{"id":44504,"date":"2020-03-25T00:51:50","date_gmt":"2020-03-25T00:51:50","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=44504"},"modified":"2020-03-25T00:51:52","modified_gmt":"2020-03-25T00:51:52","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-7-2-2-2-3-2-4-3-2-31-7","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=44504","title":{"rendered":"Brecha na muralha, fraude na cidadela"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira<\/strong><\/span>, Expresso online (036 11\/09\/2019)<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/opiniao\/2019-09-11-Brecha-na-muralha-fraude-na-cidadela\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"16\" height=\"16\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" class=\" wp-image-19 alignleft\" alt=\"\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\"><\/a><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2020\/03\/36-JAMoreira-set2019.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"14\" height=\"14\" title=\"Ficheiro PDF\" class=\"alignleft wp-image-2032\" alt=\"\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\"><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><!--more--><\/p>\n\n\n<p>As organiza\u00e7\u00f5es protegem-se contra as fraudes\ndefinindo e implementando conjuntos de controlos internos que, idealmente,\nquando considerados no seu todo, deveriam constituir uma muralha protetora dos\nrespetivos recursos, capaz de os manter ao abrigo da atua\u00e7\u00e3o de defraudadores\ninternos e externos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por\u00e9m, nem sempre tal muralha oferece a prote\u00e7\u00e3o\nnecess\u00e1ria. Umas vezes porque as organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o dedicaram o tempo emeios\nnecess\u00e1rios ao respetivo desenho e implementa\u00e7\u00e3o \u2013 tende a acontecer com maior\nfrequ\u00eancia nas organiza\u00e7\u00f5es de menor dimens\u00e3o; outras, pese um desenho irrepreens\u00edvel\nda muralha, porque a respetiva implementa\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o deixam a desejar \u2013 se\ncada \u201cvigilante\u201d n\u00e3o cumprir, em perman\u00eancia, o papel que lhe est\u00e1 destinado,\nn\u00e3o h\u00e1 muralha, por mais alta que seja, que possa evitar que o inimigo\n(defraudador) entre na cidadela.<\/p>\n\n\n\n<p>Atente-se neste \u00faltimo caso. A implementa\u00e7\u00e3o do\ncontrolo interno tem de passar, e geralmente passa, por treinar as pessoas no\npapel que cada uma tem de desempenhar na defesa dos recursos da organiza\u00e7\u00e3o,\npor incutir-lhes rotinas que permitam que cada uma desempenhe cabalmente o\nlugar que lhe cabe na defesa da muralha. Neste dom\u00ednio, uma insufici\u00eancia surge\nquando a organiza\u00e7\u00e3o, os seus diversos n\u00edveis hier\u00e1rquicos, assumem, ainda que\ninconscientemente, que feito esse treino inicial, institu\u00eddas tais rotinas,\nelas permanecem ativas e eficazes como quando foram desenhadas e treinadas pela\nprimeira vez.<\/p>\n\n\n\n<p>Erro de perce\u00e7\u00e3o, que pode ser fatal. Pese o\nfacto de crescentemente se inclu\u00edrem nos controlos internos elementos de\nnatureza eletr\u00f3nica ou digital\u2013 supostamente propiciadores de atua\u00e7\u00f5es uniformes\nao longo do tempo \u2013, o elemento humano, direta ou indiretamente, est\u00e1 sempre\npresente. Deixando de lado as situa\u00e7\u00f5es extremas em que pessoas da organiza\u00e7\u00e3o\nse conluiem para a defraudarem, inviabilizando o funcionamento do sistema de\ncontrolo interno, na maior parte das vezes s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es de amizade, de\ncamaradagem e de confian\u00e7a entre elas existentes os principais inimigos,\naquelas que mais facilmente contribuem para abrir brechas na muralha. <\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo muito recente. Aguardando a minha vez\nnuma das caixas do supermercado, vejo a operadora lan\u00e7ar m\u00e3o do telefone e\nlan\u00e7ar aviso sonoro no enorme espa\u00e7o, clamando pela presen\u00e7a do respons\u00e1vel de\nloja para efeito de anula\u00e7\u00e3o de um produto que, por lapso, fora lan\u00e7ado em\nduplicado. Tratou-se do procedimento normal, o que muito provavelmente\nconstaria das regras de controlo interno \u2013 opera\u00e7\u00f5es de anula\u00e7\u00e3o de movimentos,\nmais prop\u00edcias a provocarem dano \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o, dever\u00e3o ser autorizadas por um\nsuperior hier\u00e1rquico. A anormalidade: a operadora da caixa adjacente, desperta\npelo aviso, estende \u00e0 colega o cart\u00e3o que permitia efetivar a opera\u00e7\u00e3o de\nanula\u00e7\u00e3o, com a explica\u00e7\u00e3o sucinta de \u201cToma, ela deixou-o aqui.\u201dA muralha\ncontinha uma brecha.<\/p>\n\n\n\n<p>Poder-se-\u00e1 argumentar, <em>a contrario<\/em>, que\nnuma equipa relativamente pequena como a do referido supermercado, onde todos\nse conhecem e comungam de sentimentos de confian\u00e7a m\u00fatua, o procedimento\n(an\u00f3malo) referido n\u00e3o deveria ser visto como uma condicionante da efic\u00e1cia do\nsistema de controlo interno da organiza\u00e7\u00e3o. Argumento improcedente, \u00e0 luz da\nteoria do Tri\u00e2ngulo da Fraude (Cressey, 1953).Os seres humanos n\u00e3o nascem\ndefraudadores. Defraudam quando, sob \u201cpress\u00e3o\u201d, se defrontam com uma \u201coportunidade\u201d\npara levarem a cabo o ato defraudador que, pelo menos momentaneamente, alivia\ntal press\u00e3o, admitindo para si pr\u00f3prios, num ato de \u201cracionaliza\u00e7\u00e3o\u201d, que a\natitude que tomam n\u00e3o \u00e9 um sin\u00f3nimo de desonestidade, mas o ressarcimento de\npreju\u00edzos que a organiza\u00e7\u00e3o lhes ter\u00e1 causado ou, simplesmente, que os valores\ntomados s\u00e3o um empr\u00e9stimo que em seu tempo ser\u00e1 devolvido. <\/p>\n\n\n\n<p>Num caso como o do supermercado, a rela\u00e7\u00e3o de\nconfian\u00e7a entre as pessoas da equipa pode ser atropelada porque uma delas est\u00e1\nsob press\u00e3o \u2013 por exemplo, tem d\u00edvidas de jogo, problemas financeiros\ninadi\u00e1veis, etc.; a oportunidade, est\u00e1 na disponibilidade do cart\u00e3o para anular\nmovimentos indevidamente, cujo montante reverteria a favor desse elemento\ndefraudador; a racionaliza\u00e7\u00e3o, subjaz \u00e0 constru\u00e7\u00e3o mental do sujeito para\neliminar a sensa\u00e7\u00e3o de desonestidade inerente ao ato. <\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 muitos anos, enquanto elemento de uma equipa\nde auditoria banc\u00e1ria, participei no levantamento de uma fraude de milhares de\ncontos, perpetrada ao longo de cinco anos, que tinha os contornos acabados de\nreferir. Ocorreu numa ag\u00eancia dotada de uma equipa com dezena e meia de pessoas\nque se consideravam, como elas pr\u00f3prias expressaram, membros de uma fam\u00edlia. O\ncart\u00e3o para anula\u00e7\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es estava no canto da secret\u00e1ria do subgerente,\nem perman\u00eancia, ao dispor de quem dele necessitasse; os dois restantes\ngerentes, a quem competia fazerem inspe\u00e7\u00f5es aleat\u00f3rias regulares aos recursos\n(valores) da ag\u00eancia, ou n\u00e3o as efetuavam, ou avisavam antecipadamente quando\nas iam efetuar. Um empregado com fun\u00e7\u00f5es de caixa, sob extrema press\u00e3o\nfinanceira e dada a oportunidade existente, foi anulando dep\u00f3sitos recebidos de\nclientes, que ia posteriormente repondo nas contas por contrapartida de novas\nanula\u00e7\u00f5es, num \u201croulement\u201d crescente que dificilmente poderia ser revertido. Numa\nmuralha bem desenhada \u2013 o sistema de controlo interno do banco \u2013, a brecha\nsurgiu pelo facto de cada um dos elementos da hierarquia n\u00e3o desempenhar adequadamente\no papel que lhe estava atribu\u00eddo na defesa daquela, qui\u00e7\u00e1 movidos pela\nconfian\u00e7a colocada nos colegas e subordinados. Atrav\u00e9s de tal brecha, mais\ntarde ou mais cedo um defraudador poderia entrar na cidadela, como veio a\nacontecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Se uma organiza\u00e7\u00e3o tivesse conhecimento em cada\nmomento das situa\u00e7\u00f5es de extrema press\u00e3o por que passam as pessoas que a constituem,\nseria f\u00e1cil criar ou rever procedimentos de controlo que obviassem ao\nsurgimento de oportunidades que permitissem transformar tal press\u00e3o em fraude.\nComo n\u00e3o tem, o evitar brechas na muralha, no sistema de controlo interno, ter\u00e1\nde passar, em cont\u00ednuo, por forma\u00e7\u00e3o profissional das equipas, reativando as\nrotinas; por passar a ideia de que o exerc\u00edcio do controlo n\u00e3o significa\ndesconfiar da honestidade de cada um; e por testes de efic\u00e1cia desse sistema,\ncom car\u00e1ter temporal aleat\u00f3rio. Tais atitudes nunca eliminar\u00e3o completamente as\nreferidas brechas, mas limitar\u00e3o o seu aparecimento e dimens\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Ant\u00f3nio Moreira, Expresso online (036 11\/09\/2019)<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,282],"tags":[],"class_list":["post-44504","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-expresso-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/44504","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=44504"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/44504\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":44515,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/44504\/revisions\/44515"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=44504"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=44504"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=44504"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}