{"id":43446,"date":"2019-08-15T09:45:59","date_gmt":"2019-08-15T09:45:59","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=43446"},"modified":"2019-08-15T09:46:05","modified_gmt":"2019-08-15T09:46:05","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-46-2-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=43446","title":{"rendered":"Puxar ou empurrar? A dist\u00e2ncia exata da decis\u00e3o \u00e9tica"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong data-rich-text-format-boundary=\"true\">Antonio Carlos Hencsey, Revista Inspire-c<\/strong><\/span> (Edi\u00e7\u00e3o 11 - Ago\/Set. de 2019)<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/revistainspirec.com.br\/puxar-ou-empurrar-a-distancia-exata-da-decisao-etica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/08\/Dilema-do-bonde-INSPIRE-C.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2032\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<div>\n<p>A l\u00f3gica n\u00e3o era a utilidade? A moral n\u00e3o dizia que minimizar o sofrimento era o certo a se fazer?<br \/>\nO que acontece, ent\u00e3o?<\/p>\n<p>...<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p style=\"text-align: left;\"><!--more--><\/p>\n<p>Voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 mais o leitor deste texto. A partir deste momento foi promovido a condutor de um bonde que ao descer uma ladeira perde os freios e vem ganhando velocidade a cada metro que avan\u00e7a. N\u00e3o adianta tentar parar o bonde, pois n\u00e3o conseguir\u00e1 faz\u00ea-lo. Est\u00e1 completamente sem controle e a sua \u00fanica op\u00e7\u00e3o \u00e9 aguardar para que ele freie sozinho ao chegar no final de sua linha. Ocorre que justamente ao t\u00e9rmino deste caminho existem 5 trabalhadores que est\u00e3o desavisadamente fazendo o seu trabalho sem ter ideia do perigo que os aguarda. Com a velocidade que o bonde vem alcan\u00e7ando voc\u00ea fatalmente matar\u00e1 os 5 trabalhadores antes que consiga parar o ve\u00edculo, fato sobre o qual a princ\u00edpio n\u00e3o tem controle nenhum. Note que eu disse \u00e0 princ\u00edpio, pois a poucos metros dos trabalhadores voc\u00ea percebe que existe um desvio. Uma possibilidade de mudar a rota do bonde com o movimento de uma alavanca, levando-o a um caminho alternativo salvando a vida dos cinco trabalhadores, por\u00e9m matando um trabalhador que estava nesta rota fazendo seu servi\u00e7o. Qual caminho voc\u00ea escolheria? Seguiria a trilha original do bonde matando as cinco pessoas ou desviaria para o caminho secund\u00e1rio matando uma?<\/p>\n<p>Esse famoso dilema \u00e9tico foi proposto neste modelo por Philipa Foot em 1967, tem como objetivo avaliar e desafiar a \u00f3tica utilitarista da moral e assim v\u00eam sendo discutido ao longo dos anos em cursos de \u00e9tica e filosofia. O que parece mais correto para voc\u00ea, leitor, matar uma \u00fanica pessoa ou cinco e porque essa decis\u00e3o deve ser tomada?<\/p>\n<p>Quando aplico esse dilema em salas de aula ou palestras raros s\u00e3o os casos onde pessoas escolhem manter o caminho original do bonde. \u00c9 quase absoluto o n\u00famero de respondentes que opta por mexer a alavanca e mudar a rota do ve\u00edculo matando uma \u00fanica pessoa ao inv\u00e9s das cinco originais. E da mesma forma \u00e9 integral a motiva\u00e7\u00e3o para essa escolha: a quest\u00e3o num\u00e9rica. A l\u00f3gica utilitarista de salvar um maior n\u00famero de pessoas, de impactar um menor n\u00famero de fam\u00edlias e de trazer menos sofrimento \u00e9 de longe o argumento mais apresentado em todas as sess\u00f5es onde aplico esse exerc\u00edcio.<\/p>\n<p>Agora gostaria que voc\u00ea aposentasse o seu bon\u00e9 de condutor de bonde e imaginasse que est\u00e1 aproveitando um belo momento em uma cidade repleta de lindas montanhas. Como turista, est\u00e1 sobre uma ponte que se posiciona acima de uma linha f\u00e9rrea e voc\u00ea olha para as belas eleva\u00e7\u00f5es onde v\u00ea os carros de um bonde subindo lentamente. Subitamente o \u00faltimo carro do bonde se solta, vazio vem descendo a montanha sem ningu\u00e9m que pudesse control\u00e1-lo. Voc\u00ea percebe que ele vai ganhando velocidade conforme ganha a descida e curioso olha para onde esse caminho vai dar, virando-se para o outro lado da ponte. Neste momento percebe algo assustador. O bonde em alta velocidade passar\u00e1 por baixo da ponte em que voc\u00ea est\u00e1 e atropelar\u00e1 cinco trabalhadores que est\u00e3o distantes no final da linha. A trag\u00e9dia parece certa, mas de repente voc\u00ea percebe um indiv\u00edduo de grande massa corp\u00f3rea parado ao seu lado observando a mesma cena. Rapidamente voc\u00ea chega a uma conclus\u00e3o, e nesse momento voc\u00ea precisa acreditar no que eu digo sem nenhuma ressalva: Voc\u00ea percebe que pode emburrar o cidad\u00e3o corpulento da ponte e ele certamente cair\u00e1 no ponto certo do trilho para frear o bonde desgovernado, acabando com a amea\u00e7a iminente e salvando a vida de cinco trabalhadores. Antes que voc\u00ea pergunte, j\u00e1 respondo: Sim, o homem que voc\u00ea empurrou morrer\u00e1 para salvar a vida dos cinco profissionais da ferrovia. \u00c9 a morte de um para salvar a vida de cinco.<\/p>\n<p>Ao trazer essa quest\u00e3o para a sala de aula, treinamentos e palestras o quadro se inverte. Raras s\u00e3o as pessoas que erguem suas m\u00e3os e dizem que optariam por empurrar uma pessoa da ponte matando tirando uma vida ao inv\u00e9s de cinco. A quest\u00e3o que segue \u00e9: Qual a diferen\u00e7a entre os dois casos? Por que em uma situa\u00e7\u00e3o ir para uma trilha secund\u00e1ria mantado uma pessoa ao inv\u00e9s de um grupo maior parece a melhor op\u00e7\u00e3o enquanto no segundo caso empurrar a pessoa da ponte tirando uma vida para salvar cinco parece t\u00e3o errado? A l\u00f3gica n\u00e3o era a utilidade? A moral n\u00e3o dizia que minimizar sofrimento era o certo a se fazer? O que acontece ent\u00e3o?<\/p>\n<p>Quando questiono excessivamente as pessoas com as quais converso sobre esse dilema chega um momento onde elas concluem que de forma geral ambos os cen\u00e1rios s\u00e3o similares. O argumento de que o homem empurrado da ponte n\u00e3o queria morrer para salvar a vida de outros se equivale ao homem que trabalhava solitariamente nos trilhos que tamb\u00e9m n\u00e3o desejou \u201csalvar a p\u00e1tria\u201d. A vis\u00e3o de que no primeiro caso o \u201csalvador de vidas\u201d n\u00e3o tinha sa\u00edda e precisava virar a alavanca por estar diretamente envolvido no cen\u00e1rio enquanto no segundo ele era um mero expectador tamb\u00e9m \u00e9 refutada, pois n\u00e3o mudar o bonde de caminho tamb\u00e9m era uma op\u00e7\u00e3o, e mesmo n\u00e3o havendo a inten\u00e7\u00e3o de matar, essa \u00e9 uma consequ\u00eancia direta do comportamento emitido. Por fim, existe o argumento de que empurrar algu\u00e9m da ponte \u00e9 errado, tem dolo, torna o sujeito respons\u00e1vel pelo homic\u00eddio, enquanto no outro caso n\u00e3o h\u00e1 ilicitude, pelo menos n\u00e3o t\u00e3o grave uma vez que como condutor do bonde foi preciso tomar uma decis\u00e3o e assim, virar a alavanca \u00e9 o certo a se fazer. \u00c9 a\u00ed que vemos um ponto interessante e a riqueza deste conflito, pois na primeira vers\u00e3o do dilema era salvar cinco pessoas em detrimento de uma que fazia a a\u00e7\u00e3o moralmente correta, somente isso, algo que parece n\u00e3o fazer mais tanto sentido agora para os respondentes.<\/p>\n<p>Sob a \u00f3tica de muitas das discuss\u00f5es filos\u00f3ficas que presenciei, ao final deste momento de argumenta\u00e7\u00e3o vemos um questionamento ao utilitarismo como tratado no senso comum, resultando na conclus\u00e3o proposta por alguns fil\u00f3sofos, inclusive utilitaristas, de que existem coisas que n\u00e3o podem necessariamente ser colocadas friamente em uma balan\u00e7a, como o valor de uma vida, por exemplo. A l\u00f3gica do maior bem para o maior n\u00famero de pessoas pode ser aplicado em determinados contextos, mas nem sempre a decis\u00e3o, se aplicada cegamente trar\u00e1 a melhor op\u00e7\u00e3o. Vejamos como exemplo o coliseu de Roma, onde pessoas eram colocadas para morrer de forma cruel a fim de alimentar a pol\u00edtica de p\u00e3o e circo. Era um evento onde a morte de um trazia entretenimento para centenas, talvez milhares, mas isso n\u00e3o faz da a\u00e7\u00e3o algo correto.<\/p>\n<p>E \u00e9 nesse ponto que um vi\u00e9s criminol\u00f3gico da moralidade pode contribuir com a filosofia. Complementando a principal preocupa\u00e7\u00e3o com as consequ\u00eancias \u00e9ticas e morais dos atos, a criminologia trabalha esse mesmo dilema do bonde a partir da forma como o indiv\u00edduo percebe os dois cen\u00e1rios e como constr\u00f3i racional e emocionalmente uma l\u00f3gica que chega, normalmente aos mesmos comportamentos apresentados na aplica\u00e7\u00e3o de leitura filos\u00f3fica, por\u00e9m por diferentes motivos.<\/p>\n<p>Calma, eu explico. Na criminologia avaliamos o cen\u00e1rio a partir das escolhas feitas entre uma maioria que prefere virar a alavanca do bonde e ao mesmo tempo mostra resist\u00eancia para empurrar a pessoa da ponte. Quais as causas desta diferen\u00e7a perceptiva e como se aplicam em diferentes contextos?<\/p>\n<p>A chave est\u00e1 no distanciamento oferecido por uma ferramenta, aqui chamada de alavanca a qual permite que o ser humano perceba, tanto biologicamente como psicologicamente a primeira vers\u00e3o do dilema como menos errada ou agressiva do que a segunda. Ao utilizar um recurso mec\u00e2nico e, a partir deste, matar uma pessoa temos uma barreira entre o indiv\u00edduo e o homic\u00eddio, algo que n\u00e3o ocorre ao empurrar algu\u00e9m diretamente da ponte. Essa proximidade da ilicitude, colocar as m\u00e3os no futuro morto impacta diretamente na auto percep\u00e7\u00e3o de honestidade do ser humano e, desta forma impede que haja um processo n\u00e3o consciente de racionaliza\u00e7\u00e3o que permite uma justificativa interna de que o ato foi necess\u00e1rio ou pelo menos n\u00e3o t\u00e3o errado na determinada circunst\u00e2ncia. A riqueza desse dilema e seus desdobramentos criminol\u00f3gicos e psicol\u00f3gicos \u00e9 que atrav\u00e9s desse ponto podemos perceber uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es do dia a dia que s\u00e3o decididas partindo deste vi\u00e9s. Na minha pr\u00e1tica profissional j\u00e1 vi casos onde executivos, atrav\u00e9s de altera\u00e7\u00f5es indevidas de n\u00fameros em planilhas chegaram em resultados fant\u00e1sticos, e decorrente desta a\u00e7\u00e3o il\u00edcita, garantiram seus b\u00f4nus muitas vezes milion\u00e1rios, por\u00e9m essas mesmas pessoas mostram repulsa por atos apropria\u00e7\u00e3o indevida direta de dinheiro. Isso significa que ver os n\u00fameros de sua conta banc\u00e1ria aumentarem ilicitamente atrav\u00e9s de um teclado, uma tela e uma planilha excel \u00e9 mais f\u00e1cil do que abrir uma gaveta, cofre ou qualquer outro local, colocar a m\u00e3o em um dinheiro que n\u00e3o lhe pertence, coloc\u00e1-lo no bolso e ir embora. Mesmo que essa quantia em papel moeda seja menor do que a recebida de forma burocr\u00e1tica.<\/p>\n<p>O mesmo pode se dizer sobre quest\u00f5es de Estado. Ao longo da hist\u00f3ria, muitos l\u00edderes de na\u00e7\u00f5es que ao darem um sinal verde permitiram a explos\u00e3o de uma bomba ou ataques extremamente danosos matando centenas ou milhares de civis n\u00e3o seriam capazes de, pessoalmente, apontar uma arma a um indiv\u00edduo desarmado e execut\u00e1-lo. O bot\u00e3o que libera a bomba ou permite a transmiss\u00e3o de uma autoriza\u00e7\u00e3o para a destrui\u00e7\u00e3o em massa distancia o individuo de sua responsabilidade e com isso permite que seu comando seja dado sem que ele pr\u00f3prio se sinta o carrasco.<\/p>\n<p>E o que pensar ent\u00e3o sobre a nossa sociedade brasileira, muitas vezes t\u00e3o injustamente descrita como uma das mais corruptas ou anti\u00e9ticas do mundo. \u201cInjustamente?!\u201d pode estar dizendo algum leitor mais impulsivo. Se analisarmos pela \u00f3tica do dilema do bonde sim. Logo vemos que n\u00e3o somos t\u00e3o diferentes assim de outras culturas e pa\u00edses vistos como exemplos de comportamento honesto. Enquanto sujamos nossas m\u00e3os com o crime organizado, corrup\u00e7\u00e3o entre outros crimes que nos desabonam, na\u00e7\u00f5es vistas como \u00e9ticas lavam o nosso dinheiro e permitem direta e intencionalmente que toda a roda da ilicitude brasileira ocorra. E tudo isso conscientemente. Sem surpresas. A diferen\u00e7a \u00e9 que n\u00f3s empurramos o homem pesado da ponte enquanto eles viram a alavanca. Talvez nesses pa\u00edses um celular moderno perdido em ambiente p\u00fablico ser\u00e1 devolvido, ou as pessoas possam andar tranquilas e sozinhas de madrugada, algo que n\u00e3o podemos em todos os lugares por aqui, mas pensem do ponto de vista do dilema do bonde, ser\u00e1 que esse distanciamento da agress\u00e3o e viol\u00eancia por um vi\u00e9s burocr\u00e1tico e de colarinho branco n\u00e3o nos d\u00e1 uma impress\u00e3o errada sobre a \u00e9tica e moralidade? Isso nos mostra que n\u00e3o somos piores e eles n\u00e3o s\u00e3o melhores. Essa leitura nos mostra que as a\u00e7\u00f5es pr\u00f3ximas da destrutividade nos faz sentir mais violentamente os efeitos do impacto do bonde em que estamos, mas n\u00e3o quer dizer exatamente que as a\u00e7\u00f5es dos demais, inicialmente menos agressivas n\u00e3o tenham consequ\u00eancias igualmente danosas.<\/p>\n<p>Sabe, acredito que o certo e o errado no comportamento humano \u00e9 algo complexo, mas o bacana de refletirmos sobre \u00e9tica, moral, comportamento \u00e9 a riqueza que este conte\u00fado possui. Sem caixas, sem pr\u00e9-julgamentos ou verdades absolutas \u00e9 necess\u00e1rio refletir e \u00e0s vezes por que n\u00e3o se divertir com o tema buscando diferentes vieses sobre vereditos que nos parecem certezas. Essa para mim \u00e9 uma das grandes contribui\u00e7\u00f5es do dilema do bonde, uma forma de desafiar percep\u00e7\u00f5es e jogar com d\u00favidas e fatos constitu\u00eddos mostrando que agir da forma certa \u00e0s vezes pode ser menos certeiro do que se imagina.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antonio Carlos Hencsey, Revista Inspire-c (Edi\u00e7\u00e3o 11 &#8211; Ago\/Set. de 2019) A l\u00f3gica n\u00e3o era a utilidade? A moral n\u00e3o dizia que minimizar o sofrimento era o certo a se fazer? 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