{"id":45200,"date":"2020-08-18T22:34:16","date_gmt":"2020-08-18T22:34:16","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=45200"},"modified":"2020-08-21T23:54:26","modified_gmt":"2020-08-21T23:54:26","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-7-2-2-2-3-2-4-3-2-31-9-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-1-9","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=45200","title":{"rendered":"Auditores e auditorias em tempo de &#8220;fake news&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio C. Moreira<\/strong><\/span>, Expresso online (078 01\/07\/2020)<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><del><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/opiniao\/2020-07-01-Auditores-e-auditorias-em-tempo-de-fake-news\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/del><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/78-JAMoreira-jul2020.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2032\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><!--more--><\/p>\n\n\n<p>1. Anda meio mundo a procurar circunscrever a difus\u00e3o de \u201cfake news\u201d, para evitar que sejam estrat\u00e9gia para atingir fins menos nobres e possam perverter o jogo democr\u00e1tico. O outro meio mundo, parece ainda n\u00e3o ter despertado para o fen\u00f3meno, ingerindo e digerindo alegremente a informa\u00e7\u00e3o que lhe \u00e9 apresentada.<\/p>\n\n\n\n<p>Nobre tarefa, sem d\u00favida, a desse primeiro meio mundo, envolvendo esfor\u00e7o e recursos gigantescos. Por\u00e9m, pouca ou nenhuma aten\u00e7\u00e3o tem sido dedicada a controlar as \u201cfake news\u201d constantes dos relat\u00f3rios de auditoria financeira \u00e0s contas das empresas (\u201ccertifica\u00e7\u00e3o legal de contas\u201d), muitos deles preparados e assinados por auditores de nomeada.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, a poucos dias do colapso do Banco Esp\u00edrito Santo (BES), a empresa de auditoria, que lhe cobrava anualmente milh\u00f5es de euros pelo trabalho de certifica\u00e7\u00e3o, escrevia no seu relat\u00f3rio que as contas refletiam de forma \u201cverdadeira e apropriada\u201d a atividade do per\u00edodo, bem como a posi\u00e7\u00e3o financeira \u00e0 data do balan\u00e7o. Uma \u201cfake news\u201d, como todos os contribuintes portugueses hoje, dolorosamente, sabem.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e3o estas \u201cfake news\u201d menos gravosas, em termos das respetivas ondas de choque, do que aquelas que as redes sociais produzem abundantemente? Julga-se que n\u00e3o. A informa\u00e7\u00e3o financeira das empresas, quando adulterada, determina decis\u00f5es ineficientes de aplica\u00e7\u00e3o dos recursos econ\u00f3micos existentes, e iniquidade por via de redistribui\u00e7\u00f5es indesejadas de riqueza que geram.<\/p>\n\n\n\n<p>As \u00faltimas semanas foram f\u00e9rteis em not\u00edcias relacionadas com o trabalho de auditores. Oportunidade para, em torno de algumas dessas not\u00edcias, se efetuar uma breve reflex\u00e3o sobre a falta de qualidade de muita da informa\u00e7\u00e3o prestada pelos auditores nos seus relat\u00f3rios de certifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>2. A empresa financeira alem\u00e3 Wirecard saltou para os \u201cnotici\u00e1rios\u201d por ter sido descoberto um \u201cburaco\u201d de cerca de 2 mil milh\u00f5es de euros nas suas contas anuais. No espa\u00e7o de duas semanas, uma das empresas-estrela da bolsa de Frankfurt pura e simplesmente \u201cdesapareceu\u201d. Ainda se conhece muito pouco sobre o assunto, nomeadamente no que respeita ao \u201cmodus operandi\u201d da fraude. O que se sabe aponta para o facto de existirem dep\u00f3sitos banc\u00e1rios registados no respetivo balan\u00e7o cuja exist\u00eancia o auditor n\u00e3o conseguiu comprovar (\u201cfake deposits\u201d), pelo que se recusou a emitir o parecer de que tudo estava conforme. Neste caso, portanto, n\u00e3o h\u00e1 uma brilhante \u201cfake news\u201d para apoiar a argumenta\u00e7\u00e3o produzida no in\u00edcio desta cr\u00f3nica. Por\u00e9m, nem por isso o trabalho do auditor deixa de ser question\u00e1vel em dois aspetos: por um lado, salvo se esse montante desapareceu do dia para a noite (muito pouco prov\u00e1vel, para n\u00e3o dizer imposs\u00edvel), esse mesmo auditor aprovara e supervisionara as contas da empresa de per\u00edodos anteriores, prestadas com periodicidade trimestral, contribuindo ent\u00e3o, \u00e0 data, volunt\u00e1ria ou involuntariamente, para a emiss\u00e3o de \u201dfake news\u201d; por outro, a descoberta da fraude foi despoletada por pe\u00e7as jornal\u00edsticas e relat\u00f3rios produzidos pelo Financial Times, o que n\u00e3o abona em favor da capacidade do auditor para se aperceber do que se passava na empresa e, por iner\u00eancia, dos seus relat\u00f3rios de certifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>3. A n\u00edvel interno, a Associa\u00e7\u00e3o Mutualista Montepio (AMM) divulgou as suas contas individuais relativas ao exerc\u00edcio econ\u00f3mico de 2019, que apresentam um preju\u00edzo de 409 milh\u00f5es de euros. Na opini\u00e3o do Conselho Fiscal da associa\u00e7\u00e3o, o parecer do auditor \u00e9 \u201cdemolidor\u201d. Na verdade, ele desmonta uma \u201cfake news\u201d que o auditor que o precedeu no cargo vinha anualmente renovando: a de que a situa\u00e7\u00e3o financeira da associa\u00e7\u00e3o era s\u00f3lida e o seu futuro n\u00e3o devia ser motivo de preocupa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era, continua a n\u00e3o ser. O valor do Banco Montepio, propriedade da AMM, estava sobreavaliado nas contas desta em cerca de 400 milh\u00f5es de euros (admitindo que as imparidades registadas perfazem a dita sobreavalia\u00e7\u00e3o). H\u00e1 muito que era opini\u00e3o geral entre os analistas que tal ativo estava sobreavaliado, mas o auditor (anterior) n\u00e3o divulgou no seu parecer a incorre\u00e7\u00e3o dos n\u00fameros da\u00ed derivada. Ainda mais grave do que esta situa\u00e7\u00e3o, que agora reduziu a metade o capital pr\u00f3prio da associa\u00e7\u00e3o, \u00e9 a dos impostos diferidos ativos registados no balan\u00e7o da AMM. Situa\u00e7\u00e3o que mereceu do (atual) auditor uma \u201creserva por desacordo\u201d, um parecer grave. Ele refere que os mais de 833 milh\u00f5es de euros que estes impostos representam no Ativo da associa\u00e7\u00e3o n\u00e3o apresentam condi\u00e7\u00f5es de poderem ser recuperados nos pr\u00f3ximos anos, pois implicariam que, nesse per\u00edodo, ela tivesse lucros tribut\u00e1veis da ordem dos 000 milh\u00f5es de euros (nos \u00faltimos anos tem apresentado resultados negativos ou pr\u00f3ximos de zero). Portanto, o que acontece com este ativo relativo a impostos diferidos n\u00e3o \u00e9 muito diferente do que se referiu acima para o caso Wirecard, pois tamb\u00e9m se trata de um ativo que, em verdade, n\u00e3o existe (um \u201cfake asset\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p>Foi neste ano que isso aconteceu? N\u00e3o, evidentemente. Desde que em 2017 a AMM registou esse montante \u2013 com o benepl\u00e1cito do Minist\u00e9rio do Trabalho, que a tutelava (ainda tutela); do Minist\u00e9rio das Finan\u00e7as, que deu o seu toque de Midas para que o registo pudesse ser feito; do auditor da altura; e da CMVM \u2013 Comiss\u00e3o do Mercado de Valores Mobili\u00e1rios, o organismo que supervisiona os auditores \u2013 se sabia que se tratava de uma medida destinada a ofuscar a grave situa\u00e7\u00e3o financeira da associa\u00e7\u00e3o. [Em devido tempo, neste mesmo espa\u00e7o, tive oportunidade de explicar o processo.] De tal modo a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 complicada que o auditor, no seu parecer, expressa a incerteza que existe quanto \u00e0 capacidade da AMM poder continuar a sua atividade no futuro em moldes semelhantes aos atuais. Um parecer, portanto, que neutraliza \u201cfake news\u201d que anualmente vinham sendo divulgadas.<\/p>\n\n\n\n<p>4. Entretanto, na sequ\u00eancia das ondas de choque provocadas pelo referido relat\u00f3rio de auditoria, nas p\u00e1ginas da \u00faltima edi\u00e7\u00e3o semanal do Expresso, a Presidente da CMVM, na entrevista que concedeu, considerou que o descrito impacto nas contas da associa\u00e7\u00e3o era o efeito de \u201cum novo olhar sobre a mesma realidade\u201d [Perspetiva bem po\u00e9tica. N\u00e3o deveria o regulador ter sido, em devido tempo, esse olhar novo, para evitar que a vis\u00e3o distorcida do auditor de servi\u00e7o perdurasse no tempo?]; e que o facto da associa\u00e7\u00e3o ver desaparecer de um momento para o outro metade do seu capital pr\u00f3prio n\u00e3o significa que um auditor (o atual) tenha raz\u00e3o e o outro (o substitu\u00eddo) n\u00e3o [Ao considerar que o montante da corre\u00e7\u00e3o (material) imposta ao balan\u00e7o da AMM se resume a uma quest\u00e3o de pressupostos atuariais, n\u00e3o se est\u00e1 a alhear da real situa\u00e7\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o, acrescentando mais um ponto no argumento de que os relat\u00f3rios de auditoria que certificam as contas das empresas s\u00e3o (em muitos casos) \u201cfake news\u201d?].<\/p>\n\n\n\n<p>Na mesma edi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m foi entrevistada a Presidente da Autoridade de Supervis\u00e3o de Seguros e Fundos de Pens\u00f5es (atual-futura supervisora da atividade da AMM). Referiu que considerava n\u00e3o haver raz\u00e3o para se levar a cabo uma auditoria especial \u00e0 situa\u00e7\u00e3o da associa\u00e7\u00e3o. [Repita-se, no parecer do auditor \u00e0s contas de 2019 consta a incerteza quanto \u00e0 capacidade da mesma prosseguir a sua atividade para futuro.] Procurou sossegar as mentes mais preocupadas prometendo um acompanhamento apertado do caso, a partir de informa\u00e7\u00e3o certificada por um \u201coutro auditor que n\u00e3o o da associa\u00e7\u00e3o\u201d [Um exemplo concreto da coloca\u00e7\u00e3o de \u201cum pol\u00edcia a vigiar um pol\u00edcia\u201d, mais uma machadada na credibilidade da atua\u00e7\u00e3o dos auditores, uma cau\u00e7\u00e3o ao argumento central desta cr\u00f3nica sobre os relat\u00f3rios-\u201cfake news\u201d.].<\/p>\n\n\n\n<p>5. Pode haver problemas que a simples passagem do tempo resolva. A existirem, n\u00e3o se devem assemelhar ao das \u201cfake news\u201d nos relat\u00f3rios de auditoria. Este n\u00e3o vai desaparecer, antes agravar-se. Abstrair da sua exist\u00eancia, com base na ideia de que \u201cinforma\u00e7\u00e3o auditada \u00e9 sempre mais confi\u00e1vel do que informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o auditada\u201d, \u00e9 meter a cabe\u00e7a na areia, esquecendo um problema que tem e vai continuar a ter consequ\u00eancias muito nefastas para o funcionamento das economias. N\u00e3o haver\u00e1, nunca, uma solu\u00e7\u00e3o f\u00e1cil e simples para ele. Mas tem de se construir uma.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio C. 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