{"id":44795,"date":"2020-05-11T19:06:34","date_gmt":"2020-05-11T19:06:34","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=44795"},"modified":"2020-05-11T19:06:38","modified_gmt":"2020-05-11T19:06:38","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-7-2-2-2-3-2-4-3-2-31-9-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=44795","title":{"rendered":"F\u00e9, fraude e pandemia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Carlos Pimenta<\/strong><\/span>, Expresso online (064 25\/03\/2020)<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><del><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/opiniao\/2020-03-25-Fe-fraude-e-pandemia-1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/del><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/05\/64-CPimenta-mar2020.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2032\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><!--more--><\/p>\n\n\n<p><strong>Neofide\u00edsmo no \u00abmercado\u00bb<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando observamos a realidade contempor\u00e2nea assistimos a uma hegemonia social das actividades econ\u00f3micas (interrompida no per\u00edodo mais recente pela import\u00e2ncia decisiva da sobreviv\u00eancia ambiental no nosso planeta, se queremos que a esp\u00e9cie humana continue futuramente a existir, e pelo flagelo da pandemia).Com uma l\u00f3gica do primado do indiv\u00edduo \ua7f7 n\u00e3o enquanto homem inserido no todo social com uma determinada \u00e9tica,&nbsp; mas como interveniente no mercado econ\u00f3mico \ua7f7, agente racional inevitavelmente condicionado pela correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as determinada pelo poder econ\u00f3mico, social e pol\u00edticos existentes. A concorr\u00eancia surge como a palavra chave para a melhoria da humanidade, transmitida e aprendida desde os bancos da escola, continuada no aumento do poder dos que j\u00e1 o t\u00eam, praticada por quem pode, contra os restantes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 esta leitura, caracter\u00edstica da organiza\u00e7\u00e3o e pr\u00e1tica social, que frequentemente \u00e9 reconhecida como neoliberalismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta centragem no comportamento individual, em que cada moeda possu\u00edda \u00e9 mais um voto no poder de mercado, faz com que se encare com grande cepticismo o Estado, embora tendo que o reconhecer como inevitabilidade hist\u00f3rica e espa\u00e7o de promo\u00e7\u00e3o pessoal, procurando-se mold\u00e1-lo aosinteresses dos mercados. Para tal basta control\u00e1-lo (pela correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edtica, pela corrup\u00e7\u00e3o ou qualquer outro processo), faz\u00ea-lo depender dospoderosos (financiando-se nos mercados e reduzindo o seu poder na actividade econ\u00f3mica), restringindo-o ao m\u00ednimo indispens\u00e1vel (abandonando o planeamento e fingindo que regula, sem fiscalizar), transform\u00e1-lo em arauto da iniciativa privada (privatizando e suportando os custos sociais das fraudes dos bancos e outras entidades).<\/p>\n\n\n\n<p>O neoliberalismo teve um longo per\u00edodo de incuba\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 com a globaliza\u00e7\u00e3o e financiariza\u00e7\u00e3o (centrada nos EUA, primeiro, e na Uni\u00e3o Europeia)que se consagra (ver <em>Globaliza\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o, capital fict\u00edcio e redistribui\u00e7\u00e3o<\/em>). Com o derrube simb\u00f3lico do muro de Berlim consagra-se o sonho do fim da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 a este neoliberalismo que n\u00f3s preferimos designar, para n\u00e3o haver espontaneamente subentendidos ou confus\u00f5es por neofide\u00edsmo nos \u00abmercados\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<ol class=\"wp-block-list\" type=\"A\"><li>O liberalismo do s\u00e9c. XVIII representou um grande progresso epistemol\u00f3gico (a adop\u00e7\u00e3o de instrumentos de observa\u00e7\u00e3o e metodologias que constituem uma ruptura com as concep\u00e7\u00f5es assumidas pelo conhecimento espont\u00e2neo; a concep\u00e7\u00e3o de que a sociedade tem uma autonomia relativa que permite estudar as suas leis; sendo a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial um progresso da humanidade), o mesmo n\u00e3o se poder\u00e1 dizer do neoliberalismo (partem dos modelos te\u00f3ricos da gest\u00e3o \u00f3ptima dos recursos escassos para a adequa\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade). Por outras palavras, perante um desajustamento entre a realidade social e os modelos \u00abcient\u00edficos\u00bb, concluem provavelmente que a realidade \u00e9 que est\u00e1 errada, os agentes econ\u00f3micos \u00e9 que se comportam de forma inadequada).<\/li><li>No que se refere ao conceito de \u00abmercado\u00bb \ua7f7 palavra-chave neste processo \ua7f7 enquanto os primeiros a utilizam como rela\u00e7\u00e3o (potencial ou efectiva) entre compradores e vendedores, parte da sociedade com uma determinada cultura, os segundos tamb\u00e9m a utilizam enquanto modelo do que deve acontecer, enquanto s\u00edmbolo do modo de produ\u00e7\u00e3o ou como mero argumento de oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura.<\/li><\/ol>\n\n\n\n<p>Resumindo, enquanto neoliberalismo pode levar a admitir que se trata de uma nova leitura da realidade observada pelos liberais (com Adam Smith como grande pilar), a designa\u00e7\u00e3o de neofide\u00edsmo explicita desde logo que estamos fora da constru\u00e7\u00e3o cient\u00edfica (ver <em>Racionalidade, \u00c9tica e Economia<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Neofide\u00edsmo e fraude<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Designando por fraude toda a viola\u00e7\u00e3o da \u00e9tica vigente, enquanto acto intencional envolvendo o logro do defraudado \ua7f7 ora resultado dos comportamentos de pessoas, individuais ou colectivas, ora na sequ\u00eancia de din\u00e2micas sociais propensas ao seu surgimento \ua7f7, podemos dizer que a fraude sempre existiu. Recorrendo aos prim\u00f3rdios da escrita, \u00e9 sempre poss\u00edvel encontrar um qualquer texto que o demonstra.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo esta \u00e9 uma leitura limitada. As fraudes de todo o tipo (fiscal, corrup\u00e7\u00e3o em todos os contextos, inform\u00e1tica, desportiva, burla, etc. contra os consumidores, os cidad\u00e3os, as empresas, o Estado, etc., cometidas pelos indiv\u00edduos, pelas pessoas colectivas, pelos Estados, pelas organiza\u00e7\u00f5es criminosas, por ricos e menos ricos) processam-se socialmente com uma certa frequ\u00eancia e t\u00eam um certo valor e \u00e0 medida que um ou outro evolui alteram-se as intensidades de impacto das fraudes, nas din\u00e2micas sociais efectivas e na percep\u00e7\u00e3o que os cidad\u00e3os t\u00eam dessa realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a fraude sempre existiu s\u00f3 recentemente existe a clara consci\u00eancia social da necessidade de a combater sistematicamente, de uma pol\u00edtica antifraude.<\/p>\n\n\n\n<p>Se desde os fins do s\u00e9culo XIX que se pode falar duma internacionaliza\u00e7\u00e3o das transac\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas com multinacionais liderando o processo, se \u00e9 com o consumismo que se consolida o primazia do comportamento individual sobre o social, se \u00e9 com os regimes fiscais especiais existentes em alguns pa\u00edsespara n\u00e3o residentes que se vai alargando a lavagem de dinheiro, \u00e9 na d\u00e9cada de 80 do s\u00e9culo passado que a fraude se tornou end\u00e9mica. Usufruiu dos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos de ent\u00e3o (expans\u00e3o dos microprocessadores e da microinform\u00e1tica), da globaliza\u00e7\u00e3o com a associada financiariza\u00e7\u00e3o (o primado do \u00abdesenvolvimento\u00bb assente no aumento da apropria\u00e7\u00e3o individual de riqueza, em detrimento da cria\u00e7\u00e3o de rendimento social, a actividade bolsista crescente desligada da produ\u00e7\u00e3o, a transfer\u00eancia de poder econ\u00f3mico social para fundos diversos sem actividade produtiva) e o fim do socialismo na Europa.<\/p>\n\n\n\n<p>A criminalidade de colarinho branco, antecipada por Sutherland, algumas elites econ\u00f3micas e pol\u00edticas dominantesassumem-se como os grandes defraudadores. O neoliberalismo potencia exponencialmente esta mudan\u00e7a radical.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto a criminalidade econ\u00f3mica organizada aproveita toda esta realidade para refor\u00e7ar o seu dom\u00ednio econ\u00f3mico, assumindo-se como entidades organizadas e altamente lucrativas, resilientes, diversificadas e interligadas. A financiariza\u00e7\u00e3o abre muitas novas possibilidades de branqueamento de capitais (articulada com o aparecimento das criptomoedas a partir de 2009) e a falta generalizada de liquidez na crise econ\u00f3mica de 2008 faz com que o branqueamento de capitais (tendo como n\u00f3 g\u00f3rdio o tr\u00e1fico de droga) assuma novas dimens\u00f5es com menor possibilidade de ser capturado, refor\u00e7ando desde ent\u00e3o o papel das organiza\u00e7\u00f5es criminosas internacionais nas actividades econ\u00f3micas legais.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 uma alian\u00e7a e fus\u00e3o da criminalidade de colarinho branco e a organiza\u00e7\u00f5es criminosas multinacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>O neoliberalismo vai potenciando e viabilizando esta din\u00e2mica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Impacto da pandemia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dito isto a pergunta que oportunamente se faz hoje \u00e9: qual ser\u00e1 o impacto da crise econ\u00f3mica resultante da presente pandemia sobre este quadro?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma resposta muito dif\u00edcil, cheia de hip\u00f3teses, que tamb\u00e9m testar\u00e3o a for\u00e7a social do fide\u00edsmo nos \u00abmercados\u00bb.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel esta incurs\u00e3o sem o quadro anterior explicitado, apresent\u00e1mo-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque ainda temos que aprender muito e ter espa\u00e7o para a sua apresenta\u00e7\u00e3o reservamo-lo para a pr\u00f3xima cr\u00f3nica.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Pimenta, Expresso online (064 25\/03\/2020)<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,282],"tags":[],"class_list":["post-44795","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-expresso-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/44795","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=44795"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/44795\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":44796,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/44795\/revisions\/44796"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=44795"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=44795"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=44795"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}