{"id":35419,"date":"2018-03-29T22:41:14","date_gmt":"2018-03-29T22:41:14","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=35419"},"modified":"2018-03-29T22:41:14","modified_gmt":"2018-03-29T22:41:14","slug":"a-anormalidade-da-fraude-3-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=35419","title":{"rendered":"O Papa Francisco e a Economia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>\u00d3scar Afonso, Jornal i online<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"https:\/\/ionline.sapo.pt\/artigo\/605998\/o-papa-francisco-e-a-economia?seccao=Opiniao_i\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-19\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2018\/03\/JiE114.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2032\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a>\u201cA dignidade de cada pessoa humana e o bem comum s\u00e3o quest\u00f5es que deveriam estruturar toda a pol\u00edtica econ\u00f3mic\u201cA dignidade de cada pessoa humana e o bem comum s\u00e3o quest\u00f5es que deveriam estruturar toda a pol\u00edtica econ\u00f3mica\u201d<br \/>\n<!--more--><\/p>\n<article>Retomo nesta cr\u00f3nica o pensamento econ\u00f3mico do Papa Francisco, pela sua pertin\u00eancia e pela actualidade. O Papa Francisco, na Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica Evangelii Gaudium, aborda a necessidade da Economia contribuir para a dignidade da pessoa humana, apelando a valores como a solidariedade, a doa\u00e7\u00e3o, a equidade, a liberdade, a fraternidade e o amor ao pr\u00f3ximo. Faz uma an\u00e1lise contempor\u00e2nea, afirmando que o capitalismo, deixado \u00e0 sua sorte, sem autorreferencial, \u00e9 um sistema que se move em fun\u00e7\u00e3o dos seus pr\u00f3prios prop\u00f3sitos e que exclui muitos.<\/p>\n<p>Nos nossos dias tudo tende a ser medido em d\u00f3lares ou euros. Parece que pouco importa a vida das fam\u00edlias, os valores, as car\u00eancias alimentares e habitacionais, a pobreza em geral e a exclus\u00e3o social em particular. Na verdade, o economicismo parece ser o vetor estruturante da presente ideologia. A hist\u00f3ria do quotidiano \u00e9 ent\u00e3o narrada na perspetiva dos vencedores. Muitas colunas nos m\u00e9dia s\u00e3o preenchidas com a interpreta\u00e7\u00e3o que CEOs executivos, ministros, presidentes, parlamentares, porta-vozes e outros opinadores fazem sobre os grandes neg\u00f3cios. Neste contexto, quando o Papa Francisco fala do amor pelo dinheiro, revela que essa \u00e9, por excel\u00eancia, a forma de exist\u00eancia do capitalismo \u201cselvagem\u201d, que expurga os valores acima referidos. Valores que foram sendo dissolvidos pelo esp\u00edrito competitivo dos mercados e pela consequente valoriza\u00e7\u00e3o excessiva do dinheiro e do consumismo.<\/p>\n<p>Assim, a fim de assegurar o bem-estar e a felicidade dos homens, a economia deve servir as necessidades humanas. Algo que se foi perdendo porque as pessoas, especialmente as que formulam as pol\u00edticas, foram considerando que os mercados organizavam eficazmente toda a esfera econ\u00f3mica. O Papa Francisco pretende assim contribuir para uma \u201cleitura\u201d mais rigorosa da sociedade. A \u201cleitura\u201d da sociedade tendo em conta tamb\u00e9m, e sobretudo, quem n\u00e3o acede ao poder pol\u00edtico, quem n\u00e3o controla mercados, quem n\u00e3o financia campanhas eleitorais e quem n\u00e3o compra, nem pode comprar, favores.<\/p>\n<p>Nesse sentido, alerta para a necessidade de atender aos marginalizados, para quem viver \u00e9 sobreviver, e mostrar a parte da realidade que tende a esconder-se \u00e0 nossa consci\u00eancia. Mostrar, um pouco da hist\u00f3ria dos cidad\u00e3os vencidos, mas indispens\u00e1veis e que, infelizmente, s\u00e3o em grande n\u00famero. Mostrar que mesmo quando a economia vai bem muitos v\u00e3o mal.<\/p>\n<p>Como sabemos, a Economia \u00e9 a ci\u00eancia social que estuda a forma como as sociedades utilizam recursos escassos para produzir bens e servi\u00e7os com valor e como os distribuem pelos v\u00e1rios indiv\u00edduos. Tendo em conta, por um lado, a escassez de recursos e, assim, de bens e servi\u00e7os e, por outro lado, as necessidades ilimitadas, h\u00e1 que fazer escolhas, operando com efici\u00eancia. Nesse processo, nas economias ocidentais, o mercado resolve as tr\u00eas quest\u00f5es essenciais, atrav\u00e9s do funcionamento do mecanismo de determina\u00e7\u00e3o de pre\u00e7os. O que produzir \u00e9 determinado pelos \u2018votos monet\u00e1rios\u2019 dos consumidores, j\u00e1 que na prossecu\u00e7\u00e3o do lucro as empresas v\u00e3o produzir os bens e servi\u00e7os cuja receita supera os custos. Como produzir \u00e9 determinado pela concorr\u00eancia entre os produtores, que, para obterem lucros, recorrem aos m\u00e9todos de produ\u00e7\u00e3o mais eficientes. Para quem produzir depende, desde logo, do poder aquisitivo da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Usando as palavras do Papa Francisco, para que a Economia seja \u201ca arte de alcan\u00e7ar uma adequada administra\u00e7\u00e3o da casa comum, que \u00e9 o mundo inteiro\u201d, e porque \u201ca dignidade de cada pessoa humana e o bem comum s\u00e3o quest\u00f5es que deveriam estruturar toda a pol\u00edtica econ\u00f3mica\u201d, e como para tal a m\u00e3o invis\u00edvel do mercado n\u00e3o chega, o Estado deve promover a efici\u00eancia, fomentando a concorr\u00eancia, refreando tentativas de abuso de posi\u00e7\u00e3o dominante, combatendo as externalidades negativas e fornecendo bens p\u00fablicos. Al\u00e9m disso, porque mesmo maximizando a efici\u00eancia a equidade n\u00e3o fica garantida, o Estado deve redistribuir o rendimento entre grupos particulares, atrav\u00e9s de impostos, subs\u00eddios e transfer\u00eancias.<\/p>\n<p>De acordo com Papa Francisco a dignidade da pessoa humana requer que as desigualdades sociais sejam combatidas (equidade), sendo o maior desafio econ\u00f3mico do nosso tempo, n\u00e3o apenas para os pobres, mas para todo o mundo: \u201cA necessidade de resolver as causas estruturais da pobreza n\u00e3o pode esperar; e n\u00e3o apenas por uma exig\u00eancia pragm\u00e1tica de obter resultados e ordenar a sociedade, mas [...] para a curar [...]\u201d, porque \u201c[...] enquanto n\u00e3o forem [...] solucionados os problemas dos pobres, renunciando \u00e0 autonomia absoluta dos mercados e da especula\u00e7\u00e3o financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, n\u00e3o se resolver\u00e3o os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum. A desigualdade \u00e9 a raiz dos males sociais.\u201d<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata, pois, de erradicar o capitalismo, ou de rejeitar o dinheiro ou o lucro, trata-se de obter dinheiro e lucro com \u00e9tica e de rejeitar que a explora\u00e7\u00e3o esteja no centro do lucro. Efectivamente, \u201ca dignidade de cada pessoa humana e o bem comum s\u00e3o quest\u00f5es que deveriam estruturar toda a pol\u00edtica econ\u00f3mica\u201d, mas, em vez disso, assistiu-se \u00e0 liberta\u00e7\u00e3o dos mercados das peias reguladoras e disciplinadoras do Estado, e a sociedade humana transformou-se numa \u201csociedade de mercado\u201d: o mercado que devia existir para ajudar o homem a viver uma vida melhor, passou a ordenar, a dominar, a vida humana.<\/p>\n<p>Rejeita ent\u00e3o a ideia de que o crescimento econ\u00f3mico, promovido pelo mercado livre, consegue produzir maior equidade e inclus\u00e3o social no mundo. Porque a desigualdade crescente s\u00f3 pode decorrer da maior autonomia dos mercados e da especula\u00e7\u00e3o financeira, que negam a primazia do homem. Tem, pois, uma vis\u00e3o sombria da sobreviv\u00eancia global diante do capitalismo sem controle (selvagem), considerando que o ponto de inflex\u00e3o tem a ver com a rela\u00e7\u00e3o entre o mercado e a sociedade. Por isso, n\u00e3o apela para uma revis\u00e3o completa da economia, n\u00e3o fala de revolu\u00e7\u00e3o, mas denuncia a domina\u00e7\u00e3o das regras do mercado sobre os seres humanos.<\/p>\n<p>Usando palavras suas, h\u00e1 que \u201cn\u00e3o [...] confiar nas for\u00e7as cegas e na m\u00e3o invis\u00edvel do mercado\u201d, sendo que infelizmente \u201choje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. [...] O ser humano \u00e9 considerado [...] como um bem de consumo que se pode usar e depois lan\u00e7ar fora. [...] Uma das causas desta situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 na rela\u00e7\u00e3o [...] com o dinheiro, porque aceitamos [...] o seu dom\u00ednio [...]. A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, h\u00e1 uma crise antropol\u00f3gica profunda: a nega\u00e7\u00e3o da primazia do ser humano.\u201d A crise financeira \u00e9, pois, o produto da desregula\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m e, sobretudo, da subtra\u00e7\u00e3o do homem do centro da actividade econ\u00f3mica.<\/p>\n<p>E, num desej\u00e1vel novo contexto, aos governos deve exigir-se uma interven\u00e7\u00e3o conjunta, dado que, com a globaliza\u00e7\u00e3o, os actos econ\u00f3micos se difundem no mundo inteiro. Por isso \u201c[...] nenhum governo pode agir \u00e0 margem de uma responsabilidade comum\u201d, porque \u201cse realmente queremos alcan\u00e7ar uma economia global saud\u00e1vel, precisamos [...] de um modo mais eficiente de interac\u00e7\u00e3o que [...] assegure o bem-estar econ\u00f3mico a todos os pa\u00edses [...].\u201d<\/p>\n<p>Acresce que a solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 na caridade pessoal, porque \u201co crescimento equitativo [...] requer decis\u00f5es, programas, mecanismos e processos [...] orientados para uma melhor distribui\u00e7\u00e3o dos rendimentos, para a cria\u00e7\u00e3o de oportunidades de trabalho, para uma promo\u00e7\u00e3o integral dos pobres que supere o mero assistencialismo\u201d, exigindo-se \u201ctrabalho digno, instru\u00e7\u00e3o e cuidados de sa\u00fade para todos os cidad\u00e3os\u201d. A caridade deve, pois, ser \u201cprinc\u00edpio n\u00e3o s\u00f3 das microrrela\u00e7\u00f5es estabelecidas entre amigos, na fam\u00edlia, no pequeno grupo, mas tamb\u00e9m nas macrorrela\u00e7\u00f5es [...].\u201d<\/p>\n<p>E, para terminar, recorde-se que \u201cassim como o mandamento \u2018n\u00e3o matar\u2019 assegura o valor da vida humana, tamb\u00e9m hoje devemos dizer \u2018n\u00e3o a uma economia da exclus\u00e3o e da desigualdade social\u2019. Esta economia mata\u201d, desejando com isso afirmar \u201cn\u00e3o\u201d ao dinheiro que governa, em vez de servir. Efectivamente, antes de existir o dinheiro, j\u00e1 existia a vida, j\u00e1 existiam necessidades sociais, j\u00e1 existiam seres humanos.<\/p>\n<\/article>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00d3scar Afonso, Jornal i online \u201cA dignidade de cada pessoa humana e o bem comum s\u00e3o quest\u00f5es que deveriam estruturar toda a pol\u00edtica econ\u00f3mic\u201cA dignidade de cada pessoa humana e o bem comum s\u00e3o quest\u00f5es que deveriam estruturar toda a pol\u00edtica econ\u00f3mica\u201d<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,129],"tags":[],"class_list":["post-35419","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-jornal-i-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/35419","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=35419"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/35419\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":35420,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/35419\/revisions\/35420"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=35419"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=35419"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=35419"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}