{"id":43578,"date":"2019-09-17T08:30:54","date_gmt":"2019-09-17T08:30:54","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=43578"},"modified":"2019-09-17T08:30:57","modified_gmt":"2019-09-17T08:30:57","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-7-2-2-2-3-2-4-3-2-5","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=43578","title":{"rendered":"Azul, Rosa? De que Cor \u00e9 a Corrup\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Rute Serra<\/strong><\/span>, Expresso online (004 31\/01\/2019)<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"https:\/\/expresso.pt\/opiniao\/2019-01-31-Azul-rosa--De-que-cor-e-a-corrupcao-\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/09\/EE004.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2032\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><!--more--><\/p>\n<p>De h\u00e1 uma vintena de anos a esta parte, a academia tem envidado esfor\u00e7os, na tentativa de comprovar cientificamente o facto de as mulheres serem intrinsecamente menos corruptas do que os homens.<\/p>\n<p>Desde que <em>Gottfredson<\/em> e <em>Hirschi<\/em>, em <em>A General Theory of Crime<\/em> conclu\u00edram que as mulheres s\u00e3o menos propensas ao cometimento de crime que um novo campo de pesquisa, relacionado com corrup\u00e7\u00e3o e g\u00e9nero, se perfilou no horizonte.<\/p>\n<p>Os tr\u00eas mais significativos estudos comportamentais desde ent\u00e3o realizados, o \u00faltimo em 2018, publicado no <em>Journal of Economic Behavior &amp; Organization<\/em>, concluem em s\u00edntese que em situa\u00e7\u00f5es hipot\u00e9ticas, as mulheres s\u00e3o menos propensas a tolerar a corrup\u00e7\u00e3o; a gest\u00e3o exercida no feminino tende a evitar envolvimento significativo em pr\u00e1ticas de suborno e que pa\u00edses com maior representatividade de mulheres na governa\u00e7\u00e3o e no mercado de trabalho apresentam n\u00edveis menores de corrup\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, a aceita\u00e7\u00e3o destas asser\u00e7\u00f5es pela comunidade acad\u00e9mica n\u00e3o tem sido pac\u00edfica, soando vozes de discord\u00e2ncia, por exemplo, quanto \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o de bases de dados ex\u00f3genas, como metodologia de estudo.<\/p>\n<p>N\u00e3o obstante alguma dissid\u00eancia no interior da academia, a tend\u00eancia de comprovar o comportamento menos corrupto das mulheres trilha com \u00eaxito o seu caminho. Ancoradas nestes estudos, v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es internacionais produzem recomenda\u00e7\u00f5es alinhadas com as conclus\u00f5es ali alcan\u00e7adas. Exemplo paradigm\u00e1tico \u00e9 o <em>Report to the Nations 2018<\/em>, da <em>Association of Certified Fraud Examiners (ACFE)<\/em> que h\u00e1 semelhan\u00e7a de anos anteriores continua a detetar que cerca de 70% dos casos de corrup\u00e7\u00e3o no mundo, vestem de azul.<\/p>\n<p>Independentemente da acuidade dos instrumentos cient\u00edficos utilizados e das interpreta\u00e7\u00f5es encontradas, a verdade \u00e9 que a controv\u00e9rsia do tema passou a marcar presen\u00e7a na ordem do dia. Est\u00e1 criado o mito que destr\u00f3i a cren\u00e7a em \u201cmeninos na esfera p\u00fablica\u201d, \u201cmeninas na esfera privada\u201d. Ser\u00e1 este o momento da pol\u00edtica do desvelo, em detrimento da pol\u00edtica de interesses?<\/p>\n<p>Porque soam todas as sirenes sobre o tema importar\u00e1 talvez incluir o conhecimento j\u00e1 alcan\u00e7ado, nas mais modernas estrat\u00e9gias anticorrup\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que a defini\u00e7\u00e3o de \u201cg\u00e9nero\u201d implica a an\u00e1lise de um conceito social complexo. J\u00e1 a utiliza\u00e7\u00e3o da palavra \u201csexo\u201d, que tem em conta um conceito de simples divis\u00e3o bin\u00e1ria biol\u00f3gica, facilitaria a discuss\u00e3o. Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que a no\u00e7\u00e3o de corrup\u00e7\u00e3o possui uma natureza clandestina que dificulta m\u00e9tricas rigorosas, apesar de em Portugal estar estimada em 18,2 mil milh\u00f5es de euros, o equivalente a 7,9% do Produto Interno Bruto.<\/p>\n<p>Por outro lado, n\u00e3o ser\u00e1 despiciendo considerar que o estado de desenvolvimento civilizacional e os regimes pol\u00edticos dos pa\u00edses podem influenciar as assevera\u00e7\u00f5es sustentadas. Mas n\u00e3o ter\u00e1 sido a cria\u00e7\u00e3o deste mito que tem mantido, afinal, neste mundo varonil, as mulheres afastadas dos centros de poder e decis\u00e3o? Paradoxal? Talvez n\u00e3o. Mais do que a valora\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as entre sexos, na cruzada contra a corrup\u00e7\u00e3o ser\u00e1 eventualmente prefer\u00edvel encontrar mecanismos de esbatimento de desigualdades ao n\u00edvel da democracia dos regimes, de fomento de cultura pol\u00edtica e de incremento da <em>accountability<\/em>. N\u00e3o obstante,<\/p>\n<p>A psicologia h\u00e1 muito que explica que as mulheres s\u00e3o mais sens\u00edveis ao risco e menos perme\u00e1veis a influ\u00eancias externas, quando em posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a. A corrup\u00e7\u00e3o sexual, express\u00e3o que visa definir as situa\u00e7\u00f5es de exposi\u00e7\u00e3o feminina a press\u00f5es de cariz sexual, impulsiona movimentos ao estilo <em>#metoo<\/em>, enfatiza\u00e7\u00e3o \u00f3bvia do rep\u00fadio, pelas mulheres, a este tipo de pr\u00e1ticas. E por fim tamb\u00e9m \u00e9 verdade que existe maior toler\u00e2ncia social a homens corruptos, pois a ferida na expetativa p\u00fablica quando atos corruptivos s\u00e3o cometidos por mulheres, \u00e9 provavelmente maior.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o ser\u00e1 esta uma correla\u00e7\u00e3o perigosa? Fazer corresponder a maior propens\u00e3o para o cometimento de atos corruptivos \u00e0 natureza do g\u00e9nero (ou do sexo) do perpetrador?<\/p>\n<p>Talvez o tempo de estudo fosse melhor despendido se ao inv\u00e9s de focar na desmistifica\u00e7\u00e3o de uma categoria sexual, apartando-a da sua restante identidade, tivesse em aten\u00e7\u00e3o como as pessoas, que s\u00e3o um produto do seu g\u00e9nero, ra\u00e7a, sexualidade, experi\u00eancia pol\u00edtico-social e por a\u00ed segue, se comportam em determinados contextos, evitando estere\u00f3tipos e terraplanagens de individualidade.<\/p>\n<p>Sejamos claros: o que efetivamente se quer esconder por debaixo deste tapete \u00e9 a imparidade de acesso de mulheres \u00e0s esferas de poder e decis\u00e3o, quer na vida p\u00fablica, quer nas empresas privadas.<\/p>\n<p>E esta \u00e9 que \u00e9 a verdadeira vantagem do lan\u00e7amento do debate.<\/p>\n<p>H\u00e1 que perceber que considerar estes indicadores de g\u00e9nero no design de medidas anticorrup\u00e7\u00e3o \u00e9 uma aposta sempre ganha, desde logo porque promotora, de <em>per si<\/em>, da igualdade entre sexos no acesso \u00e0s esferas de poder. A corrup\u00e7\u00e3o convive muito bem com teias de amiguismo e pactos ao estilo <em>omert\u00e0<\/em>, ainda alheios ao estilo feminino. Aproveitemos, assim, esta certa inexperi\u00eancia feminina dos palcos de poder, para obter proventos nesta batalha exigente.<\/p>\n<p><strong>A inclus\u00e3o de mais mulheres nos centros de poder e f\u00f3runs de participa\u00e7\u00e3o p\u00fablica deve ser baseada na exist\u00eancia e efetividade dos seus direitos legais, nomeadamente de cidadania e n\u00e3o porque se indicia qualquer especial e diferenciadora caracter\u00edstica de g\u00e9nero.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o me identifico como uma correligion\u00e1ria de Ana de Castro Os\u00f3rio, que teve m\u00e9rito excecional, mas no seu tempo. N\u00e3o me revejo na t\u00e9cnica de \u201cquotas\u201d, que considero disruptiva porque inventada por homens em busca de aprova\u00e7\u00e3o e menos como uma express\u00e3o de vontade consistente de envolver as mulheres nas decis\u00f5es de poder. O acesso a lugares de lideran\u00e7a, atrav\u00e9s deste sistema, sequestra de certo modo a mulher, quando e se confrontada com interesses ileg\u00edtimos. O nosso estado civilizacional n\u00e3o nos permite ainda, contudo, fazer diferente.<\/p>\n<p>Os sistemas representativos vivem de pessoas, com interesses no alcance de objetivos, com opini\u00f5es que as guiam de modo coerente com uma vis\u00e3o, valores e prioridades e com perspetivas, relacionadas com o tipo de experi\u00eancias sociais, individualmente consideradas. Que homens e mulheres ocupam diferentes esteios nas esferas de delibera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e p\u00fablica \u00e9 ponto assente.<\/p>\n<p>E ser\u00e1 da mitiga\u00e7\u00e3o dessa desigualdade que, tamb\u00e9m na luta contra a corrup\u00e7\u00e3o, se alcan\u00e7ar\u00e3o com certeza, melhores resultados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rute Serra, Expresso online (004 31\/01\/2019)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,282],"tags":[],"class_list":["post-43578","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-expresso-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/43578","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=43578"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/43578\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":43600,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/43578\/revisions\/43600"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=43578"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=43578"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=43578"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}