{"id":43199,"date":"2019-06-22T13:57:16","date_gmt":"2019-06-22T13:57:16","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=43199"},"modified":"2019-06-22T13:57:20","modified_gmt":"2019-06-22T13:57:20","slug":"ai-que-eu-caio-segurem-me-que-eu-caio-2-2-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-42-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=43199","title":{"rendered":"Portugal desigual e a hipocrisia pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left\"><span style=\"color: #d8070f\"><strong>\u00d3scar Afonso<\/strong><\/span>, Dinheiro Vivo (JN \/ DN)<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><a href=\"https:\/\/www.dinheirovivo.pt\/opiniao\/portugal-desigual-e-a-hipocrisia-politica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-19\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2019\/06\/Cr\u00f3nica-26_OA_19Junho2019.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2032\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<div>\n<p>Em Portugal, a distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica da atividade econ\u00f3mica, social e cultural entre o litoral e o interior \u00e9 profundamente assim\u00e9trica e, por consequ\u00eancia, o mesmo acontece com a distribui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. Porque as pessoas v\u00e3o para onde h\u00e1 \u201ceconomia\u201d, a emigra\u00e7\u00e3o para os centros urbanos do litoral tem sido a tend\u00eancia hist\u00f3rica acentuada pela globaliza\u00e7\u00e3o e pela (nossa) democracia.<\/p>\n<p>...<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p style=\"text-align: left\"><!--more--><\/p>\n<p>Em Portugal, a distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica da atividade econ\u00f3mica, social e cultural entre o litoral e o interior \u00e9 profundamente assim\u00e9trica e, por consequ\u00eancia, o mesmo acontece com a distribui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. Porque as pessoas v\u00e3o para onde h\u00e1 \u201ceconomia\u201d, a emigra\u00e7\u00e3o para os centros urbanos do litoral tem sido a tend\u00eancia hist\u00f3rica acentuada pela globaliza\u00e7\u00e3o e pela (nossa) democracia.<\/p>\n<p>Com a globaliza\u00e7\u00e3o e o aumento da concorr\u00eancia, aumentou a press\u00e3o competitiva sobre as empresas pelo que, sem ajuda p\u00fablica, passaram a concentrar-se no litoral. A tend\u00eancia agravou-se com a ades\u00e3o \u00e0 EFTA nos anos 60 e a ades\u00e3o \u00e0 CEE\/UE nos anos 80 do s\u00e9culo passado. O refor\u00e7o da diverg\u00eancia entre regi\u00f5es foi sempre potenciado pelo maior investimento p\u00fablico em infra-estruturas, servi\u00e7os e cria\u00e7\u00e3o de emprego no litoral, \u201conde h\u00e1 votantes\u201d. Em suma, as migra\u00e7\u00f5es que t\u00eam assolado o interior \u00e0 procura de melhores condi\u00e7\u00f5es de empregabilidade no litoral (e no estrangeiro) conduziram ao progressivo esvaziamento demogr\u00e1fico e empresarial.<\/p>\n<p>O que se espera dos governos \u00e9 que sejam capazes de corrigir as falhas de mercado pelo que, a este n\u00edvel, devem intervir no sentido de promover a atividade econ\u00f3mica no interior. Se assim n\u00e3o for, como n\u00e3o tem sido, entra-se, como tem acontecido, num ciclo vicioso. A \u201ceconomia\u201d foi deixando de ser suficiente para melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida, passando a faltar empregos e equipamentos b\u00e1sicos. \u00c0 medida que a popula\u00e7\u00e3o do interior foi diminuindo, menos \u201ceconomia\u201d foi sendo precisa e muitas empresas foram fechando: o c\u00edrculo vicioso da pobreza e da desertifica\u00e7\u00e3o foi-se auto-alimentando.<\/p>\n<p>Portanto, a dicotomia litoral\/interior existe porque permanece uma desigualdade de oportunidades, que, ironia das ironias, deve ser a base de combate da democracia. Desigualdade desde logo pela inferior qualidade dos servi\u00e7os fornecidos pelo Estado nas \u00e1reas da cultura, educa\u00e7\u00e3o, justi\u00e7a e sa\u00fade. Permite-se, sem pudor, que a elite dirigente e t\u00e9cnica de um sem n\u00famero de organismos com fun\u00e7\u00f5es de regula\u00e7\u00e3o, controlo e fiscaliza\u00e7\u00e3o, cuja atividade produtiva se concentra no interior, desempenhe as suas fun\u00e7\u00f5es no litoral. Refira-se a t\u00edtulo de exemplo a administra\u00e7\u00e3o e todos os servi\u00e7os da EDP, Iberdrola e outras. Consideram as barragens como \u201cinvestimentos de desenvolvimento local\u201d, mas apenas criam o posto de trabalho do vigilante durante a sua fase de explora\u00e7\u00e3o, pois o \u201creal\u201d emprego concentra-se no litoral. Ali\u00e1s, o que o Estado tem feito com estes empreendimentos \u00e9 nacionalizar, ao abrigo do interesse nacional, os meios de produ\u00e7\u00e3o de milhares de an\u00f3nimos que tinham a\u00ed a sua independ\u00eancia econ\u00f3mica e simultaneamente garantida a liberdade, para depois concessionar a uma entidade privada a sua explora\u00e7\u00e3o, cujos detentores de capital jamais contribu\u00edram para a melhoria da massa cr\u00edtica social desses lugares.<\/p>\n<p>Resumindo, o investimento que o Estado tem promovido no interior, em vez de criar efeito de replica\u00e7\u00e3o\/imita\u00e7\u00e3o, concentra ainda mais o emprego e a riqueza no litoral. H\u00e1 apenas investimentos pontuais, intempestivos, sem qualquer possibilidade de adensamento do tecido econ\u00f3mico e social. Investe no turismo, mas corta servi\u00e7os de sa\u00fade. Investe na educa\u00e7\u00e3o, mas cria organismos com capacidade de absor\u00e7\u00e3o de recursos humanos de elevada forma\u00e7\u00e3o no litoral. Despeja milh\u00f5es no combate aos inc\u00eandios rurais, mas os benefici\u00e1rios est\u00e3o no litoral. A hipocrisia pol\u00edtica \u00e9 tanta que insinua para a TV que tem muita pena do interior, mas ao mesmo tempo encerra servi\u00e7os. \u00c9 isto que os pol\u00edticos da democracia, encarcerados nos seus castelos do mundo lisboeta, t\u00eam feito pelo interior. Dizem que lutam por um pa\u00eds mais igual, mas defendem as desigualdades. Dizem que promovem a igualdade de oportunidades, mas nunca, jamais, querem isso. O que promovem \u00e9 a sua \u201cvidinha\u2019 junto do Estado, toleram o litoral dos 75% dos votos e despreza o interior dos restantes 25%.<\/p>\n<p>Sonsamente, dizem que agora sim, agora desejam promover a coes\u00e3o e o desenvolvimento social e territorial. Se n\u00e3o houvesse hipocrisia, o governo concederia de imediato incentivos adequado que seriam certamente menores que o despendido com a recente ajuda \u00e0 banca! O interior tem recursos mais ou menos abundantes que podem ser aproveitados e valorizados, desde o patrim\u00f3nio cultural (monumental e imaterial) aos espa\u00e7os naturais, desde produtos agr\u00edcolas singulares aos recursos do subsolo. Em algumas industrias tem at\u00e9 tradi\u00e7\u00e3o. \u00c9 assim que se deve pensar o desenvolvimento.<\/p>\n<p>Mas o interior deve tamb\u00e9m beneficiar <strong>d<\/strong>o princ\u00edpio da solidariedade interterritorial, como Portugal como um todo (e o litoral, em particular) tem beneficiado dos pa\u00edses mais ricos da UE. Isso faz-se, por exemplo, invertendo a l\u00f3gica de desqualifica\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os e infra-estruturas existentes. Faz-se tamb\u00e9m por via do refor\u00e7o de servi\u00e7os e da atratividade de alguns centros urbanos do interior, estrategicamente posicionados. Faz-se, ainda, olhando para os recursos e capacidades end\u00f3genas e pensando o respetivo desenvolvimento a partir do aproveitamento desses recursos e dessas compet\u00eancias.<\/p>\n<p>N\u00e3o existe, de facto, uma pol\u00edtica integrada de igualdade de oportunidades e de aumento de competitividade do territ\u00f3rio do interior, para que os recursos dos residentes lhes permitam aceder aos bens e servi\u00e7os que a sociedade fornece. Resta a migra\u00e7\u00e3o que tem sido e continua a ser a sina de Transmontanos, Beir\u00f5es, Alentejanos e Minhotos.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, Dinheiro Vivo (JN \/ DN) Em Portugal, a distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica da atividade econ\u00f3mica, social e cultural entre o litoral e o interior \u00e9 profundamente assim\u00e9trica e, por consequ\u00eancia, o mesmo acontece com a distribui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o. 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