{"id":34590,"date":"2017-12-09T18:57:32","date_gmt":"2017-12-09T18:57:32","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=34590"},"modified":"2017-12-09T18:57:32","modified_gmt":"2017-12-09T18:57:32","slug":"a-anormalidade-da-fraude-3-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=34590","title":{"rendered":"Corrup\u00e7\u00e3o em Portugal \u2013 \u201cuns\u201d e \u201cos outros\u201d"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Ant\u00f3nio Jo\u00e3o Maia, Jornal i online<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"https:\/\/ionline.sapo.pt\/artigo\/591629\/corrupcao-em-portugal-uns-e-os-outros-?seccao=Opiniao_i\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-19\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2017\/12\/Ji098.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2032\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a>Na realidade e bem vistas as coisas \u201cos outros\u201d n\u00e3o existem. Esses \u201coutros\u201d s\u00e3o afinal de contas todos e cada um de n\u00f3s!<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><!--more--><\/p>\n<article>9 de Dezembro \u00e9 o dia internacional contra a corrup\u00e7\u00e3o. Foi neste dia que, em 2003, uma grande parte dos pa\u00edses das Na\u00e7\u00f5es Unidas subscreveu a\u00a0<a href=\"https:\/\/www.unodc.org\/documents\/lpo-brazil\/Topics_corruption\/Publicacoes\/2007_UNCAC_Port.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u><strong>Conven\u00e7\u00e3o da ONU contra a corrup\u00e7\u00e3o<\/strong><\/u><\/a>\u00a0, por reconhecerem tratar-se de um problema transversal, que est\u00e1 presente em todas as sociedades, e cuja resolu\u00e7\u00e3o mais eficaz depende da exist\u00eancia de instrumentos de coopera\u00e7\u00e3o internacional.<\/p>\n<p>Em Portugal, como todos temos testemunhado, o problema da corrup\u00e7\u00e3o \u00e9-nos apresentado todos os dias sobretudo atrav\u00e9s da comunica\u00e7\u00e3o social. E \u00e9 fundamentalmente por todo o \u201cru\u00eddo\u201d medi\u00e1tico que se tem feito em torno dele que os portugueses revelam uma perce\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica sobre o que seja a corrup\u00e7\u00e3o no seu pa\u00eds \u2013 nos \u00faltimos anos, n\u00e3o tem havido praticamente dia nenhum em que o termo \u201ccorrup\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o tenha estado presente na primeira p\u00e1gina de um qualquer jornal ou na abertura de um telejornal.<\/p>\n<p>Os estudos que t\u00eam sido realizados,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.transparency.org\/research\/gcb\/gcb_2015_16\/0\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><u><strong>sobretudo pela Transpar\u00eancia Internacional<\/strong><\/u><\/a>, relativamente \u00e0 forma como o problema \u00e9 percecionado pela generalidade dos portugueses t\u00eam revelado que essa perce\u00e7\u00e3o se alicer\u00e7a fundamentalmente em torno de quatro ideias: (i) a corrup\u00e7\u00e3o est\u00e1 generalizada na sociedade, muito particularmente na classe pol\u00edtica; (ii) a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 um problema dos outros \u2013 quando se pergunta \u00e0s pessoas se participaram em pr\u00e1ticas de corrup\u00e7\u00e3o, muito poucas assumem essa situa\u00e7\u00e3o; (iii) a justi\u00e7a \u00e9 incapaz de punir estas pr\u00e1ticas \u2013 um claro, e sempre perverso, sentimento de impunidade; (iv) o problema vai aumentar no futuro.<\/p>\n<p>A perce\u00e7\u00e3o assim tra\u00e7ada, sobretudo as duas primeiras componente, coloca o problema numa perspetiva dual. Entre o \u201ceu\u201d e os \u201coutros\u201d. Se por um lado, em termos absolutos, os portugueses n\u00e3o t\u00eam d\u00favida de que tudo e todos s\u00e3o corruptos, por outro, ao assumirem n\u00e3o terem estado diretamente envolvidos em pr\u00e1ticas desta natureza, revelam n\u00e3o o conhecer no plano concreto. Por outras palavras, a corrup\u00e7\u00e3o ser\u00e1 uma realidade que todos reconhecem existir, embora poucos a conhe\u00e7am por experi\u00eancia direta.<\/p>\n<p>E esta dimens\u00e3o relacional acaba por estar presente no quotidiano das pessoas e por relativizar o modo como avaliam as a\u00e7\u00f5es que as rodeiam e como se posicionam perante o pr\u00f3prio problema.<\/p>\n<p>Vejamos, a t\u00edtulo de exemplo, esta situa\u00e7\u00e3o: todos n\u00f3s j\u00e1 assistimos, por certo, a relatos de situa\u00e7\u00f5es de algu\u00e9m que prescindiu da emiss\u00e3o da fatura relativa \u00e0 repara\u00e7\u00e3o do autom\u00f3vel ou \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o de obras em casa de modo a evitar o pagamento dos impostos associados. Se a situa\u00e7\u00e3o descrita tiver sido praticada por um desconhecido, provavelmente vai ser avaliada com um grau de censurabilidade mais forte \u2013 \u201cisto \u00e9 inadmiss\u00edvel\u201d; \u201cassim o pa\u00eds n\u00e3o vai para frente, n\u00e3o sa\u00edmos da cepa torta\u201d; \u201co imposto que aquele n\u00e3o pagou vai ter de ser suportado por todos, incluindo por mim\u201d. Todavia se a mesm\u00edssima situa\u00e7\u00e3o \u00e9 assumida por um familiar ou amigo chegado, a rea\u00e7\u00e3o tende a relativizar-se \u2013 \u201ctoda a gente faz isso\u201d; \u201cmuitos fazem bem pior\u201d; \u201cj\u00e1 nos levam muito no final do m\u00eas\u201d; \u201cisto \u00e9 para eles \u2013 referindo-se \u00e0 classe pol\u00edtica \u2013 se sustentarem e o povo fica sempre na mis\u00e9ria\u201d; \u201cse vamos a pagar os impostos todos, o que nos vai sobrar para viver?\u201d.<\/p>\n<p>Esta dicotomia acaba por ser uma forma de relativizar a quest\u00e3o, de autodesresponsabiliza\u00e7\u00e3o de cada um face a um problema que, n\u00e3o podemos esquecer, \u00e9 de todos. A corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 um problema que afeta toda a sociedade, quer pelos custos econ\u00f3micos que provoca, quer sobretudo pelos efeitos de corros\u00e3o dos \u00edndices de confian\u00e7a social sobre as institui\u00e7\u00f5es e sobre as pr\u00f3prias pessoas, umas relativamente \u00e0s outras.<\/p>\n<p>Mas esta dicotomia entre \u201cuns\u201d e \u201cos outros\u201d apresenta outro efeito porventura ainda mais perverso, que \u00e9 o de afastar inconscientemente as pessoas do envolvimento no esfor\u00e7o de controlo efetivo do problema. Quando as pessoas comodamente assumem que o problema \u00e9 dos outros, isso significa que elas pr\u00f3prias est\u00e3o corretas. Que t\u00eam de ser os outros a esfor\u00e7ar-se para mudar as suas atitudes e as suas pr\u00e1ticas. Que t\u00eam de ser os outros a dar esses passos, a fazer esse esfor\u00e7o, porque afinal s\u00e3o eles que est\u00e3o mal.<\/p>\n<p>Esta dicotomia deixa-nos assim a todos, ao mesmo tempo, no conforto do lado dos \u201cuns\u201d, do lado dos que est\u00e3o corretos, dos que nada t\u00eam de fazer para alterar o rumo da quest\u00e3o, porque afinal, bem vistas as coisas, o problema \u00e9 dos \u201coutros\u201d. \u00c9 para \u201cos outros\u201d e para as suas pr\u00e1ticas inadequadas que se atiram as culpas do estado em que nos encontramos.<\/p>\n<p>Mas na realidade e bem vistas as coisas \u201cos outros\u201d n\u00e3o existem. Esses \u201coutros\u201d s\u00e3o afinal de contas todos e cada um de n\u00f3s!<\/p>\n<p>Este modo de ser e de estar, esta atitude, que \u00e9 inconsciente, como se disse, acaba por ser uma esp\u00e9cie de armadilha que nos mant\u00e9m todos \u201camarrados\u201d a uma atitude tranquilamente passiva. E em si mesma, esta passividade \u00e9 perversa. Ela afasta-nos de contribuirmos ativamente para as din\u00e2micas da resolu\u00e7\u00e3o do problema em si mesmo.<\/p>\n<p>A corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 um problema que tem uma exist\u00eancia concreta em Portugal, como tem em todos os pa\u00edses do mundo, n\u00e3o tenhamos d\u00favidas. E a atitude de envolvimento das pessoas, dos cidad\u00e3os, \u00e9 reconhecidamente um fator de import\u00e2ncia determinante na concretiza\u00e7\u00e3o das medidas de controlo sobre o problema. Mais do que as institui\u00e7\u00f5es de controlo, cuja a\u00e7\u00e3o \u00e9 sem d\u00favida importante, tem de ser cada pessoa, cada cidad\u00e3o, o primeiro a dizer: \u201cN\u00e3o, n\u00e3o aceito nem compactuo com a fraude e a corrup\u00e7\u00e3o!\u201d; \u201cN\u00e3o, n\u00e3o sou indiferente ao que se passa \u00e0 minha volta e por isso denuncio as situa\u00e7\u00f5es de que tenho conhecimento ou contribuo ativamente para o seu esclarecimento!\u201d.<\/p>\n<p>A luta relativamente \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de atitude, de cidadania, e depende do envolvimento de todos e de cada um de n\u00f3s!<\/p>\n<\/article>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Jo\u00e3o Maia, Jornal i online Na realidade e bem vistas as coisas \u201cos outros\u201d n\u00e3o existem. 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