{"id":44869,"date":"2020-05-23T11:08:23","date_gmt":"2020-05-23T11:08:23","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=44869"},"modified":"2020-05-23T11:08:26","modified_gmt":"2020-05-23T11:08:26","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-53-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=44869","title":{"rendered":"Ver\u00e3o 2020"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left\"><span style=\"color: #d8070f\"><strong>\u00d3scar Afonso<\/strong><\/span>, Dinheiro Vivo (JN \/ DN)<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><a href=\"https:\/\/www.dinheirovivo.pt\/opiniao\/verao-de-2020\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-19\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/Cr\u00f3nica-50_OA_18Maio2020.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2032\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<div>\n<p>Caminhamos perigosamente para uma sociedade de vigil\u00e2ncia, que mant\u00e9m as pessoas sob controlo. ... E, em Portugal, come\u00e7a a haver tiques deste cen\u00e1rio.<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p style=\"text-align: left\"><!--more--><\/p>\n<p>Na obra \u201c1984\u201d, George Orwell vislumbrou um mundo p\u00f3s-revolucion\u00e1rio onde tudo o que aconteceu antes, desde valores humanistas, formas de relacionamento, debate p\u00fablico, liberdade de express\u00e3o e cultura foi abolido e esquecido. A nova sociedade que o romance descreve est\u00e1 dividida, mais ou menos como agora, em tr\u00eas classes: \u201cmembros do partido\u201d, \u201cproles\u201d e \u201cescravos\u201d. O aparelho de repress\u00e3o, omnipotente e implac\u00e1vel, monitoriza cada movimento dos s\u00fabditos. Sem privacidade, o poder \u00e9 encarnado por um tirano inacess\u00edvel cuja imagem \u00e9 exibida em todos os lugares com o \u2018slogan\u2019 \u201cO Grande Irm\u00e3o vigia-te\u201d, impondo assim o dom\u00ednio do medo. A tens\u00e3o entre o poder esmagador, por um lado, e o amor e a liberdade, por outro, \u00e9 o cerne desta seminal obra \u201c1984\u201d.<\/p>\n<p>Aquilo que poderia parecer fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica pol\u00edtica parece estar a manifestar-se em boa parte dos pa\u00edses caracterizados por institui\u00e7\u00f5es extrativas \u2013 aqueles em que a elite (ou \u201cmembros do partido\u201d) vive da riqueza criada pelo resto da popula\u00e7\u00e3o (ou \u201cescravos\u201d). Reconhecendo em tais pa\u00edses tra\u00e7os do mundo que Orwell t\u00e3o bem descreveu, a obra \u201c1984\u201d permanece profundamente atual e perturbadora. Afinal, nesses pa\u00edses, nada \u00e9 mentira nem erro, porque, conforme vai dando jeito, muda o significado das palavras que passam ent\u00e3o a descrever \u201cfactos alternativos\u201d. Reduz-se a capacidade de pensar de cada um de n\u00f3s e vigora a institucionaliza\u00e7\u00e3o da mentira e do medo presentes, em maior ou menor grau, nos discursos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Ora, \u00e0 custa da Covid-19, \u00e0 medida que o autoritarismo do confinamento avan\u00e7a, que restri\u00e7\u00f5es incompreens\u00edveis se propagam e vamos sacrificando direitos, tamb\u00e9m renunciamos \u00e0 nossa capacidade de pensar e a um mundo livre. Efectivamente, a liberdade n\u00e3o \u00e9 a ordem \u201cnatural\u201d das coisas. Na maioria dos lugares e na maioria das vezes, os fortes dominam os fracos e a liberdade humana \u00e9 anulada pela for\u00e7a ou pelos costumes e normas. Quando assim \u00e9, refor\u00e7a-se o poder dos fortes e quanto mais se enra\u00edza mais se estabelece uma hierarquia dif\u00edcil de mudar e, claro, mais se enfraquece a sociedade.<\/p>\n<p>At\u00e9 h\u00e1 pouco tempo pensar\u00edamos que os Estados eram fracos e que esse mundo de Orwell nunca, no novo mil\u00e9nio, poderia existir. A verdade \u00e9 que a hist\u00f3ria se repete. Como no inferno descrito Orwell, teme-se hoje que a mis\u00e9ria dos pobres e o t\u00e9dio dos outros possa ser o espelho da nova realidade, que as pessoas andem de cabe\u00e7a baixa e atrofiadas e que a apar\u00eancia das coisas passe a ser bem cinzenta. Espera-se, enfim, um crescendo de press\u00f5es econ\u00f3micas, de ansiedade, de uso generalizado de antidepressivos, de falta de sono, de obesidade, de recurso \u00e0 televis\u00e3o, de uso de telem\u00f3veis e de PCs, de excesso de informa\u00e7\u00e3o, viv\u00eancia num mundo virtual que entret\u00e9m e anestesia, e de fragilidade psicol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Caminhamos perigosamente para uma sociedade de vigil\u00e2ncia, que mant\u00e9m as pessoas sob controlo. Os recursos permitidos pelo monop\u00f3lio todo-poderoso da tecnologia, a necessidade de controlo da verdade e o anseio por informa\u00e7\u00f5es, podem, de facto, ser um substituto plaus\u00edvel desse fat\u00eddico Estado fict\u00edcio de Orwell. E, em Portugal, come\u00e7a a haver tiques deste cen\u00e1rio. Entre tanta coisa, recordemos a este prop\u00f3sito a excep\u00e7\u00e3o \u00e0 permiss\u00e3o de actos de cariz pol\u00edticos, o apoio estatal aos \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o social (quem, recebendo uma d\u00e1diva \u201cdivina\u201d, permanece integralmente livre?!), as redes sociais onde \u201cmembros do partido\u201d se encarregam de distribuir informa\u00e7\u00e3o desejada e lincham virtualmente quem ouse ser do contra, ou at\u00e9 o surrealismo que se antev\u00ea para a frequ\u00eancia das praias neste ver\u00e3o de 2020.<\/p>\n<p>A este prop\u00f3sito, por tudo o que se vai lendo e vendo (at\u00e9 \u00e0 hora em que escrevo\u201417 de maio), com jeitinho e sorte, porque a tecnologia \u00e9 a regra e tudo est\u00e1 devidamente organizado \u2013 segundo o nosso Presidente, at\u00e9 somos os melhores do mundo! \u2013, receberemos um email algures entre julho e setembro a dar conta que finalmente na segunda-feira seguinte teremos direito a meia hora di\u00e1ria, por uma semana, no areal da praia X, no sector Y, na fila Z e no lugar W. Ser\u00e1 esse email que nos dar\u00e1 tamb\u00e9m conta da necessidade de porte do resultado negativo ao teste \u00e0 Covid-19 no dia anterior, do uso de m\u00e1scara, de viseira, das novas toalhas de praia e do \u00e1lcool-gel. O email ser\u00e1 ainda certamente aproveitado para indica\u00e7\u00e3o do drone que nos conduzir\u00e1 no areal e para outras informa\u00e7\u00f5es repressivas relevantes. Com sorte, conseguiremos a meia hora di\u00e1ria em hor\u00e1rio \u201cfixe\u201d, junto ao mar, sem acr\u00edlico \u00e0 nossa frente e, fazendo mesmo muita f\u00e9 na sorte, o nosso lugar de estacionamento n\u00e3o exigir\u00e1 o recurso a transportes p\u00fablicos para fazer o transbordo at\u00e9 \u00e0 dita praia X, que nos calhou em sorte.<\/p>\n<p>Por este andar, n\u00e3o \u00e9 certo que a praia, a semana e as horas sejam as mesmas para todas as pessoas de um grupo ou fam\u00edlia, mas, n\u00f3s, os portugueses, arranjaremos forma de contornar o problema com um sistema de trocas em mercado secund\u00e1rio. Nesta arquitectura de opress\u00e3o, vamos l\u00e1 ver se estas transac\u00e7\u00f5es informais em mercado secund\u00e1rio ficam isentas de IVA. Seja como for, muito dificilmente ficaremos todos juntos na praia X. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o nos podemos queixar se, com trocas, podermos ir todos no mesmo hor\u00e1rio. Al\u00e9m disso, enquanto houver dados m\u00f3veis, mesmo na praia X, sempre nos podemos ver por <em>skype, google meet, teams <\/em>ou<em> zoom<\/em>.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem pense que a nossa liberdade n\u00e3o est\u00e1 amea\u00e7ada, que est\u00e1 tudo bem ou vai ficar bem, que essa admir\u00e1vel semana numa praia, que \u00e9 de todos, j\u00e1 \u00e9 muito bom! Na verdade, por\u00e9m, a liberdade surge quando um determinado equil\u00edbrio entre o Estado e a sociedade \u00e9 alcan\u00e7ado e, recorrendo a palavras de Acemoglu e Robinson, em <em>The Narrow Corridor: States, Societies, and the Fate of Liberty<\/em>, o corredor para a liberdade tem-se vindo a tornar cada vez mais estreito e trai\u00e7oeiro.<\/p>\n<\/div>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, Dinheiro Vivo (JN \/ DN) Caminhamos perigosamente para uma sociedade de vigil\u00e2ncia, que mant\u00e9m as pessoas sob controlo. &#8230; E, em Portugal, come\u00e7a a haver tiques deste cen\u00e1rio.<\/p>\n","protected":false},"author":63,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,279],"tags":[],"class_list":["post-44869","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-dinheiro-vivo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/44869","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/63"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=44869"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/44869\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":44870,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/44869\/revisions\/44870"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=44869"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=44869"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=44869"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}