{"id":43608,"date":"2019-09-18T07:15:51","date_gmt":"2019-09-18T07:15:51","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=43608"},"modified":"2019-09-18T07:15:56","modified_gmt":"2019-09-18T07:15:56","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-7-2-2-2-3-2-4-3-2-13","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=43608","title":{"rendered":"Corrup\u00e7\u00e3o Passiva"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Pedro Moura<\/strong><\/span>, Expresso online (011 20\/03\/2019)<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/opiniao\/2019-03-20-Corrupcao-Passiva\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/EE011.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2032\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><!--more--><\/p>\n<p>A minha anterior cr\u00f3nica (<a href=\"https:\/\/expresso.pt\/opiniao\/2019-02-07-Corrupcao-ativa\">https:\/\/expresso.pt\/opiniao\/2019-02-07-Corrupcao-ativa<\/a>) foi dedicada \u00e0 \u2018corrup\u00e7\u00e3o ativa\u2019, ou sejam aquela em que h\u00e1 um esfor\u00e7o concreto e dirigido \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o indevida de bens e recursos por parte de algu\u00e9m.<\/p>\n<p>Neste texto abordo o tema da \u2018corrup\u00e7\u00e3o passiva\u2019, caracterizada sobretudo pelas atitudes de \u2018olhar para o lado\u2019 e pela ina\u00e7\u00e3o praticadas por pessoas relativamente a situa\u00e7\u00f5es que conhe\u00e7am ou vivenciem de fraude, corrup\u00e7\u00e3o, ou t\u00e3o somente neglig\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong>Se a \u2018corrup\u00e7\u00e3o ativa\u2019 tende a ser apan\u00e1gio sobretudo de indiv\u00edduos com algum n\u00edvel de poder (os \u2018profissionais\u2019), a \u2018corrup\u00e7\u00e3o passiva\u2019 assume-se sobretudo como um fen\u00f3meno de massas, que endemicamente \u00e9 praticado pelo grosso da popula\u00e7\u00e3o sem que muitas vezes haja sequer uma perce\u00e7\u00e3o real do ato de cumplicidade negativa em que est\u00e3o a incorrer.<\/p>\n<p>Com efeito, em artigo anterior (\u201cTreta de Corrup\u00e7\u00e3o\u201d, publicado na Vis\u00e3o Online em <a href=\"http:\/\/visao.sapo.pt\/opiniao\/silnciodafraude\/2019-01-31-Treta-de-corrupcao\">http:\/\/visao.sapo.pt\/opiniao\/silnciodafraude\/2019-01-31-Treta-de-corrupcao<\/a>) dava conta de um curioso fen\u00f3meno que se vive em Portugal. De acordo com um estudo da autoria da Transpar\u00eancia Internacional sobre perce\u00e7\u00f5es sociais relacionadas com corrup\u00e7\u00e3o, entre v\u00e1rios cong\u00e9neres europeus Portugal \u00e9 o 2\u00ba pa\u00eds com maior taxa de resposta afirmativa \u00e0 quest\u00e3o \u2018Se eu testemunhasse um ato de corrup\u00e7\u00e3o, sentir-me-ia pessoalmente obrigado a denunci\u00e1-lo?\u2019. 88% dos inquiridos responderam um perent\u00f3rio \u2018Sim\u2019 a esta quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Julgar-se-ia ent\u00e3o que cada Portugu\u00eas se sente (e age como) um campe\u00e3o da luta contra a corrup\u00e7\u00e3o. E, no entanto, a realidade vivida por todos diariamente neste nosso canto do mundo encarrega-se de demonstrar qu\u00e3o errada esta ideia est\u00e1. Pior: qu\u00e3o grande \u00e9 a ilus\u00e3o coletiva dos portugueses relativamente ao seu comportamento c\u00edvico perante estas mat\u00e9rias. Dir-se-ia uma esp\u00e9cie de her\u00f3is virtuais, mas muito pouco virtuosos.<\/p>\n<p>O \u2018povo sereno\u2019 aceita de bom grado e sem grande contrariedade situa\u00e7\u00f5es claras de comportamentos contr\u00e1rios ao bem comum e individual.<\/p>\n<p>\u00c9 extenso o rol de situa\u00e7\u00f5es em que o comportamento por omiss\u00e3o da esmagadora maioria passa pelo \u2018calar-se\u2019 ou \u2018olhar para o lado\u2019: abusos de posi\u00e7\u00e3o e poder, neglig\u00eancias grosseiras, pequenas e grandes falcatruas, uso e abuso indevido de meios e recursos alheios, apropria\u00e7\u00e3o \u2018hier\u00e1rquica\u2019 de propriedade intelectual, chantagem profissional, pl\u00e1gio, favorecimentos, \u2018cunhas\u2019, subornos, n\u00e3o cumprimento de deveres profissionais ou de cidad\u00e3o, etc, etc.<\/p>\n<p>Perante tudo isto, n\u00f3s, portugueses, calamo-nos quando achamos que nos d\u00e1 jeito, sobretudo para n\u00e3o nos \u2018chatearmos\u2019, e quando pressentimos que podemos potencialmente arranjar \u2018problemas\u2019 por tomarmos alguma atitude mais vertical perante uma situa\u00e7\u00e3o ou pessoa que est\u00e1 claramente em falta. Demonstramos um conveniente \u2018respeitinho\u2019 por toda a aventesma que se consiga arrogar a um estatuto m\u00ednimo de \u2018autoridade\u2019, praticando o t\u00e3o aconselhado \u2018baixar as orelhas\u2019. Exibimos uma enorme capacidade de adapta\u00e7\u00e3o \u00e0s mais variadas situa\u00e7\u00f5es an\u00f3malas, o t\u00e3o conhecido \u2018primeiro estranha-se, depois entranha-se\u2019.<\/p>\n<p>Destes padr\u00f5es comportamentais surgem, entretanto, outras duas muito t\u00edpicas \u2018portuguesices\u2019. A primeira, o \u2018dizer-mal\u2019, despejando por fam\u00edlia, amigos e colegas, em casa, caf\u00e9s e Facebook a amarga b\u00edlis oriunda do despeito que se teve que sofrer em tal situa\u00e7\u00e3o \u00e0s m\u00e3os de tal e tal cavalgadura, seguido da magna declara\u00e7\u00e3o de que \u2018se pudessem\u2019 n\u00e3o sabiam o que fariam e aconteceriam (a t\u00edpica covardia mascarada de valentia).<\/p>\n<p>A segunda, a aprendizagem de como vencer na vida real em Portugal. Se \u00e9 a cavalgadura que \u2018se safa\u2019, e se a cavalgadura pratica impunentemente comportamentos conden\u00e1veis, tem-se, por um racioc\u00ednio logicamente v\u00e1lido, que os comportamentos conden\u00e1veis s\u00e3o os que \u2018safam\u2019 e levam ao sucesso.<\/p>\n<p>Como a nossa cultura c\u00edvica \u00e9 sobretudo baseada no \u2018respeitinho\u2019 por cavalgaduras e n\u00e3o no respeito real por si e pelos outros, \u00e9 f\u00e1cil de ver como nos transformamos e mantemos um pa\u00eds de \u2018cavalgaduras\u2019 ou aspirantes a tal. Faz lembrar aqueles caloiros que tendo sofrido sev\u00edcias s\u00e1dicas e est\u00fapidas \u00e0s m\u00e3os dos veteranos, quando se apanham no 2\u00ba ano fazem o mesmo ou pior aos novos caloiros. Complexo de inferioridade?<\/p>\n<p>As grandes burlas e corrup\u00e7\u00f5es, geralmente feitas por elites, s\u00e3o extremamente prejudiciais a Portugal e aos portugueses. Mas s\u00e3o o reflexo de uma cultura de covardia, ignor\u00e2ncia e permissividade estruturais que cria um p\u00e2ntano generalizado impeditivo de uma sociedade mais transparente, justa e meritocr\u00e1tica. As elites \u2018profissionais\u2019 da \u2018corrup\u00e7\u00e3o ativa\u2019 vingam neste p\u00e2ntano. \u00c9 caso para dizer que temos os l\u00edderes, governantes e corruptos que merecemos.<\/p>\n<p>Enquanto a maioria de n\u00f3s, cidad\u00e3os, continuar a fazer parte da \u2018corrup\u00e7\u00e3o passiva\u2019, enquanto n\u00e3o assumirmos a responsabilidade pelo que se passa diariamente \u00e0 nossa frente, enquanto n\u00e3o ousarmos dizer \u2018n\u00e3o\u2019, enquanto cada um olhar mais para o seu umbigo que para o que o rodeia, enquanto cada um persistir em deixar para amanh\u00e3 ser uma melhor pessoa e melhor cidad\u00e3o, ser\u00e1 neste p\u00e2ntano que todos viveremos.<\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedro Moura, Expresso online (011 20\/03\/2019)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,282],"tags":[],"class_list":["post-43608","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-expresso-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/43608","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=43608"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/43608\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":43635,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/43608\/revisions\/43635"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=43608"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=43608"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=43608"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}