{"id":43661,"date":"2019-09-23T14:30:23","date_gmt":"2019-09-23T14:30:23","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=43661"},"modified":"2019-09-23T14:30:26","modified_gmt":"2019-09-23T14:30:26","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-7-2-2-2-3-2-4-3-2-17","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=43661","title":{"rendered":"O Homem, o animal \u00e9tico! (?)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Ant\u00f3nio Jo\u00e3o Maia<\/strong><\/span>, Expresso online (015 17\/04\/2019)<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/opiniao\/2019-04-17-O-Homem-o-animal-etico----\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/EE015.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2032\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><!--more--><\/p>\n<p>Vimos anteriormente, em <a href=\"https:\/\/leitor.expresso.pt\/diario\/quarta-21\/html\/caderno1\/temas-principais\/a-condicao-humana--a-fraude-e-a-corrupcao-como-retrocessos-civilizacionais\">A condi\u00e7\u00e3o Humana - a fraude e a corrup\u00e7\u00e3o como retrocessos civilizacionais<\/a>, que a exist\u00eancia do homem se desenvolve fundamentalmente segundo dois eixos. O biol\u00f3gico, base de toda a vida natural, que nos coloca no mesmo plano dos demais animais e seres vivos com os quais partilhamos este planeta, sobre o qual essa mesma natureza nos tem conferido a invulgar habilidade para erigirmos e sustentarmos o eixo cultural, que no essencial se tem traduzido na capacidade para encontrarmos solu\u00e7\u00f5es muito pr\u00f3prias e de elevada elabora\u00e7\u00e3o racional e t\u00e9cnica face aos desafios que o mundo nos tem colocado e \u00e0s formas como a ele nos vamos adaptando.<\/p>\n<p>Vimos tamb\u00e9m, e sobretudo, que o eixo cultural tem assumido uma dimens\u00e3o de tal modo importante e central que nos deixa como que mergulhados nele. A dimens\u00e3o cultural acaba por ser verdadeiramente, para cada um de n\u00f3s, o \u201cnosso mundo\u201d. O mundo em que nos movimentamos, em que vivemos e convivemos uns com os outros, em que existimos e no qual a nossa vida acontece e adquire todo um contexto, um sentido e uma l\u00f3gica, enfim, uma normalidade. Esta dimens\u00e3o envolve-nos de tal modo que parece nada existir fora dela, nem mesmo a nossa natureza animal.<\/p>\n<p>Vimos ainda que esta capacidade para nos afastarmos de um certo determinismo natural \u00e9 efeito da racionalidade. \u00c9 ela, a racionalidade, que nos tem permitido construir, partilhar e sustentar, artefactos culturais, s\u00edmbolos, ideias, no\u00e7\u00f5es e vis\u00f5es sobre o mundo. A racionalidade permite-nos construir e sustentar mentalmente o \u201cnosso mundo\u201d. E \u00e9 nesta dimens\u00e3o que encontramos no\u00e7\u00f5es t\u00e3o importantes como a \u00e9tica, a integridade, a cidadania, a civilidade, a honra, a igualdade, a fraternidade e o respeito pelo outro e tantos outros valores que consideramos fundamentais para o s\u00e3o equil\u00edbrio da coexist\u00eancia coletiva e que se t\u00eam constru\u00eddo e sedimentado precisamente a partir das rela\u00e7\u00f5es de conviv\u00eancia dos indiv\u00edduos uns com os outros ao longo das sucessivas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>E ser\u00e1 fundamentalmente a partir deste ponto de vista, do modo como se tem processado toda a evolu\u00e7\u00e3o do ser humano e da sua capacidade para produzir e edificar realidades sociais e culturais pr\u00f3prias e distintas do mundo natural, que a ci\u00eancia social tem considerado o Homem como o animal social ou cultural. E, sobre este ponto de vista, cremos que o Homem pode ser tamb\u00e9m considerado como o animal \u00e9tico.<\/p>\n<p>Na realidade, o plano da racionalidade humana, que inclui o poder para a abstra\u00e7\u00e3o, remete-nos para o desenvolvimento de capacidades superiores de liberdade e responsabilidade na tomada de op\u00e7\u00f5es relativamente ao mundo e a tudo o que nele se encontra. Como refere apropriadamente Fernando Savater, em <em>\u00c9tica para um Jovem<\/em> (Edi\u00e7\u00f5es D. Quixote, 21\u00aa edi\u00e7\u00e3o, Lisboa, 2005), \u201c<em>ao contr\u00e1rio de outros seres, vivos ou inanimados, n\u00f3s, seres humanos, podemos inventar e escolher em parte a nossa forma de vida. Podemos optar pelo que nos parece bom, quer dizer, conveniente para n\u00f3s, frente ao que nos parece mau e inconveniente. E, como podemos inventar e escolher, podemos enganar-nos, que \u00e9 uma coisa que n\u00e3o acontece a castores, abelhas e t\u00e9rmitas. Assim, parece prudente estarmos bem atentos ao que fazemos e procurar adquirir um certo saber viver que nos permita acertar. Esse saber viver, ou arte de viver, \u00e9 aquilo a que se chama \u00e9tica<\/em>\u201d (p\u00e1g. 32), complementando mais adiante que \u201c<em>o que interessa \u00e0 \u00e9tica, o que constitui a sua especialidade, \u00e9 como viver bem a vida humana, a vida que decorre entre seres humanos. Se n\u00e3o soubermos como arranjar-nos para sobreviver frente aos perigos naturais, perderemos a vida, o que \u00e9, de certeza, muito aborrecido; mas se n\u00e3o fizermos ideia do que seja a \u00e9tica, o que perderemos e desperdi\u00e7aremos ser\u00e1 a humanidade da nossa vida, e isso, francamente, tamb\u00e9m n\u00e3o tem gra\u00e7a nenhuma<\/em>\u201d (p\u00e1g.101). A \u00e9tica \u00e9 assim uma dimens\u00e3o que remete para a exist\u00eancia de esp\u00edritos livres e respons\u00e1veis, com capacidade para avaliar contextos e tomar decis\u00f5es que garantam a concretiza\u00e7\u00e3o das expectativas do que deve ser a vida coletiva. Deste ponto de vista, o Homem \u00e9 (tamb\u00e9m e sobretudo) o animal \u00e9tico!<\/p>\n<p>E foi precisamente a partir desta perspetiva que consider\u00e1mos, no texto inicialmente mencionado, que todas as a\u00e7\u00f5es humanas que se afastem ou divirjam deste quadro, nomeadamente porque coloquem em causa ou contrariem as expectativas acerca do que deve ser a vida coletiva, ou seja do que deve ser a \u00e9tica e a sua operacionaliza\u00e7\u00e3o, a integridade, que consider\u00e1mos que as pr\u00e1ticas de fraude e de corrup\u00e7\u00e3o representam um certo retrocesso na evolu\u00e7\u00e3o civilizacional. Ser\u00e1 nestas circunst\u00e2ncias, sempre que nos cruzamos ou s\u00e3o publicamente sinalizadas situa\u00e7\u00f5es de suspei\u00e7\u00e3o sobre alegadas aus\u00eancias de \u00e9tica e de integridade, como os casos de fraude e corrup\u00e7\u00e3o que sistematicamente t\u00eam surgido na opini\u00e3o p\u00fablica, que nos questionamos se o Homem \u00e9 efetivamente capaz de assumir plenamente o patamar superior da \u00e9tica e da integridade. Ser\u00e1 o Homem efetivamente o animal \u00e9tico?<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que o mundo, sobretudo o \u201cmundo do homem\u201d, n\u00e3o \u00e9 perfeito, nunca foi perfeito, nunca vir\u00e1 a ser perfeito, nem porventura essa alegada e ut\u00f3pica perfei\u00e7\u00e3o seria desej\u00e1vel (creio mesmo que n\u00e3o, uma vez que nesse est\u00e1dio tender\u00edamos a ficar todos rigorosamente iguais nas nossas avalia\u00e7\u00f5es e decis\u00f5es, uma esp\u00e9cie de aut\u00f3matos pr\u00e9-programados e irrespons\u00e1veis por aus\u00eancia de qualquer liberdade de op\u00e7\u00e3o, tornando-se a vida por certo numa verdadeira chatice dado o elevado grau de previsibilidade que assumiria).<\/p>\n<p>Todavia acredita-se que toda a a\u00e7\u00e3o, individual ou coletiva, formal ou informal, que contribua para limar ou corrigir pr\u00e1ticas desajustadas a este n\u00edvel \u00e9 seguramente um modo positivo de melhorar os \u00edndices de \u00e9tica e de integridade da sociedade. Por isso todos os instrumentos e medidas de controlo s\u00e3o necess\u00e1rios e importantes. Desde os media, com a sua fun\u00e7\u00e3o natural de trazerem os problemas para a luz do dia e para a agenda social e pol\u00edtica, como tem sucedido particularmente nos \u00faltimos anos, passando pelas inst\u00e2ncias de controlo e preven\u00e7\u00e3o, at\u00e9 \u00e0s institui\u00e7\u00f5es de repress\u00e3o, com a sua fun\u00e7\u00e3o mais punitiva, todos devem desenvolver a sua a\u00e7\u00e3o no sentido de contribuir para uma sociedade melhor, mais s\u00e3 e mais justa, onde todos se sintam plenos no usufruto da sua cidadania.<\/p>\n<p>E n\u00f3s, os cidad\u00e3os, organizados em grupos da sociedade civil ou mesmo individualmente, devemos assumir tamb\u00e9m uma a\u00e7\u00e3o neste \u00e2mbito.<\/p>\n<p>N\u00f3s temos porventura a a\u00e7\u00e3o mais importante e merit\u00f3ria de todas! Afinal de contas a aus\u00eancia de \u00e9tica e de integridade \u00e9 em primeira linha uma quest\u00e3o de consci\u00eancia e de atitude daqueles de n\u00f3s que praticam atos fraudulentos e de corrup\u00e7\u00e3o. Daqueles que colocam os seus interesse pr\u00f3prios acima do interesse de todos, acima do s\u00e3o equilibro social.<\/p>\n<p>Ah, se ao menos fossemos todos capazes de prescindir, um pouco que fosse, dos nossos egoismozinhos, talvez consegu\u00edssemos alcan\u00e7ar uma sociedade com maiores \u00edndices de \u00e9tica e de integridade, onde todos nos sent\u00edssemos melhor connosco pr\u00f3prios e com os outros. Talvez consegu\u00edssemos uma sociedade mais limpa e justa. Mais equilibrada. Talvez\u2026<\/p>\n<p>A finalizar, ocorrem-me as palavras de Almada Negreiros, em <em>A inven\u00e7\u00e3o do dia claro<\/em> (Lisboa, Olisipo, 1921), \u201c<em>quando eu nasci, as frases que h\u00e3o-de salvar a humanidade j\u00e1 estavam todas escritas, s\u00f3 faltava uma coisa \u2013 salvar a humanidade<\/em>\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Jo\u00e3o Maia, Expresso online (015 17\/04\/2019)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,282],"tags":[],"class_list":["post-43661","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-expresso-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/43661","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=43661"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/43661\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":43682,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/43661\/revisions\/43682"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=43661"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=43661"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=43661"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}