hofsted Insights<\/strong><\/td><\/tr><tr><td><\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-table\"><table><tbody><tr><td><strong>Figura 2 \u2013 \u00cdndices segundo Hofsted Insights<\/strong><\/td><\/tr><tr><td><\/td><\/tr><\/tbody><\/table><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedro Moura, Expresso online (107 20\/01\/2021) \u00a0 \u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,282],"tags":[],"class_list":["post-45831","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-expresso-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/45831","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=45831"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/45831\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":45834,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/45831\/revisions\/45834"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=45831"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=45831"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=45831"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}