{"id":44510,"date":"2020-03-25T00:53:40","date_gmt":"2020-03-25T00:53:40","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=44510"},"modified":"2020-03-25T00:53:54","modified_gmt":"2020-03-25T00:53:54","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-7-2-2-2-3-2-4-3-2-31-9","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=44510","title":{"rendered":"Pobre interior"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>\u00d3scar Afonso<\/strong><\/span>, Expresso online (038 25\/09\/2019)<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/opiniao\/2019-09-25-Pobre-interior-1\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" class=\" wp-image-19 alignleft\" alt=\"\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\"><\/a><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/38-OAfonso-set2019.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"14\" height=\"14\" title=\"Ficheiro PDF\" class=\"alignleft wp-image-2032\" alt=\"\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\"><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><!--more--><\/p>\n\n\n<p>Em Portugal, a distribui\u00e7a\u0303o geogr\u00e1fica da atividade econ\u00f3mica,\nsocial e cultural entre o litoral e o interior \u00e9, como todos sabemos,\ndemasiadamente assim\u00e9trica e, consequentemente, o mesmo acontece com a\ndistribui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u0327a\u0303o. O litoral \u00e9 jovem, urbano, povoado,\ndin\u00e2mico e ativo. Pelo contr\u00e1rio, o interior \u00e9 envelhecido, rural,\ndesertificado, estagnado, deprimido e associado a uma milenar vida de mis\u00e9ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque as\npessoas v\u00e3o para onde h\u00e1 \u201ceconomia\u201d, a emigra\u00e7\u00e3o para os centros urbanos do\nlitoral tem sido a tend\u00eancia hist\u00f3rica. A escassez de popula\u00e7\u00e3o nas zonas de\nfronteira com Espanha come\u00e7ou com a conflitualidade hist\u00f3rica entre os Reinos\nde Portugal e de Castela-Le\u00e3o: sem popula\u00e7\u00e3o, infra-estruturas e oportunidades\nde emprego gerou-se uma barreira entre Reinos. Posteriormente, a orienta\u00e7\u00e3o\nmar\u00edtima imposta pelos descobrimentos acentuou o atraso do interior. Desde os\nanos 30 do s\u00e9culo passado, mas sobretudo no p\u00f3s-2\u00aa Guerra Mundial, com a\nglobaliza\u00e7\u00e3o e o aumento da concorr\u00eancia, aumentou a press\u00e3o competitiva sobre\nas empresas pelo que, sem ajuda p\u00fablica, passaram a concentrar-se no litoral. A\ntend\u00eancia agravou-se com a ades\u00e3o \u00e0 EFTA nos anos 60 e a ades\u00e3o \u00e0 CEE\/UE nos\nanos 80 do s\u00e9culo passado. O refor\u00e7o da atraso do interior foi sempre\npotenciado pelo poder pol\u00edtico com maior investimento p\u00fablico em\ninfra-estruturas, servi\u00e7os e cria\u00e7\u00e3o de emprego no litoral, onde h\u00e1 eleitores.<\/p>\n\n\n\n<p>Em suma, as migra\u00e7\u00f5es que t\u00eam assolado o interior\n\u00e0 procura de melhores condi\u00e7\u00f5es de empregabilidade no litoral (e no\nestrangeiro) conduziram ao progressivo esvaziamento demogr\u00e1fico e empresarial.\nApesar de todos os constrangimentos que historicamente se t\u00eam imposto ao\ninterior, representa \u2013 e representar\u00e1 \u2013 cerca de 70% do territ\u00f3rio nacional e,\natualmente, j\u00e1menos de 30% da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Como a\ngeneralidade dos governos anteriores, porque fica sempre bem dizer que h\u00e1 que\napostar no \u201cpobre\u201d interior, tamb\u00e9m o atual manifestou \u201cdesejo\u201d de contribuir\npara a diminui\u00e7\u00e3o do atraso. Como de todas as outras vezes, tamb\u00e9m na presente\nlegislatura tal n\u00e3o passou de um \u201cdesejo\u201d. O mais admir\u00e1vel \u00e9 que o processo\ncontinua a repetir-se e os pol\u00edticos continuam a apostar na mem\u00f3ria curta dos\neleitores, continuando a ficar bem \u2013 e, provavelmente, a \u201crender\u201d votos \u2013\nmanifestar \u201cdesejo\u201d de apoiar o \u201cdesgra\u00e7ado\u201d interior. Assim, em pr\u00e9-campanha,\no primeiro-ministro deu-se ao luxo de \u201cperder\u201d uma semana em viajem mais ou\nmenos tur\u00edstica pelo interior para, com a afetuosa comunica\u00e7\u00e3o social por\nperto, dar conta do novo futuro \u201cdesejo\u201d. Curiosamente, com a mesma intensidade\nque se diz apostar no interior, v\u00e3o-se encerrando servi\u00e7os (veja-se o\nencerramento de diversos balc\u00f5es da CGD ou de esta\u00e7\u00f5es dos CTT), pelo que as\npopula\u00e7\u00f5es esquecidas do interior ter\u00e3o de satisfazer as suas necessidades em\ncentros urbanos mais pr\u00f3 litoral.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade que\no avan\u00e7o nas tecnologias de informa\u00e7\u00e3o \u2013 televis\u00e3o, internet e telem\u00f3veis \u2013\npode atenuar o isolamento de algumas pessoas esquecidas do interior, mas n\u00e3o\nfavorece a fixa\u00e7\u00e3o no interior e, portanto, n\u00e3o promove a inclus\u00e3o e a coes\u00e3o\nsocial e territorial. Tamb\u00e9m as melhorias nas vias de comunica\u00e7\u00e3o \u2013 estradas e\nautoestradas \u2013 podem atenuar o isolamento, mas n\u00e3o promoveram o desenvolvimento\ne a coes\u00e3o, acabando sobretudo por permitir maior mobilidade entre regi\u00f5es. Em\nparticular, muita gente, como eu, que saiu para o litoral pode agora, mais\nfacilmente, passar fins de semana ou f\u00e9rias na terra natal do interior.<\/p>\n\n\n\n<p>O que se\nespera dos governos \u00e9 que sejam capazes de corrigir as falhas de mercado, pelo\nque devem intervir no sentido de promover \/ reestruturar a atividade econ\u00f3mica\nno interior. Se assim n\u00e3o for, como n\u00e3o tem sido, entra-se, como tem\nacontecido, num c\u00edrculo vicioso. A \u201ceconomia\u201d foi deixando de ser suficiente\npara melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida, passando a faltar empregos e equipamentos\nb\u00e1sicos. \u00c0 medida que a popula\u00e7\u00e3o do interior foi diminuindo, menos \u201ceconomia\u201d\nfoi sendo precisa e muitas empresas foram fechando: o c\u00edrculo vicioso da\npobreza e da desertifica\u00e7\u00e3o foi-se auto-alimentando \u201ca olhos vistos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Face ao\nlitoral, permanece uma enorme desigualdade de oportunidades. Desde logo pela\ninferior qualidade dos servi\u00e7os fornecidos pelo Estado nas \u00e1reas da cultura,\neduca\u00e7\u00e3o, justi\u00e7a e sa\u00fade. Permite-se que a elite dirigente e t\u00e9cnica de um sem\nn\u00famero de organismos com fun\u00e7\u00f5es de regula\u00e7\u00e3o, controlo e fiscaliza\u00e7\u00e3o, cuja\natividade produtiva se concentra no interior, desempenhe as suas fun\u00e7\u00f5es no\nlitoral. Refira-se a t\u00edtulo de exemplo o Instituto da Vinha e do Vinho, o\nInstituto dos Vinhos do Porto e Douro, a Administra\u00e7\u00e3o e todos os servi\u00e7os da\nEDP, Iberdrola e outras. Consideram as barragens como \u201cinvestimentos de\ndesenvolvimento local\u201d (embora para alguns at\u00e9 j\u00e1 sejam um problema porque,\npasme-se, contribuem, por evapora\u00e7\u00e3o, para a perda de \u00e1gua!), mas apenas criam\no posto de trabalho do vigilante durante a sua fase de explora\u00e7\u00e3o, pois o\n\u201creal\u201d emprego concentra-se no litoral. Ali\u00e1s, o que o Estado tem feito com\nestes empreendimentos \u00e9 nacionalizar, ao abrigo do interesse nacional, os meios\nde produ\u00e7\u00e3o de milhares de an\u00f3nimos que tinham a\u00ed a sua independ\u00eancia econ\u00f3mica\ne simultaneamente garantida a liberdade, para depois concessionar a uma\nentidade privada a sua explora\u00e7\u00e3o, cujos detentores de capital jamais contribu\u00edram\npara a melhoria da massa cr\u00edtica social destes lugares. O mesmo vai obviamente\npassar-se com a explora\u00e7\u00e3o de l\u00edtio que n\u00e3o passar\u00e1 de mais um recurso sugado\ndo interior.<\/p>\n\n\n\n<p>Resumindo, o\ninvestimento que o Estado tem promovido no interior, em vez de criar efeito de\nreplica\u00e7\u00e3o\/imita\u00e7\u00e3o, concentra ainda mais o emprego e a riqueza no litoral,\nalargando o fosso entre as regi\u00f5es. H\u00e1 apenas investimentos pontuais, intempestivos,\nsem qualquer possibilidade de adensamento do tecido econ\u00f3mico e social. Investe\nno turismo, mas corta servi\u00e7os de sa\u00fade. Investe na educa\u00e7\u00e3o, mas cria\norganismos com capacidade de absor\u00e7\u00e3o de recursos humanos de elevada forma\u00e7\u00e3o\nno litoral. Despeja milh\u00f5es no combate aos inc\u00eandios rurais, mas os\nbenefici\u00e1rios est\u00e3o no litoral. N\u00e3o existe, de facto, uma pol\u00edtica integrada de\naumento de competitividade do territ\u00f3rio do interior, para que os recursos dos\nresidentes lhes permita aceder aos bens e servi\u00e7os que a sociedade fornece.\nResta a migra\u00e7\u00e3o que tem sido e continua a ser a sina de Transmontanos,\nBeir\u00f5es, Alentejanos e de parte de Minhotos.<\/p>\n\n\n\n<p>Desejando\nagora promover a coes\u00e3o e o desenvolvimento social e territorial, se n\u00e3o\nhouvesse hipocrisia, o governo concederia de imediato incentivos generosos,\ncompensando os custos da interioridade. O montante adequado seria certamente\nmenor que o despendido com a recente ajuda \u00e0 banca! Seguindo a m\u00e1xima \u201cn\u00e3o d\u00ea o\npeixe, ensine a pescar\u201d, a forma de distribui\u00e7\u00e3o desses incentivos requer a\nformula\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias que tornem o interior competitivo, o que significa\nque \u00e9 necess\u00e1rio saber identificar as vantagens competitivas que devem ser preservadas.\nCom ajuda p\u00fablica, o interior, desde logo pela m\u00e3o de autarcas competentes,\ndeve aproveitar capacidades instaladas e caracter\u00edsticas que o diferenciam,\npotenciando-as e tra\u00e7ando uma estrat\u00e9gia que fortale\u00e7a o aproveitamento\necon\u00f3mico das oportunidades. O interior tem recursos mais ou menos abundantes\nque devem ser valorizados e aproveitados a seu favor \u2013 e nunca sugados \u2013, desde\no patrim\u00f3nio cultural (monumental e imaterial) aos espa\u00e7os naturais, desde\nprodutos agr\u00edcolas singulares aos recursos do subsolo. Em algumas ind\u00fastrias\ntem at\u00e9 tradi\u00e7\u00e3o. \u00c9 assim que se deve pensar o desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>O interior\ndeve finalmente beneficiar do princ\u00edpio da solidariedade interterritorial, como\nPortugal na totalidade (e o litoral, em particular) tem beneficiado dos pa\u00edses\nmais ricos da Uni\u00e3o Europeia. Isso faz-se, por exemplo, invertendo a l\u00f3gica de\ndesqualifica\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os e infra-estruturas existentes. Faz-se tamb\u00e9m por\nvia do refor\u00e7o de servi\u00e7os e da atratividade de alguns centros urbanos do\ninterior, estrategicamente posicionados. Faz-se, ainda, olhando para os\nrecursos e capacidades end\u00f3genas e pensando o respetivo desenvolvimento a\npartir do aproveitamento desses recursos e dessas compet\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Portugal ser\u00e1\nforte se tiver tamb\u00e9m um interior forte!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, Expresso online (038 25\/09\/2019)<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,282],"tags":[],"class_list":["post-44510","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-expresso-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/44510","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=44510"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/44510\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":44514,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/44510\/revisions\/44514"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=44510"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=44510"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=44510"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}