{"id":42667,"date":"2019-03-04T22:09:51","date_gmt":"2019-03-04T22:09:51","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=42667"},"modified":"2019-03-04T22:11:36","modified_gmt":"2019-03-04T22:11:36","slug":"ainda-sobre-a-caixa-geral-de-depositos-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=42667","title":{"rendered":"Meritocracia: evolu\u00e7\u00e3o e actualidade"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left\"><span style=\"color: #d8070f\"><strong>\u00d3scar Afonso, P\u00fablico online<\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><a href=\"https:\/\/www.publico.pt\/2019\/03\/04\/economia\/opiniao\/meritocracia-evolucao-actualidade-1864088#gs.9u66Bion\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-19\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left\"><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-admin\/upload.php?item=42662\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2032\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>As pr\u00e1ticas de gest\u00e3o meritocr\u00e1ticas s\u00e3o fundamentais para o desenvolvimento econ\u00f3mico em qualquer pa\u00eds, mas, em Portugal, chocam claramente com tra\u00e7os at\u00e1vicos de mentalidade.<br \/>\n<!--more--><\/p>\n<p>O termo Meritocracia ter\u00e1 sido usado pela pela primeira vez em 1958, no livro <em>The Rise of Meritocracy<\/em>, de Michael Young, onde se atribu\u00eda uma import\u00e2ncia excessiva aos testes e m\u00e9todos quantitativos, como pr\u00e1tica habitual para medir o talento e escolher l\u00edderes, sendo visto como um desvio tecnocr\u00e1tico e, portanto, assumindo um sentido pejorativo.<\/p>\n<p>O conceito evoluiu e assumiu valores modernos, com a obra <em>The Managerial Revolution: What is Happening in the World<\/em>, publicada em 1941, pelo fil\u00f3sofo e pol\u00edtico americano James Burnham, que acreditava que futuramente a sociedade seria liderada por t\u00e9cnicos e especialistas, em detrimento dos pol\u00edticos ou membros instalados e auto-denominados donos do sistema. Os propriet\u00e1rios das empresas tenderiam a afastar-se da sua gest\u00e3o, cedendo os cargos de lideran\u00e7a a pessoal formado e altamente competente, e no Estado aconteceria o mesmo, com os governos a serem constitu\u00eddos por pessoas com a forma\u00e7\u00e3o adequada e, portanto, capazes de eficazmente desempenhar o cargo. Esses quadros especializados seriam a nova classe dirigente no mundo desenvolvido, demasiado complexo para ser gerido por elementos provenientes de elites privilegidas com compet\u00eancia duvidosa, geralmente mesquinhas e manipuladoras.<\/p>\n<p>No entanto, verificamos que, em alguns pa\u00edses, a conduta e comportamentos assentes no m\u00e9rito s\u00e3o muito raramente postos em pr\u00e1tica, nomeadamente no seio do Estado, atribuindo-se raz\u00f5es hist\u00f3ricas e de \u00edndole cultural para o facto de, tanto em Portugal como noutros pa\u00edses da sul da europa, haver proeminentes m\u00e9todos clientelares e \u201camiguistas\u201d, que asseguram a distribui\u00e7\u00e3o da riqueza \u201cpara cima\u201d (\u00e0 elite) e que, naturalmente<strong>, <\/strong>se op\u00f5e a verdadeiras pr\u00e1ticas meritocr\u00e1ticas, como as que se observam em pa\u00edses n\u00f3rdicos. Aqui, nestes pa\u00edses, de resto em linha com o seu n\u00edvel de desenvolvimento, existem condutas e atitudes empresariais que promovem os indiv\u00edduos em fun\u00e7\u00e3o dos seus m\u00e9ritos, sejam eles a aptid\u00e3o, as compet\u00eancias ou a intelig\u00eancia, e n\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o da sua origem social ou de rela\u00e7\u00f5es individuais, como s\u00e3o os casos de nepotismo, t\u00e3o em voga na recente remodela\u00e7\u00e3o governativa, que claramente favoreceu parentes e amigos pr\u00f3ximos em detrimento de outras pessoas qualificadas.<\/p>\n<p>O \u201cdespedimento\u201d da merit\u00edssima ex-Procuradora Geral da Rep\u00fablica e a referida remodela\u00e7\u00e3o, ambos os casos amplamente divulgada atrav\u00e9s dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social, n\u00e3o obstante colocarem em causa os princ\u00edpios de \u00c9tica Republicana, v\u00eam corroborar o que se passa em Portugal no que respeita \u00e0 meritocracia. Assim, pertinente e muito atual continua a ser a discuss\u00e3o em torno do tema associado ao conceito de Meritocracia <em>versus<\/em> \u201cCunha\u201d, representativa do amiguismo, do <em>Job for the boys<\/em>, do clientelismo e de outros sin\u00f3nimos, todos eles indicativos do quanto \u00e9, ou pode ser, f\u00e1cil para determinadas \u201celites\u201d obter empregos (e promo\u00e7\u00f5es) ambicionados pela maioria da popula\u00e7\u00e3o. Essas \u201celites\u201d, desenvolvidas no interior de <em>lobbies<\/em> partid\u00e1rios ou de outros grupos de interesse organizados, entendem que deve ser assim por quest\u00f5es meramente consuetudin\u00e1rias e, como tal, \u00e9 um direito que lhes assiste, desconhecendo-se qual a racionalidade e l\u00f3gica impl\u00edcita. N\u00e3o s\u00e3o certamente os portugueses mais not\u00e1veis, pois n\u00e3o se lhes reconhece nenhum ilustre conhecimento acad\u00e9mico ou outro, mas s\u00e3o detentores do que verdadeiramente interessa para, em Portugal, aceder a certo tipo de lugares \u2013 a \u201cCunha\u201d.<\/p>\n<p>Por analogia, poderemos equiparar tal discuss\u00e3o \u00e0 lei da oferta e da procura, em que, face a necessidades ilimitadas (compar\u00e1veis aqui \u00e0 procura dos melhores empregos) e a recursos escassos (equiparados aqui \u00e0 raridade da oferta de empregos), o pre\u00e7o (representativo aqui do m\u00e9rito) deveria apresentar-se como o elemento diferenciador ou medidor que permitiria a desejada afeta\u00e7\u00e3o. Acontece que em Portugal est\u00e1 institucionalizado que n\u00e3o \u00e9 o pre\u00e7o (leia-se m\u00e9rito) que determina a afeta\u00e7\u00e3o de empregos e as promo\u00e7\u00f5es, mas sim a \u201cCunha\u201d, vulgarmente conhecida por fator \u201cC\u201d. Enquanto for assim, haver\u00e1 naturalmente apenas um prot\u00f3tipo de democracia pois a \u201cCunha\u201d, os sal\u00e1rios chorudos que todos pagamos, e o ludr\u00edbio de eleitores com promessas falsas de uma vida futura melhor direcionam\/condicionam o voto.<\/p>\n<p>Neste contexto, a popula\u00e7\u00e3o portuguesa em geral muito dificilmente ascender\u00e1 at\u00e9 \u00e0 prosperidade m\u00e9dia da Uni\u00e3o Europeia. De facto, dificilmente se consegue um emprego, a sua manuten\u00e7\u00e3o ou promo\u00e7\u00e3o por m\u00e9rito pr\u00f3prio, sendo, no entanto, tal situa\u00e7\u00e3o facilitada quando se tem amigos ou familiares bem posicionados ou se pertence a um grupo privilegiado.<\/p>\n<p>Como se verificou, a crise provocou desemprego, congelou carreiras, e fez com que jovens formados e altamente qualificados, n\u00e3o tendo oportunidades em Portugal. Foram (e continuam a ser) obrigados a emigrar. Rumam, racionalmente, para pa\u00edses cujas sociedades s\u00e3o mais meritocr\u00e1ticas. Efetivamente, com a multiplica\u00e7\u00e3o sem precedentes de licenciaturas e mestrados, a frustra\u00e7\u00e3o \u00e9 enorme quando se constata que a meritocracia como m\u00e9todo de sele\u00e7\u00e3o de recursos humanos \u00e9 quase inexistente.<\/p>\n<p>\u00c9 avassalador verificar como os mesmos nomes de fam\u00edlia aparecem repetidamente nos cargos p\u00fablicos, nas administra\u00e7\u00f5es e na lideran\u00e7a de grandes empresas \u2013 do qual o exemplo paradigm\u00e1tico \u00e9 a atual composi\u00e7\u00e3o do governo. Ali\u00e1s, \u00e9 do conhecimento p\u00fablico a exist\u00eancia de colaboradores que quase n\u00e3o contribuem em termos de trabalho \u2013 muitos seriam mais rent\u00e1veis fora do sistema \u2013 e, no entanto, s\u00e3o muito bem pagos. Poder-se-\u00e1 falar de uma forma de remunera\u00e7\u00e3o feita \u00e0 medida dos poderes familiares ou pol\u00edticos vigentes, havendo necessariamente uma delapida\u00e7\u00e3o injusta dos rendimentos que penaliza o resto da sociedade.<\/p>\n<p>As pr\u00e1ticas de gest\u00e3o meritocr\u00e1ticas s\u00e3o fundamentais para o desenvolvimento econ\u00f3mico em qualquer pa\u00eds, mas, em Portugal, chocam claramente com tra\u00e7os at\u00e1vicos de mentalidade. Existem estruturas mentais retr\u00f3gradas muito enraizadas que lideram organiza\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e empresas \u00e2ncora cruciais na promo\u00e7\u00e3o do crescimento econ\u00f3mico. O poder pol\u00edtico n\u00e3o atende aos interesses de todos e descaradamente s\u00e3o praticados atos abusivos que antes eram criticados em anteriores detentores do poder. O compadrio, a cria\u00e7\u00e3o de intermedi\u00e1rios improdutivos e de parasitas originados pelos partidos pol\u00edticos \u00e9, de facto, a regra, desprezando-se a meritocracia em favor de interesses da elite. Assiste-se a um desenrolar de enredos mesquinhos do amiguismo e compadrios, e at\u00e9 a manipula\u00e7\u00f5es e vingan\u00e7as que, numa altura de plena globaliza\u00e7\u00e3o, compromete a t\u00e3o necess\u00e1ria <em>Compliance<\/em> com as boas pr\u00e1ticas e, por arrastamento, o desenvolvimento econ\u00f3mico. Neste contexto, a corrup\u00e7\u00e3o acaba por ser generalizada, tendo aumentado com a (suposta) democracia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, P\u00fablico online, As pr\u00e1ticas de gest\u00e3o meritocr\u00e1ticas s\u00e3o fundamentais para o desenvolvimento econ\u00f3mico em qualquer pa\u00eds, mas, em Portugal, chocam claramente com tra\u00e7os at\u00e1vicos de mentalidade.<\/p>\n","protected":false},"author":63,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,136],"tags":[],"class_list":["post-42667","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-publico-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/42667","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/63"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=42667"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/42667\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":42669,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/42667\/revisions\/42669"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=42667"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=42667"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=42667"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}