{"id":45099,"date":"2020-07-20T11:58:11","date_gmt":"2020-07-20T11:58:11","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=45099"},"modified":"2020-07-20T11:59:27","modified_gmt":"2020-07-20T11:59:27","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-7-2-2-2-3-2-4-3-3-2-2-3-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-14","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=45099","title":{"rendered":"O biscateiro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><b style=\"color: #d8070f;\">Am\u00e9lia Monteiro <\/b><\/span><b style=\"color: #d8070f;\"><\/b><\/span>, Vis\u00e3o online<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"https:\/\/visao.sapo.pt\/opiniao\/ponto-de-vista\/silencio-da-fraude\/2020-07-16-o-biscateiro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/07\/Visao-600.pdf\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2032\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>Cansado de pagar impostos, taxas e taxinhas, decidiu que, logo que liquidasse o empr\u00e9stimo da casa, cessaria a atividade de eletricista que exercia h\u00e1 mais de 30 anos e passaria a trabalhador informal, vulgo, biscateiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><!--more--><\/p>\n<p>Cansado de pagar impostos, taxas e taxinhas, decidiu que, logo que liquidasse o empr\u00e9stimo da casa, cessaria a atividade de eletricista que exercia h\u00e1 mais de 30 anos e passaria a trabalhador informal\/biscateiro.<\/p>\n<p>Fez contas \u00e0 vida e concluiu que a soma dos descontos que mensalmente pagava \u00e0 seguran\u00e7a social como empres\u00e1rio em nome individual, dos Pagamentos Especiais por Conta, do IVA e do IRS ficariam melhor no seu bolso como poupan\u00e7a para um final de vida confort\u00e1vel. Assim, era ele que controlava quanto poupava e de quanto dispunha na velhice. Com os descontos que, entretanto, foi fazendo (sempre pelos m\u00ednimos, claro), sempre teria direito a umas migalhas a t\u00edtulo de reforma que daria para comprar a gasolina para uns passeios com a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Manteria a mesma atividade e, preferencialmente, a mesma carteira de clientes: propriet\u00e1rios de m\u00e1quinas ligadas \u00e0 constru\u00e7\u00e3o civil. Bem vistas as coisas, todos tinham a ganhar: a diferen\u00e7a de pre\u00e7os que passaria a praticar compensaria largamente o IRC ou o IRS que esses clientes deixariam de pagar por considerar a fatura como custo. A margem de desconto era confort\u00e1vel: afinal de contas, deixaria de pagar IVA e IRS e ainda teria direito a benef\u00edcios fiscais, como isen\u00e7\u00e3o de taxas moderadoras e de IMI. Se soubesse fazer bem as coisas, ainda teria direito a Subs\u00eddio de Inser\u00e7\u00e3o Social, mas preferia n\u00e3o arriscar para n\u00e3o chamar a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, era algo que a esposa fazia com sucesso h\u00e1 alguns anos. Quando ficou desempregada depois da fal\u00eancia da empresa em que trabalhou durante 20 anos (come\u00e7ou aos 15 anos de idade), decidiu rentabilizar a sala e os legumes que o marido cultivava nas sopas, e come\u00e7ou a cuidar de crian\u00e7as a partir dos 4 meses e at\u00e9 entrarem na escola. Nunca declarou qualquer rendimento e os pais ainda lhe ficam gratos por cuidar t\u00e3o bem dos seus filhos.<\/p>\n<p>A fatura nunca foi relevante no processo. Contas feitas, \u00e9 bem mais seguro ter os filhos entregues a uma pessoa que conhecem e de quem os filhos gostam, do que deduzir as despesas com infant\u00e1rios que nunca t\u00eam vaga ou, ent\u00e3o, s\u00e3o a pre\u00e7os proibitivos e longe do itiner\u00e1rio para o emprego. Al\u00e9m disso, estariam menos sujeitos a apanhar as viroses e infe\u00e7\u00f5es que os obrigariam vir para casa cuidar deles.<\/p>\n<p>Agora era s\u00f3 atuar de modo a n\u00e3o chamar a aten\u00e7\u00e3o. Para evitar perguntas desnecess\u00e1rias sobre a origem do dinheiro, antes de cessar a atividade comprou uma carrinha nova, que tinha capacidade para transportar o que necessitasse e passear com a fam\u00edlia aos fins de semana. Duraria bem uns quinze anos sem problemas, altura em que pretendia reformar-se.<\/p>\n<p>Claro que deixaria de ter conta banc\u00e1ria e passaria a pagar tudo em dinheiro vivo: desde o supermercado, \u00e0 farm\u00e1cia, combust\u00edvel, eletricidade, \u00e1gua, telefones, condom\u00ednio, pronto a vestir, etc., e ainda poupava as despesas de manuten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os materiais a aplicar seriam comprados em nome dos clientes e, de prefer\u00eancia, transportados nos carros deles. Ningu\u00e9m suspeitaria da compra desse tipo de material no setor da constru\u00e7\u00e3o civil.<\/p>\n<p>Se, por azar, encontrasse alguns clientes que valessem a pena e exigissem fatura, ent\u00e3o, praticaria um ato isolado e resolveria a situa\u00e7\u00e3o. Se fossem v\u00e1rios a exigir fatura, j\u00e1 tinha combinado com um T\u00e9cnico Oficial de Contas amigo, que arranjaria um dos seus clientes do ramo para emitir as faturas e a quem depois pagaria os impostos devidos.<\/p>\n<p>Em \u00faltimo caso, ainda lhe restava um grande amigo que n\u00e3o lhe negaria um desses favores, se outros n\u00e3o se disponibilizasse a faz\u00ea-lo. Era s\u00f3 acertarem as contas para ele n\u00e3o ter preju\u00edzo com as faturas emitidas por causa dele.<\/p>\n<p>Continuaria naturalmente a cultivar o terreno que herdou dos pais, e a colher os legumes e a criar coelhos e galinhas que t\u00e3o \u00fateis se mostram na confe\u00e7\u00e3o das sopas das crian\u00e7as e na alimenta\u00e7\u00e3o da restante fam\u00edlia.<\/p>\n<p>Apeteceu-lhe sorrir quando, em plena Pandemia COVID 19, surgiu o convite para os trabalhadores informais passarem a integrar o sistema e a pagar os impostos e a fazer os descontos para a seguran\u00e7a social.<\/p>\n<p>Como biscateiro na \u00e1rea de eletricista nunca sentiu os efeitos da Pandemia: as m\u00e1quinas continuam a avariar e o setor para que trabalha n\u00e3o parou. Continua a viver folgadamente, mas sem sinais exteriores de riqueza que chamem a aten\u00e7\u00e3o sobre si e bem \u00e0 margem do sistema. Ficaria a fazer parte da chamada \u201cEconomia Sombra\u201d e das cifras negras.<\/p>\n<p>Afinal de contas, quem melhor do que ele para controlar as poupan\u00e7as para a velhice? Se tivesse um azar na vida que o incapacitasse, poderia sempre contar com o Estado Social. Contas feitas, ainda contribuiu uns anos para esse sistema, pelo que seria justo que o protegesse quando dele necessitasse\u2026<\/p>\n<p>Palavras: Informal, impostos, fatura, impostos, descontos, poupan\u00e7a, reforma, economia-sombra.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Am\u00e9lia Monteiro , Vis\u00e3o online Cansado de pagar impostos, taxas e taxinhas, decidiu que, logo que liquidasse o empr\u00e9stimo da casa, cessaria a atividade de eletricista que exercia h\u00e1 mais de 30 anos e passaria a trabalhador informal, vulgo, biscateiro.<\/p>\n","protected":false},"author":56,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,123],"tags":[],"class_list":["post-45099","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-visao-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/45099","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/56"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=45099"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/45099\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":45102,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/45099\/revisions\/45102"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=45099"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=45099"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=45099"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}