{"id":43609,"date":"2019-09-18T07:14:06","date_gmt":"2019-09-18T07:14:06","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=43609"},"modified":"2019-09-18T07:14:10","modified_gmt":"2019-09-18T07:14:10","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-7-2-2-2-3-2-4-3-2-11","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=43609","title":{"rendered":"A Condi\u00e7\u00e3o Humana \u2013 a fraude e a corrup\u00e7\u00e3o como retrocessos civilizacionais"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Ant\u00f3nio Jo\u00e3o Maia<\/strong><\/span>, Expresso online (010 14\/03\/2019)<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/opiniao\/2019-03-13-A-condicao-humana--a-fraude-e-a-corrupcao-como-retrocessos-civilizacionais\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/EE010.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2032\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><!--more--><\/p>\n<p>Em certo sentido e como tem sido evidenciado pela ci\u00eancia, particularmente pela ci\u00eancia social, podemos considerar que a vida humana se desenvolve fundamentalmente em torno de dois grandes eixos, o biol\u00f3gico e o social ou cultural.<\/p>\n<p>O primeiro, o biol\u00f3gico, que sustenta o segundo (e que, bem vistas as coisas, \u00e9 o pilar basilar de toda a vida tal como a conhecemos), diz-nos que somos animais e que, tal como todos os outros com os quais partilhamos este planeta, temos necessidades b\u00e1sicas de sobreviv\u00eancia como sejam a respira\u00e7\u00e3o, a alimenta\u00e7\u00e3o, a defesa, a prote\u00e7\u00e3o e at\u00e9 a pr\u00f3pria procria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E o segundo, o social ou cultural, que corre sobre o primeiro, que nos mostra as invulgares capacidades que a nossa esp\u00e9cie tem para se adaptar e at\u00e9 para moldar ao seu jeito, de uma forma muito particular, o mundo que habita. Esta segunda dimens\u00e3o, que os antrop\u00f3logos tendem a catalogar como a dos artefactos culturais, adquire uma express\u00e3o a tal ponto importante que nos deixa como que mergulhados nela, fazendo-nos praticamente esquecer a nossa raiz animal.<\/p>\n<p>Vivemos, por assim dizer, num mundo artificial criado por n\u00f3s pr\u00f3prios em fun\u00e7\u00e3o dos nossos interesses conjuntos, na tranquilidade dos nossos espa\u00e7os urbanos, na seguran\u00e7a dos nossos apartamentos, com os mais modernos aparelhos de climatiza\u00e7\u00e3o e rodeados de equipamentos de divers\u00e3o e entretenimento, de comunica\u00e7\u00e3o e de transporte, num mundo que, pelo menos para alguns, estar\u00e1 muito pr\u00f3ximo da perfei\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que a realidade n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o \u201ccor-de-rosa\u201d para todos, e a\u00ed est\u00e3o as assimetrias sociais a prov\u00e1-lo em todas as latitudes. Mas, para o efeito desta reflex\u00e3o, basta-nos assumir o significado de conformidade relativamente ao que esta dimens\u00e3o social ou cultural representa para todos e cada um de n\u00f3s no nosso quotidiano.<\/p>\n<p>Ela representar\u00e1 pelo menos que existe um conjunto de estruturas sociais que foram sendo criadas e atualizadas ao longo da hist\u00f3ria pelas sucessivas gera\u00e7\u00f5es e que agora nos aliviam de temos de andar diariamente \u00e0 ca\u00e7a, em busca de alimentos ou de \u00e1gua, ou de nos termos de refugiar de predadores ou de intemp\u00e9ries em abrigos improvisados, como faziam os nossos antepassados h\u00e1 milhares de anos e como continuam a fazer os outros animais que coabitam connosco o mesmo territ\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente sobre estas duas dimens\u00f5es e o modo como elas est\u00e3o interligadas que nos fala Roger Scruton em <em>A Natureza Humana<\/em> (ed. Gradiva, 2017). No texto, o autor come\u00e7a por nos recordar essa nossa natureza biol\u00f3gica, de seres animais, com necessidades elementares muito b\u00e1sicas, t\u00e3o semelhante a todos os outros, \u00e0s quais se tem associado uma determinada heran\u00e7a gen\u00e9tica, cujo desenvolvimento e aprofundamento ao longo das sucessivas gera\u00e7\u00f5es parece explicar as capacidades cognitivas \u00edmpares de que somos dotados. E s\u00e3o estas capacidades que nos t\u00eam permitido a constru\u00e7\u00e3o e partilha de todo um universo muito pr\u00f3prio que, para l\u00e1 dos artefactos mundanos que todos conhecemos, nos conferem tamb\u00e9m e sobretudo uma capacidade de abstra\u00e7\u00e3o, de cria\u00e7\u00e3o e partilha de s\u00edmbolos e c\u00f3digos lingu\u00edsticos, da moral, do bem e do mal e da pr\u00f3pria dimens\u00e3o do sagrado. Enfim, de uma certa coer\u00eancia do mundo constru\u00edda e partilhada pela nossa raz\u00e3o e \u00e0 sua medida.<\/p>\n<p>Confesso que n\u00e3o simpatizo particularmente com a cataloga\u00e7\u00e3o que todos conhecemos dos bancos da escola, de que somos animais racionais (simplesmente porque, ainda que instintivamente, todos os animais parecem obedecer de alguma forma a indica\u00e7\u00f5es que lhe h\u00e3o-de vir do c\u00e9rebro, mais do que de qualquer outro \u00f3rg\u00e3o, e se baseiam pelo menos nos instintos de sobreviv\u00eancia e em experi\u00eancias anteriores), mas creio que seja esta capacidade para criarmos e partilharmos o nosso pr\u00f3prio mundo a grande raz\u00e3o para nos definirmos como animais racionais.<\/p>\n<p>Um outro autor sobejamente conhecido, o Antrop\u00f3logo Claude L\u00e9vi-Strauss, em <em>Ra\u00e7a e hist\u00f3ria<\/em> (ed. Veja, 2003), mostra-nos que a diversidade dos modelos de desenvolvimento cultural do homem, ou seja os modos como os grupos humanos t\u00eam superado desafios semelhantes em diferentes espa\u00e7os e circunst\u00e2ncias distintas, parecem ser mais fruto dessas mesmas circunst\u00e2ncias de contexto do que de maiores ou menores capacidades intelectuais ou racionais dos sujeitos ou deste ou daquele grupo.<\/p>\n<p>Esta constata\u00e7\u00e3o permite perceber um pouco melhor a raz\u00e3o pela qual a dimens\u00e3o social e cultural da exist\u00eancia humana tende a adquirir para cada um de n\u00f3s um lugar central e a sobrepor-se \u00e0 dimens\u00e3o biol\u00f3gica. Afinal de contas, para cada indiv\u00edduo, integrado no seu grupo de perten\u00e7a, na sua sociedade, com as refer\u00eancias culturais que a caraterizam, o mundo e os objetos que o comp\u00f5em tendem a formar um todo que se explica de forma coerente, e que, no essencial, traduz o modo de adapta\u00e7\u00e3o que foi sendo constru\u00eddo e partilhado por esse mesmo grupo ao longo das sucessivas gera\u00e7\u00f5es em resultado da supera\u00e7\u00e3o dos desafios que lhe foram sendo colocados.<\/p>\n<p>Uma terceira refer\u00eancia que queremos abordar nesta reflex\u00e3o, agora j\u00e1 claramente no \u00e2mbito da dimens\u00e3o social ou cultural da vida humana, prende-se com o processo de partilha e transmiss\u00e3o da heran\u00e7a cultural entre as sucessivas gera\u00e7\u00f5es no seio de uma mesma sociedade. \u00c9 atrav\u00e9s deste processo que se sedimentam os artefactos culturais, que adquirem sentido e s\u00e3o contextualizadas as solu\u00e7\u00f5es encontradas para superar cada nova quest\u00e3o colocada \u00e0 sociedade. Enfim, \u00e9 atrav\u00e9s deste processo que a heran\u00e7a cultural adquire um sentido e uma coer\u00eancia pr\u00f3prias e que \u00e9 pass\u00edvel de ser incrementada.<\/p>\n<p>Um dos autores que se dedicou ao estudo deste processo foi Jack Goddy, que, em <em>Domestica\u00e7\u00e3o do pensamento selvagem<\/em> (ed. Presen\u00e7a, 1988), nos diz que um dos elementos-chave que permitiu o estabelecimento de processos de partilha e sistematiza\u00e7\u00e3o de quadros de heran\u00e7a cultural reside na capacidade do ser humano para criar e partilhar a linguagem, primeiro oralizada e posteriormente oralizada e escrita. Foi esta capacidade para criar, partilhar e reconhecer um conjunto de s\u00edmbolos, associados a objetos e depois a ideias, gradualmente mais abstratas, e de comunicar atrav\u00e9s deles, que permitiu e continua a permitir aprofundar as rela\u00e7\u00f5es sociais entre os indiv\u00edduos.<\/p>\n<p>Nesta altura \u00e9 o leitor deste texto bem capaz de j\u00e1 se ter questionado sobre em que me medida \u00e9 que tudo isto se relaciona com a fraude e a corrup\u00e7\u00e3o que leu no t\u00edtulo?<\/p>\n<p>\u00c9 o que procurarei explicar no encerramento da reflex\u00e3o.<\/p>\n<p>At\u00e9 aqui verific\u00e1mos como o homem foi sendo gradualmente capaz de se ir afastando de um certo determinismo biol\u00f3gico e de edificar sobre ele o seu pr\u00f3prio mundo. A sua pr\u00f3pria realidade. Uma realidade feita de artefactos culturais, criados, sustentados e partilhados de forma coerente por todos os membros da sociedade.<\/p>\n<p>E \u00e9 nesta realidade, assim partilhada e vivenciada por todos, que encontramos no\u00e7\u00f5es t\u00e3o importantes como a civilidade, a cidadania, a \u00e9tica, a integridade, a honra, o respeito pelo outro e todos os valores que consideramos importantes para a manuten\u00e7\u00e3o da coexist\u00eancia e da coopera\u00e7\u00e3o e para continuarmos a sentir que essa coexist\u00eancia faz sentido e que, por isso, continua a fazer sentido lutar pela sua manuten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Deste ponto de vista, todas as a\u00e7\u00f5es que divirjam deste quadro, nomeadamente a fraude e a corrup\u00e7\u00e3o, na medida em que o contrariam gravemente e colocam em causa, representam, relativamente \u00e0queles que as praticam, retrocessos na evolu\u00e7\u00e3o civilizacional.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Jo\u00e3o Maia, Expresso online (010 14\/03\/2019)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,282],"tags":[],"class_list":["post-43609","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-expresso-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/43609","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=43609"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/43609\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":43636,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/43609\/revisions\/43636"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=43609"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=43609"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=43609"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}