{"id":44582,"date":"2020-03-27T01:01:33","date_gmt":"2020-03-27T01:01:33","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=44582"},"modified":"2020-03-27T01:01:36","modified_gmt":"2020-03-27T01:01:36","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-7-2-2-2-3-2-4-3-2-31-9-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=44582","title":{"rendered":"O Caro\u00e7o no Peito"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Pedro Moura<\/strong><\/span>, Expresso online (053 08\/01\/2020)<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/opiniao\/2020-01-08-O-Caroco-no-Peito\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/53-PMoura-jan2020.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2032\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><!--more--><\/p>\n\n\n<p>Estou\n\u00e0 rasca. H\u00e1 uns dias, ao terminar de fazer exerc\u00edcio, senti um caro\u00e7o no peito,\nna zona inferior do esterno. Dei a palpar a outras pessoas, para ter a certeza\nque n\u00e3o estava errado na sensa\u00e7\u00e3o, e todas sentiram algo que se assemelha a uma\npequena massa com alguma mobilidade. Senti cair-me a vida aos p\u00e9s, e uma\nmir\u00edade de progn\u00f3sticos encheu-me a mente, cada um mais catastr\u00f3fico que o\noutro. Acho dif\u00edcil n\u00e3o ficar hipocondr\u00edaco numa situa\u00e7\u00e3o destas.<\/p>\n\n\n\n<p>Procurei\nde imediato as pessoas que conhe\u00e7o trabalharem em sa\u00fade a perguntar o que\nfazer, e unanimemente me encaminharam para a marca\u00e7\u00e3o de uma consulta de\ncirurgia geral num hospital privado. Poderia ter ido de imediato a uma urg\u00eancia\nnum hospital p\u00fablico, mas sinceramente pareceu-me descabido, pois n\u00e3o me estava\na sentir mal, e tendo em conta o estado do SNS optei pela sa\u00fade privada.<\/p>\n\n\n\n<p>Felizmente\nconsegui agendar a consulta rapidamente, com um m\u00e9dico referenciado como\nexcelente. Resta-me aguardar, e sujeitar-me ao que quer que seja.<\/p>\n\n\n\n<p>E\n\u00e9 neste aguardar que me encontro, cheio de incertezas, a tentar manter a calma,\noscilando entre o tentar \u2018pensar que est\u00e1 tudo bem\u2019 e o \u2018n\u00e3o interessa o que\nfor, tens de aceitar e viver o melhor que conseguires\u2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Pode-vos\nparecer exagerado, mas emocionalmente parece que estou \u00e0s portas da morte. E\npara al\u00e9m do (ou devido ao) natural exaspero existencial, o que sinto e penso\nsubitamente ganhou contornos estranhamento claros e concretos. <\/p>\n\n\n\n<p>Por\nexemplo, sinto que todas as ansiedades e expectativas relacionadas com sucesso,\nbem-estar material, reconhecimento social, opini\u00e3o dos \u2018outros\u2019, legado e\nposteridade n\u00e3o importam um chavo. A este n\u00edvel, neste momento, s\u00f3 consigo ter\nno meu cora\u00e7\u00e3o e esp\u00edrito aqueles que amo e amei, s\u00f3 esses realmente\ninteressam. De alguma forma eu j\u00e1 sentia isto, mas em escala residual. A\nagudiza\u00e7\u00e3o deste sentir neste meu contexto atual \u00e9 quase inebriante, \u00e9 algo que\nem meio a este terror da espera me enche de vontade de sorrir. Parece que antes\nde ter palpado esta massa no peito me preocupava mais e dava mais de mim a quem\nn\u00e3o importa que a quem realmente enche a minha vida de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o\nsinto \u00f3dio nem desprezo por ningu\u00e9m que n\u00e3o seja este meu c\u00edrculo interior,\nnote-se. O meu humanismo e universalismo mant\u00e9m-se intactos: todos s\u00e3o importantes,\na aventura humana neste planeta e universo deve ser acarinhada e constru\u00edda n\u00e3o\ndeixando ningu\u00e9m nem nada para tr\u00e1s. O que tamb\u00e9m se me agudizou foi a\ncompaix\u00e3o real por toda esta mole de gente, onde naturalmente me incluo, por\nter a no\u00e7\u00e3o que na maior parte do tempo vivemos todos alheados daquilo que\ndevem ser as nossas reais prioridades, entretidos com avers\u00f5es e desejos que\nn\u00e3o s\u00e3o realmente os nossos, conduzidos em rebanho por n\u00e3o sei que m\u00e3os em\ndire\u00e7\u00e3o n\u00e3o a uma qualquer gl\u00f3ria mais ou menos eterna, mas ao inexor\u00e1vel p\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<p>Tenho\na no\u00e7\u00e3o deste rid\u00edculo, mas em meio ao estado de nervosismo aterrorizado em que\nme encontro, e \u00e0s tentativas emocionais e racionais de lidar com isto, de\nalguma forma sinto-me mais vivo, com uma sensa\u00e7\u00e3o mais clara de significado\npara a minha vida. E penso na estupidez quotidiana que enquanto indiv\u00edduos\nvivemos ao corporizarmos diariamente o prov\u00e9rbio de que \u2018s\u00f3 se d\u00e1 valor ao que\nse tem quando se perde.\u2019<\/p>\n\n\n\n<p>A\nconsulta \u00e9 amanh\u00e3. Penso, pior caso poss\u00edvel, em quantos meses terei de vida. E\npenso tamb\u00e9m no que ir\u00e1 acontecer se isto n\u00e3o for nada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Depois de Amanh\u00e3&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A\nconsulta (no privado) atrasou duas horas, entrei no gabinete do m\u00e9dico, mostrei\no peito, expliquei o que havia palpado, o caro\u00e7o, a mobilidade, os antecedentes\noncol\u00f3gicos familiares, etc.<\/p>\n\n\n\n<p>O\nm\u00e9dico levantou-se da cadeira, palpou o caro\u00e7o, uma, duas, tr\u00eas vezes, e disse\nque n\u00e3o era nada, que podia estar descansado. O caro\u00e7o mort\u00edfero que havia\nsentido era a base do <a href=\"https:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Esterno\">osso\nesterno<\/a>,\nque apresenta alguma mobilidade, nada mais. Sorri de al\u00edvio, enfraldei a\ncamisa, apertei a m\u00e3o ao m\u00e9dico, desejei-lhe boa sorte para uma noite que\nestava complicada de pacientes, e tr\u00eas minutos ap\u00f3s haver entrado no\nconsult\u00f3rio estava de sa\u00edda, com a dupla sensa\u00e7\u00e3o de al\u00edvio e de rid\u00edculo.<\/p>\n\n\n\n<p>Rid\u00edculo\nn\u00e3o por ter ido ao m\u00e9dico devido a um caro\u00e7o que senti no peito, achando que o\nmeu fim estava tra\u00e7ado antes da hora prevista, mas sim por ter a clara sensa\u00e7\u00e3o\nque a tal rela\u00e7\u00e3o de prioridades pessoais que se haviam alterado quando eu\n\u2018estava para morrer\u2019 provavelmente voltar\u00e3o para muito perto de onde estavam.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou\nseja, o esquecimento daquilo que parece sagrado, \u00f3bvio e indubit\u00e1vel quando\nestamos aflitos \u00e9 r\u00e1pido a atuar.<\/p>\n\n\n\n<p>Em\ntextos bem mais antigos j\u00e1 escrevi sobre o que denomino a \u2018Auto-fraude\u2019 (n\u00e3o\nrelacionado com autom\u00f3vel), o apossamento indevido de algo importante que \u00e9\nnosso por n\u00f3s mesmos, para utiliza\u00e7\u00f5es menos interessante. Isto acontece porque\nn\u00e3o temos as prioridades no lugar certo.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria\ntalvez bom que nos lembr\u00e1ssemos mais vezes que estamos todos a morrer, mais\ncedo ou mais tarde. \u00c9 o que irei tentar fazer, para tentar defraudar-me menos a\nmim mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedro Moura, Expresso online (053 08\/01\/2020)<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,282],"tags":[],"class_list":["post-44582","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-expresso-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/44582","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=44582"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/44582\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":44585,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/44582\/revisions\/44585"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=44582"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=44582"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=44582"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}