{"id":45162,"date":"2020-08-08T12:26:21","date_gmt":"2020-08-08T12:26:21","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=45162"},"modified":"2020-08-08T12:26:24","modified_gmt":"2020-08-08T12:26:24","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-7-2-2-2-3-2-4-3-2-31-9-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-1-7","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=45162","title":{"rendered":"Uni\u00e3o perante a adversidade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Pedro Moura<\/strong><\/span>, Expresso online (077 24\/06\/2020)<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><del><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/opiniao\/2020-06-24-Uniao-perante-a-adversidade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/del><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/77-PMoura-jun2020.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2032\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><!--more--><\/p>\n\n\n<p>Nem de prop\u00f3sito, tenho lido algumas obras sobre a est\u00f3ria da Europa durante o s\u00e9culo XX, e \u00e9 f\u00e1cil de constatar que foi uma verdadeira viagem de montanha russa, com um conjunto de mudan\u00e7as, trag\u00e9dias e sucessos que o mais imaginativo dos autores teria dificuldade em conceber.<\/p>\n\n\n\n<p>Os m\u00faltiplos movimentos s\u00f3cio-pol\u00edticos e ideol\u00f3gicos, as imensas reconfigura\u00e7\u00f5es de fronteiras e poderes estatais, a pr\u00f3pria emerg\u00eancia do Estado-Na\u00e7\u00e3o enquanto forma privilegiada de organiza\u00e7\u00e3o nacional e internacional, os movimentos massivos de desloca\u00e7\u00e3o e homogeneiza\u00e7\u00e3o de popula\u00e7\u00f5es, o horror da guerra e, sobretudo o advento de um per\u00edodo prolongado de paz e melhoria de qualidade de vida dos cidad\u00e3os, a Uni\u00e3o Europeia e a promessa de um espa\u00e7o e identidade supranacional que convivesse de forma s\u00e3 com as especificidades e identidades nacionais, corrigindo assimetrias e assegurando a liberdade, o \u2018modelo Europeu\u2019 que, com todos os seus defeitos e problemas \u00e9 ainda visto pela maior parte do mundo como o melhor exemplo de civiliza\u00e7\u00e3o existente.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 a Europa que eu recebi, \u00e9 a Europa em que eu quero viver, \u00e9 a Europa que eu cada vez mais receio estar a erodir-se e a escapar-nos \u00e0s m\u00e3os de perspetivas e atitudes mi\u00f3picas, interesseiras e ego\u00edstas, assentes numa amn\u00e9sia seletiva dos horrores que o esboroar do projeto europeu pode trazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Sim, h\u00e1 enormes problemas na Europa \/ Uni\u00e3o Europeia. As crises mais recentes t\u00eam trazido ao de cima uma incapacidade sist\u00e9mica de resolver os problemas de sustentabilidade financeira e econ\u00f3mica em conjunto. Atirar dinheiro para cima dos problemas resolve-os no curto prazo, mas cria debilidades que se ir\u00e3o revelar (e ter de pagar mais adiante). Percebe-se a falta de solidariedade dos pa\u00edses mais ricos em rela\u00e7\u00e3o aos mais pobres. H\u00e1 raz\u00e3o de ambos os lados.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas do que n\u00e3o nos podemos nunca esquecer \u00e9 que a desuni\u00e3o e o risco de colapso do projeto europeu trar\u00e1 talvez n\u00e3o a guerra b\u00e9lica e milh\u00f5es de mortos que devemos ter bem presentes na nossa mem\u00f3ria, mas garantidamente trar\u00e1 um empobrecimento generalizado do continente, um agravar ainda maior das desigualdades econ\u00f3micas j\u00e1 sentidas (n\u00e3o s\u00f3 entre pa\u00edses, mas sobretudo dentro dos pr\u00f3prios pa\u00edses), e provavelmente muitos milh\u00f5es de pessoas e fam\u00edlias que passar\u00e3o a ter uma vida bem pior que a gera\u00e7\u00e3o anterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Imagine-se a luta contra as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas numa Europa fragmentada. Qual a probabilidade de sucesso, quando este \u00e9 um problema que n\u00e3o se resolve ao n\u00edvel de um pa\u00eds? Imaginam-se as tens\u00f5es e implica\u00e7\u00f5es de fen\u00f3menos de seca extrema, subida abrupta do n\u00edvel das \u00e1guas do mar ou tropicaliza\u00e7\u00e3o de partes do continente? Estariam mesmo cen\u00e1rios de guerra real assim t\u00e3o longe? A Hist\u00f3ria (n\u00e3o s\u00f3 a do s\u00e9c. XX) \u00e9 bem clara sobre este tipo de situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro tema para o qual \u00e9 tamb\u00e9m fundamental uma l\u00f3gica supranacional \u00e9 a adapta\u00e7\u00e3o a um mundo de livre circula\u00e7\u00e3o de capitais e \u00e0 diverg\u00eancia progressiva entre os rendimentos de capital e de trabalho, um fen\u00f3meno que tem criado uma eros\u00e3o dos rendimentos da classe m\u00e9dia e um sifonamento de capital para o top 1%. Estes fen\u00f3menos agudizam-se ainda na deslocaliza\u00e7\u00e3o progressiva da fun\u00e7\u00e3o trabalho para outros pa\u00edses (fruto da \u2018globaliza\u00e7\u00e3o\u2019), que tem criado press\u00f5es ao n\u00edvel do desemprego, sobretudo das popula\u00e7\u00f5es menos qualificadas. As tens\u00f5es sociais que daqui adv\u00eam criam terreno f\u00e9rtil para o crescimento de fen\u00f3menos pol\u00edticos populistas (n\u00e3o s\u00f3 de direita, mas tamb\u00e9m de esquerda), que naturalmente amea\u00e7am a coes\u00e3o nacional e europeia e as pr\u00f3prias liberdades a que nos habitu\u00e1mos. Cada pa\u00eds pode tentar gerir estes fen\u00f3menos isoladamente, mas mais uma vez, considero ser fundamental complementar a gest\u00e3o nacional destes problemas com uma l\u00f3gica supranacional, europeia.<\/p>\n\n\n\n<p>Para dar tr\u00eas exemplos de outros temas que se enquadram aqui como tendo imenso a ganhar com uma abordagem europeia:<\/p>\n\n\n\n<p>- Fronteiras e Livre circula\u00e7\u00e3o de pessoas: uma das principais marcas distintivas do projeto europeu para os cidad\u00e3os, e um enorme garante da identidade europeia. Ser\u00e1 muito f\u00e1cil, como bem nos apercebemos com a situa\u00e7\u00e3o da covid-19, esta enorme conquista civilizacional cair \u00e0s m\u00e3os das atitudes de alarme nacional. \u00c9 necess\u00e1rio refor\u00e7ar esta conquista, e n\u00e3o permitir que seja usada para gerir populismos e alarmismos;<\/p>\n\n\n\n<p>- Para\u00edsos fiscais e offshores: sendo a pr\u00f3pria UE respons\u00e1vel por muitos destes casos (ver mais <a href=\"https:\/\/www.dinheirovivo.pt\/opiniao\/qual-o-futuro-da-europa\/\">aqui<\/a>) tem mesmo assim vindo a desenvolver um trabalho de regular a circula\u00e7\u00e3o de capitais atrav\u00e9s destes locais por forma a mitigar o desvio de capitais, o n\u00e3o pagamento de impostos devidos e o financiamento de atividades de \u00edndole ilegal e a alta corrup\u00e7\u00e3o. Mesmo tendo em conta a insatisfa\u00e7\u00e3o com os resultados alcan\u00e7ados com uma supervis\u00e3o a n\u00edvel europeu destes fen\u00f3menos, imagine-se uma abordagem meramente nacional;<\/p>\n\n\n\n<p>- Taxa\u00e7\u00e3o de empresas globais: a capacidade de a Uni\u00e3o Europeia funcionar como bloco negocial \u00e9 fundamental para fazer frente aos gigantes imp\u00e9rios empresariais que atuam por todo o planeta, criando receitas sem precedentes no passado por todo o mundo, mas n\u00e3o pagando impostos nos locais de onde extraem esse rendimento (algu\u00e9m imagina a Google, Facebook ou Amazon a pagar ao Estado portugu\u00eas impostos dos rendimentos obtidos em Portugal?). Grande parte da economia hoje passa por circuitos de fluxos financeiros n\u00e3o control\u00e1veis pelos Estados, logo de dif\u00edcil taxa\u00e7\u00e3o. Logo, a carga fiscal sobre as popula\u00e7\u00f5es (trabalho e consumo) tem de aumentar, criando dificuldades quer sobre os cidad\u00e3os, quer sobre as empresas, dificultando as condi\u00e7\u00f5es de vida e competitividade locais. A dimens\u00e3o da Uni\u00e3o Europeia faz com estes mamutes tecnol\u00f3gicos nos ou\u00e7am.<\/p>\n\n\n\n<p>Concluo afirmando perentoriamente que \u00e9 necess\u00e1rio que aqueles que acreditam na Europa, que se sentem n\u00e3o s\u00f3 cidad\u00e3os do seu pa\u00eds mas tamb\u00e9m cidad\u00e3os europeus, fa\u00e7am ouvir a sua voz em defesa do projeto europeu. Como dizia Churchill sobre a democracia, pode ser a pior forma de governo, salvo todas as demais formas que t\u00eam sido experimentadas de tempos a tempos\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>O projeto europeu pode n\u00e3o ser perfeito, mas n\u00e3o conhe\u00e7o outro melhor. Os europeus t\u00eam um longo hist\u00f3rico de enfrentar adversidades. Mas foi quando as enfrentaram em conjunto que os melhores resultados surgiram, e que a Europa realmente se afirmou enquanto projeto civilizacional exemplar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedro Moura, Expresso online (077 24\/06\/2020)<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,282],"tags":[],"class_list":["post-45162","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-expresso-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/45162","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=45162"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/45162\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":45164,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/45162\/revisions\/45164"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=45162"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=45162"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=45162"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}