{"id":45668,"date":"2020-12-25T13:40:26","date_gmt":"2020-12-25T13:40:26","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=45668"},"modified":"2020-12-25T13:40:28","modified_gmt":"2020-12-25T13:40:28","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-7-2-2-2-3-2-4-3-2-31-9-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-28","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=45668","title":{"rendered":"A soberania do medo e os novos pobres da covid-19"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>M\u00e1rio Tavares da Silva<\/strong><\/span>, Expresso online (097 11\/11\/2020)<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0<\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/opiniao\/2020-11-11-A-soberania-do-medo-e-os-novos-pobres-da-covid-19\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/97-MTSilva-NOV2020.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2032\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p><em>As prioridades s\u00e3o, por conseguinte, muito claras. Recordar os mortos, sempre. Tratar os vivos, todos, sem exce\u00e7\u00e3o. E cuidar j\u00e1, atentamente, dos novos pobres que a covid-19 provocou e vai continuar a provocar. Sem esse cuidado, o n\u00famero de \u00f3bitos ser\u00e1, mais \u00e0 frente, certamente mais impressivo e isso, estou certo, \u00e9 tudo o que n\u00e3o se deseja<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n\n\n\u00c9 hoje incontorn\u00e1vel para todos o tremendo e significativo impacto que a pandemia provocada pelo coronav\u00edrus teve (e infelizmente continua a ter), em maior ou menor medida, um pouco por todo o mundo. O v\u00edrus chegou e n\u00e3o titubeou, fazendo ref\u00e9m a at\u00e9 agora sagrada e intoc\u00e1vel soberania dos Estados. \u00c9, ao fim e ao resto, a pungente e implac\u00e1vel \u201csoberania\u201d ditada por um terr\u00edvel v\u00edrus que a todos subjuga, sem espa\u00e7o e sem tempo para a mais \u00ednfima rea\u00e7\u00e3o.\nS\u00e3o, nesta medida, tempos dif\u00edceis e de inigual\u00e1vel sofrimento aqueles que a humanidade presentemente vive. Impotente, assiste ao curso da Hist\u00f3ria, sem que seja capaz de virar, como sempre ousara fazer, esta tenebrosa p\u00e1gina que aos olhos de todos, persiste em manter-se aberta.\nS\u00e3o dias estranhos, de incerteza, de ang\u00fastia e, tamb\u00e9m, pasme-se, de novas oportunidades. Nos \u00faltimos meses, talvez ditado pela urg\u00eancia e emerg\u00eancia de respostas r\u00e1pidas ao agravamento da situa\u00e7\u00e3o que um pouco por toda a parte se tem feito sentir, n\u00e3o se tem falado noutra coisa sen\u00e3o da covid-19 e, porque n\u00e3o indiferente \u00e0quele agravamento, das recentemente realizadas elei\u00e7\u00f5es presidenciais americanas.\nAssim, \u00e9 a covid-19 e as elei\u00e7\u00f5es americanas que tem pontuado, em prime time, a agenda medi\u00e1tica dos \u00faltimos tempos, como se nada mais existisse no horizonte das prioridades.\nVivemos, por assim dizer, um tempo de incompreens\u00edvel cegueira coletiva em que apenas interessa combater e erradicar definitivamente o v\u00edrus, custe o custar. E j\u00e1 agora \u201cerradicar\u201d aqueles que, como Trump, tanto contribu\u00edram para a sua propaga\u00e7\u00e3o. O ecossistema em que ainda respiramos assemelha-se em tudo a uma fobocracia, em que o medo domina, prolonga-se, espalha-se e deixa todos, sem exce\u00e7\u00e3o, mais ansiosos quanto ao amanh\u00e3. \u00c9 um medo (do grego \u201cph\u00f3bos\u201d) poderoso (do grego \u201ckr\u00e1tos\u201d) e intenso este que nos assola e paralisa, confinando-nos atr\u00e1s das portas de nossas casas e impedindo-nos de ser quem somos. Um medo que nos faz mais pobres, sobretudo de afeto dos que nos s\u00e3o mais queridos, mas, mais importante ainda, tamb\u00e9m mais pobres, na tr\u00e1gica e comum ace\u00e7\u00e3o de pobreza.\nNa realidade, at\u00e9 ao in\u00edcio deste annus horribilis, os n\u00fameros de redu\u00e7\u00e3o da pobreza extrema eram globalmente encorajadores, tendo mesmo o Banco Mundial reportado uma diminui\u00e7\u00e3o de 42% da popula\u00e7\u00e3o vivendo abaixo da linha da pobreza em 1981 para 10% em 2017, o que constituiu, indubitavelmente, um dado muito positivo no combate global \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de pobreza extrema, para mais num quadro em que a popula\u00e7\u00e3o global aumentou no mesmo per\u00edodo de 4,5 mil milh\u00f5es para 7,5 mil milh\u00f5es.\nDada a boa evolu\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o, previa-se, inclusive, que a taxa de pobreza ca\u00edsse abaixo dos 8% at\u00e9 ao final de 2021. No entanto, e para infelicidade de todos n\u00f3s, dadas as restri\u00e7\u00f5es e o fort\u00edssimo impacto que a pandemia provocou, com implica\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas e sociais diretas de magnitude ainda desconhecida, em especial, ao n\u00edvel do desemprego, esse cen\u00e1rio n\u00e3o passar\u00e1, por ora, de um objetivo com concretiza\u00e7\u00e3o adiada.\nNeste progressivo quadro de agravamento, o Banco Mundial espera, antes, aproximadamente, que mais 100 milh\u00f5es de pessoas entrem em situa\u00e7\u00e3o de pobreza extrema e isso, se nada mais houvesse a dizer, \u00e9 algo com que nos devemos todos preocupar. \u00c9, se me permitem, um \u201ccen\u00e1rio de guerra\u201d e de \u201ccat\u00e1strofe alimentar\u201d de dimens\u00f5es estratosf\u00e9ricas aquele que se divisa no horizonte, com muitos e muitos \u201cfilhos da pandemia\u201d a n\u00e3o disporem do m\u00ednimo necess\u00e1rio \u00e0 sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia. Se a tudo isto somarmos, em algumas partes do globo, sobretudo em \u00c1frica, no sul asi\u00e1tico e em algumas regi\u00f5es da Am\u00e9rica Latina, um segundo confinamento geral, a situa\u00e7\u00e3o assumir\u00e1 ainda propor\u00e7\u00f5es bem mais alarmantes.\nNeste particular, diria que o maior desafio que a humanidade ter\u00e1 pela frente ser\u00e1 o de pensar e de executar, o quanto antes, uma estrat\u00e9gia eficaz que permita conter os m\u00faltiplos danos e as severas consequ\u00eancias que a pandemia ir\u00e1 infligir neste bloco de pa\u00edses mais pobres e mais subnutridos, em que a covid-19 \u00e9 \u201capenas\u201d mais uma pandemia a somar a tantas outras de que j\u00e1 s\u00e3o v\u00edtimas e de que, como todos bem sabemos, a tuberculose e a mal\u00e1ria s\u00e3o t\u00e3o s\u00f3 os exemplos mais ilustrativos.\n\u00c9 por isso que se \u00e9 verdade que sempre se poder\u00e1 discutir a natureza, o \u00e2mbito e a dura\u00e7\u00e3o das medidas a adotar pelos diferentes Estados, incluindo aqueles que mais fustigados t\u00eam sido pelo maldito v\u00edrus, tamb\u00e9m n\u00e3o ser\u00e1 menos verdade que todas essas medidas, invariavelmente, devem procurar, em primeira linha, reduzir o n\u00famero de infetados e de mortos covid-19. E, sobre isso, n\u00e3o tenhamos ilus\u00f5es, pois tal imperativo gerar\u00e1 sempre (e disso temos a prova um pouco por toda a Europa), incontornavelmente, uma pesada e duradoura d\u00edvida.\nN\u00e3o deixa, ali\u00e1s, de ser preocupante o facto de serem as economias mais pr\u00f3speras e resilientes as que mais intensamente sofreram os efeitos adversos resultantes da redu\u00e7\u00e3o de presta\u00e7\u00e3o de cuidados m\u00e9dicos a doentes n\u00e3o covid. A t\u00edtulo de exemplo, refira-se um recente estudo do servi\u00e7o nacional de sa\u00fade do Reino Unido que estima em 250.000 o n\u00famero de \u00f3bitos causados diretamente pela falta ou atraso de tratamentos m\u00e9dicos. Para al\u00e9m de tudo isto, h\u00e1 ainda que n\u00e3o olvidar as m\u00faltiplas e n\u00e3o negligenci\u00e1veis sequelas psicol\u00f3gicas e emocionais sofridas por todos e cada um de n\u00f3s, sobretudo pelos mais vulner\u00e1veis, tais como as nossas crian\u00e7as e os nossos idosos.\n\u00c9, sem d\u00favida, um desafio gigante que a todos interpela, num mar imenso e agitado de leis e de regula\u00e7\u00f5es da mais diversa proveni\u00eancia que engolem, sem compaix\u00e3o, os Estados e os seus principais decisores e os impedem de discernir, com lucidez, qual o melhor caminho a seguir.\nFalta, sobretudo, tempo e raz\u00e3o para pensar e melhor decidir.\nUm tempo de que infelizmente n\u00e3o dispomos, e cuja falta nos impele, impotentes, para decis\u00f5es precipitadas, irracionais, ineficientes, de custos bem mais elevados e, sobretudo, que abrem campo a fen\u00f3menos menos edificantes como a fraude e a corrup\u00e7\u00e3o.\nAs prioridades s\u00e3o, por conseguinte, muito claras.\nRecordar os mortos, sempre.\t\nTratar os vivos, todos, sem exce\u00e7\u00e3o.\nE cuidar j\u00e1, atentamente, dos novos pobres que a covid-19 provocou e vai continuar a provocar.\nSem esse cuidado, o n\u00famero de \u00f3bitos ser\u00e1, mais \u00e0 frente, certamente mais impressivo e isso, estou certo, \u00e9 tudo o que n\u00e3o se deseja.\n\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e1rio Tavares da Silva, Expresso online (097 11\/11\/2020) \u00a0 As prioridades s\u00e3o, por conseguinte, muito claras. 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