{"id":44879,"date":"2020-05-25T22:39:16","date_gmt":"2020-05-25T22:39:16","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=44879"},"modified":"2020-05-25T22:39:19","modified_gmt":"2020-05-25T22:39:19","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-7-2-2-2-3-2-4-3-2-31-9-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-5","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=44879","title":{"rendered":"Tr\u00eas minutos de sil\u00eancio, em tempos de pandemia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira<\/strong><\/span>, Expresso online (066 08\/04\/2020)<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><del><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/opiniao\/2020-04-08-Tres-minutos-de-silencio-em-tempos-de-pandemia\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/del><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/66-JMoreira-abr2020.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2032\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><!--more--><\/p>\n\n\n<p>O desconforto que sinto \u00e9 dif\u00edcil de explicar, \u00e9 mais uma sensa\u00e7\u00e3o difusa. N\u00e3o \u00e9 totalmente explicado pela clausura for\u00e7ada em que me encontro, em teletrabalho, pois j\u00e1 antes da atual crise uma parte da minha semana reproduzia o que agora fa\u00e7o a semana inteira. O que sei \u00e9 que esse desconforto se alimenta com o ambiente geral que se vive, com o medo difuso que ressoa no sil\u00eancio das ruas vazias, da auto estrada sem viaturas que vislumbro da minha janela.<\/p>\n\n\n\n<p>Procuro mitig\u00e1-lo como posso. Fujo \u00e0 repeti\u00e7\u00e3o \u201c<em>ad nauseam<\/em>\u201d das estat\u00edsticas de infetados e v\u00edtimas mortais, que diariamente preenche grande parte dos espa\u00e7os informativos nos canais e programas noticiosos dos \u201c<em>mass media<\/em>\u201d, procurando nos canais de cabo, quando tenho disponibilidade, um ou outro programa que me possa ocupar a mente com assunto diverso. N\u00e3o fique o leitor com a ideia de que me fecho \u00e0 realidade do que se passa \u00e0 minha volta. N\u00e3o \u00e9 isso, obviamente. Procuro manter-me ao corrente do que vai acontecendo, n\u00e3o s\u00f3 internamente, mas tamb\u00e9m nos diversos cantos do planeta, em particular onde tenho amigos e colegas. O que me leva a fugir dos referidos espa\u00e7os informativos \u00e9 o sentir que essa repeti\u00e7\u00e3o dos n\u00fameros pelos n\u00fameros contribui para que me torne mais insens\u00edvel aos dramas humanos que lhes est\u00e3o subjacentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Contribuindo para agravar esse risco de crescente insensibilidade, os espa\u00e7os de opini\u00e3o nos \u201c<em>mass media<\/em>\u201d, salvo honrosas exce\u00e7\u00f5es, espelham um ambiente que se aproxima mais do das lides futebol\u00edsticas do que o da crise pand\u00e9mica que submergiu o planeta. No meio de tantos n\u00fameros, como \u00e9 que se consegue tempo e proemin\u00eancia? Avan\u00e7ando com cen\u00e1rios tenebrosos, com curvas de progress\u00e3o da pandemia mais ou menos inclinadas, cujos pressupostos os autores n\u00e3o conseguem minimamente justificar, facto que n\u00e3o parece ter import\u00e2ncia para ningu\u00e9m, nem sequer para aqueles que, supostamente, t\u00eam como profiss\u00e3o depurar a informa\u00e7\u00e3o que trabalham e divulgam. O jogo das proje\u00e7\u00f5es \u2013 permito-me design\u00e1-lo assim \u2013 \u00e9 mais um contributo para essa insensibilidade que referi, em vez de ser verdadeira ajuda na carateriza\u00e7\u00e3o e antecipa\u00e7\u00e3o da progress\u00e3o da pandemia. N\u00e3o ficaria admirado se, devido \u00e0 falta de eventos desportivos, um destes dias fossemos confrontados com o aparecimento de um desses jogos de sorte e azar do tipo \u201cPlacard\u201d, onde se possa verter uma aposta sobre a evolu\u00e7\u00e3o da taxa de mortos ou infetados que esperamos para o dia seguinte.<\/p>\n\n\n\n<p>A este ambiente junte-se o contributo cacof\u00f3nico das redes sociais. O respeito por amigos e colegas leva-me a n\u00e3o cortar, pura e simplesmente, o relacionamento em redes em que estou registado. N\u00e3o \u00e9 pela solid\u00e3o acrescida que isso me pudesse trazer, pois o que na maior parte das vezes chega por esses meios s\u00e3o contributos para que a sensa\u00e7\u00e3o de solid\u00e3o aumente. Se n\u00e3o s\u00e3o teorias da conspira\u00e7\u00e3o, que pululam como cogumelos em tempo de chuva, s\u00e3o prescri\u00e7\u00f5es exaustivas do que fazer para n\u00e3o se ser infetado pelo v\u00edrus que nos condiciona a vida. Fossem recomenda\u00e7\u00f5es sobre como lavar as m\u00e3os, permanecer resguardado, assegurar distanciamento f\u00edsico relativamente a terceiros quando vamos \u00e0 mercearia ou \u00e0 farm\u00e1cia, e seriam aceit\u00e1veis, socialmente ben\u00e9ficas. Mas n\u00e3o s\u00e3o, em geral. Num dos dias, via <em>Whatsapp<\/em>, chegou uma lista prescritiva do que se tinha de tomar e fazer para acabar com o v\u00edrus, caso fossemos infetados. A prescri\u00e7\u00e3o, que inclu\u00eda a recomenda\u00e7\u00e3o de beber \u00e1gua morna, foi passada acriticamente no grupo, com a chancela de ser da autoria do professor X. Pensei que fosse um epidemiologista, n\u00e3o conhecia o nome, fui \u00e0 procura. O nome era de um professor, certo, mas com interesses profissionais na gest\u00e3o de energia. Quer quem se deu ao trabalho de elaborar a prescri\u00e7\u00e3o, sem qualquer fundamento cient\u00edfico, quer quem a passou, acriticamente, prestaram um mau servi\u00e7o \u00e0 sociedade, contribuindo para o ru\u00eddo reinante, para a desinforma\u00e7\u00e3o geral. No limite, atitudes que contribuem para minar o esfor\u00e7o de gest\u00e3o da pandemia por partes das autoridades de sa\u00fade, atitudes defraudadoras do bem geral.<\/p>\n\n\n\n<p>Tempos estranhos estes que vivemos, em que os comentadores desportivos desapareceram de antena, por falta de mat\u00e9ria prima para os coment\u00e1rios, brotando, em sua substitui\u00e7\u00e3o, uma horda de \u201ctreinadores de bancada\u201d peritos na Covid19, na gest\u00e3o de pandemias em geral. Por vezes nem \u00e9 muito claro qual a forma\u00e7\u00e3o acad\u00e9mica ou profissional de tais \u201ctreinadores\u201d, quais os saberes ou experi\u00eancias que lhes permitem opinar com tanta veem\u00eancia sobre a pandemia. Logo num dos primeiros dias da clausura, quando ainda se contavam pelos dedos de uma m\u00e3o os infetados a n\u00edvel nacional, uma douta cronista, num jornal de \u00edndole econ\u00f3mica, exigia ao Governo que divulgasse \u00e0 popula\u00e7\u00e3o portuguesa, de imediato, a lista das les\u00f5es com que ficariam as pessoas que apanhassem o v\u00edrus. Exigia! Termos fortes provocam sempre maior impacto na opini\u00e3o p\u00fablica. Tirando a exig\u00eancia, n\u00e3o percebi o prop\u00f3sito da senhora, porque o teor da sua cr\u00f3nica n\u00e3o permitia inferir que o objetivo fosse, caso essa divulga\u00e7\u00e3o tivesse lugar, assustar os seus concidad\u00e3os para os levar a observarem o isolamento social de um modo mais intenso. Pensei na altura que o teor era, antes, de quem pretende criar ainda mais tens\u00e3o e ru\u00eddo no meio da tempestade em curso.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, sentando-me para escrever a presente, finalmente percebi o que poder\u00e1 ter sido o problema por que essa cronista passava. O mesmo que me afeta, agora e possivelmente nos pr\u00f3ximos tempos: sobre que hei de escrever neste tempo de crise? Sobre os \u201ctruques\u201d usados por certas empresas na prepara\u00e7\u00e3o da sua informa\u00e7\u00e3o financeira, assunto que \u00e9 a minha especialidade? (Quem \u00e9 o leitor que est\u00e1 com disposi\u00e7\u00e3o para tal tipo de leitura, sobretudo quando as empresas s\u00e3o esmagadas pela crise?) Sobre o aumento exponencial das fraudes eletr\u00f3nicas, nesta altura em que estamos todos pendurados nas redes e tais crimes nos parecem ainda mais inqualific\u00e1veis, por contribu\u00edrem para aumentar o j\u00e1 grande sofrimento alheio? (Idem, quem se quer deprimir ainda mais?) Sobre o que o Governo devia ter feito e n\u00e3o fez na condu\u00e7\u00e3o da crise? (Para ser mais um \u201ctreinador de bancada\u201d?Haver\u00e1 um tempo para avalia\u00e7\u00e3o do respetivo desempenho, mas n\u00e3o me parece que esse tempo j\u00e1 tenha chegado.)<\/p>\n\n\n\n<p>Decidi. N\u00e3o contribuirei para aumentar o ru\u00eddo existente. Pelo contr\u00e1rio, proponho sil\u00eancio. N\u00e3o um, mas tr\u00eas minutos de sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<ul class=\"wp-block-list\"><li>Um minuto, em mem\u00f3ria dasv\u00edtimas mortais da pandemia no mundo. [\u2026 <em>sil\u00eancio<\/em> \u2026]<\/li><li>Um minuto, emhomenagem a todos os que os que na linha da frente \u2013 profissionais do sistema de sa\u00fade, for\u00e7as policiais, bombeiros, cuidadores formais e informais, governantes, etc. \u2013 zelam por quem foi atingido pelo v\u00edrus ou procuram evitar que os ainda s\u00e3os o sejam.[\u2026 <em>sil\u00eancio<\/em> \u2026]<\/li><li>Um minuto, em agradecimento a todos os cidad\u00e3os an\u00f3nimos que, direta ou indiretamente, d\u00e3o o melhor de si mesmos para que esta crise seja ultrapassada com um m\u00ednimo de danos poss\u00edvel. [\u2026 <em>sil\u00eancio<\/em> \u2026]<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p>Obrigado, leitor. Fique bem. Cuide de si, para cuidar dos outros.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira, Expresso online (066 08\/04\/2020)<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,282],"tags":[],"class_list":["post-44879","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-expresso-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/44879","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=44879"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/44879\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":44880,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/44879\/revisions\/44880"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=44879"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=44879"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=44879"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}