{"id":30339,"date":"2017-03-23T19:45:19","date_gmt":"2017-03-23T19:45:19","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=30339"},"modified":"2017-03-23T19:45:19","modified_gmt":"2017-03-23T19:45:19","slug":"corrupcao-em-africa-velhos-vicios-e-novas-oportunidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=30339","title":{"rendered":"Corrup\u00e7\u00e3o em \u00c1frica \u2013 velhos v\u00edcios  e novas oportunidades"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Nuno Guita, Vis\u00e3o online<\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/visao.sapo.pt\/opiniao\/silnciodafraude\/2017-03-23-Corrupcao-em-Africa--velhos-vicios--e-novas-oportunidades\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><a href=\"http:\/\/visao.sapo.pt\/opiniao\/silnciodafraude\/2016-03-03-Carta-Aberta-a-Ordem-dos-Advogados\" target=\"_blank\">\u00a0<\/a><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2017\/03\/VisaoE427.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2032\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<div>\n<p><em>O continente africano foi, desde sempre, uma terra de grandes oportunidades. Por\u00e9m, no contexto actual, comporta, para investidores internacionais e empresas estrangeiras, riscos de incumprimento significativos.<\/em><\/p>\n<p>...<\/p>\n<\/div>\n<div>\n<p><span style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\"><!--more--><\/span><\/p>\n<p>Da mesma forma que nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas se foram deslocalizando para a \u00c1sia opera\u00e7\u00f5es de baixo custo dos Estados-Membros da OCDE, est\u00e3o agora a aumentar os incentivos para as empresas desses pa\u00edses externalizarem trabalho para \u00c1frica. Tal deve-se, em larga medida, ao crescimento do PIB <em>per capita<\/em> na China e noutros pa\u00edses asi\u00e1ticos, assim como, ao proporcional aumento de sal\u00e1rios. \u00c1frica tornar-se-\u00e1, assim, a \u00faltima regi\u00e3o de baixos sal\u00e1rios, no mundo. Contudo, \u00e9 necess\u00e1rio que as oportunidades de investimento, \u00fanicas desta regi\u00e3o, sejam compreendidas no contexto de desafios igualmente \u00fanicos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Mitos e falsifica\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Muitos s\u00e3o os erros de percep\u00e7\u00e3o quanto aos fen\u00f3menos da, corrup\u00e7\u00e3o, fraude, \u00c9tica e Compliance em \u00c1frica. Estes tornaram-se ideias comuns que \u00e9 absolutamente \u00e9 necess\u00e1rio desmistificar.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a ideia da \u00e9tica como elemento cultural distintivo de efici\u00eancia econ\u00f3mica \u00e9 uma ilus\u00e3o. Para tal, contribuiu a muito difundida \u201c\u00e9tica protestante\u201d de Max Weber (<em>Die protestantische Ethik und der Geist des Kapitalismus<\/em>, 1904), que nos sugere o protestantismo com influ\u00eancia Calvinista como produtor de condi\u00e7\u00f5es sociais mais \u00e9ticas que outros contextos e, por isso, economicamente mais eficiente. Sobretudo o catolicismo \u00e9, por vezes, referido como menos rigoroso e, por isso, economicamente menos eficiente. Ora, na Alemanha existem 16 estados federais com condi\u00e7\u00f5es id\u00eanticas, mas efici\u00eancia econ\u00f3mica muito d\u00edspar. Estranhe-se, pois, que a Baviera e a Bade-Vurtemberga, os dois estados mais cat\u00f3licos (qui\u00e7\u00e1, at\u00e9 do que o pr\u00f3prio vaticano), s\u00e3o tamb\u00e9m os mais ricos com um PIB\/<em>per capita<\/em> de 43mil EUR respectivamente. Enquanto isso, Mecklemburgo-Pomer\u00e2nia Ocidental e Sax\u00f4nia-Anhalt, dois estados protestantes com um PIB\/<em>per capita<\/em> de 26mil EUR e 25mil EUR, respectivamente, s\u00e3o tamb\u00e9m os dois estados economicamente menos eficientes - \u00a0inclusivamente, menos do que Portugal.<\/p>\n<p>Uma outra falsifica\u00e7\u00e3o resulta da percep\u00e7\u00e3o reflexiva do desenvolvimento econ\u00f3mico e social a partir da \u00c9tica ou corrup\u00e7\u00e3o. H\u00e1 mais Fraude e corrup\u00e7\u00e3o em Londres ou em Lagos\/Nig\u00e9ria? Em Lisboa ou em Bissau? Sugiro, pois, haver na Guin\u00e9-Bissau um maior n\u00famero relativo de solicita\u00e7\u00f5es\/ofertas de pr\u00e1ticas corrupt\u00edveis, corruptoras e fraudulentas (de baixo valor), mas haver\u00e1, seguramente, muito menos volume e valor de actos de suborno e fraudulentos do que em Fran\u00e7a, \u00a0na Alemanha ou, sobretudo, em Inglaterra. Muitos s\u00e3o os estudos que apontam para uma estreita rela\u00e7\u00e3o entre efici\u00eancia econ\u00f3mica, bem-estar social, \u00e9tica e baixos n\u00edveis de corrup\u00e7\u00e3o. Mas, uma leitura errada e abusiva conduz a uma arrog\u00e2ncia dos mais ricos, disfar\u00e7ada de superioridade \u00e9tica completamente infundada. As inconsist\u00eancias entre valores quantitativos e \u00edndices de perce\u00e7\u00e3o demonstram-no.<\/p>\n<p>Vejamos dois \u00edndices de corrup\u00e7\u00e3o, contrapondo a <em>percep\u00e7\u00e3o<\/em> (Transpar\u00eancia Internacional) ao <em>risco<\/em> (TRACE\/ RAND Corporation). O \u00cdndice de Percep\u00e7\u00e3o de Corrup\u00e7\u00e3o (IPC), criado em 1995 pela Transparency International - em que os pa\u00edses s\u00e3o ordenados pelo \"grau em que a corrup\u00e7\u00e3o \u00e9 percebida existir\" - classifica 176 pa\u00edses. A Guin\u00e9 Bissau surge em 168\u00ba lugar, seguindo uma tend\u00eancia descendente nos \u00faltimos anos, numa lista liderada pelos pa\u00edses do norte da Europa. Portugal aparece em 29\u00ba lugar, dezanove lugares atr\u00e1s da Alemanha - em 10\u00ba lugar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td width=\"262\">Ranking IPC - percep\u00e7\u00e3o:<\/td>\n<td width=\"85\"><\/td>\n<td width=\"264\">Ranking TRACE \u2013 risco ponderado:<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"262\">1\u00ba.- Dinamarca8\u00ba.- Holanda10\u00ba.- Alemanha<\/p>\n<p><strong><em>29\u00ba.- Portugal<\/em><\/strong><\/p>\n<p>87\u00ba.- Z\u00e2mbia (meio da tabela)<\/p>\n<p>166\u00ba.- Iraque<\/p>\n<p>166\u00ba.- Venezuela<\/p>\n<p><strong><em>168\u00ba.- Guin\u00e9 Bissau<\/em><\/strong><\/p>\n<p>169.\u00ba- Afeganist\u00e3o<\/p>\n<p>176\u00ba.- Som\u00e1lia<\/td>\n<td width=\"85\"><\/td>\n<td width=\"264\">7\u00ba.- Holanda10\u00ba.- Dinamarca<strong><em>23\u00ba.- Portugal<\/em><\/strong><\/p>\n<p>24\u00ba.- Alemanha<\/p>\n<p>84\u00ba.- Z\u00e2mbia<\/p>\n<p><strong><em>138\u00ba.- Guin\u00e9 Bissau<\/em><\/strong><\/p>\n<p>147\u00ba.- Som\u00e1lia<\/p>\n<p>168\u00ba.- Iraque<\/p>\n<p>176.\u00ba- Afeganist\u00e3o<\/p>\n<p>187\u00ba.- Venezuela<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Enquanto isso, o relat\u00f3rio de <em>Risco de corrup\u00e7\u00e3o<\/em>, elaborado pela TRACE\/RAND Corporation, interpreta informa\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses relativos a <em>riscos de corrup\u00e7\u00e3o<\/em> atrav\u00e9s da pondera\u00e7\u00e3o de <em>4 factores<\/em> (intera\u00e7\u00f5es de neg\u00f3cios com o Governo; legisla\u00e7\u00e3o anti-corrup\u00e7\u00e3o e sua aplica\u00e7\u00e3o; transpar\u00eancia do Governo e da fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica; capacidade de supervis\u00e3o da Sociedade Civil). Neste relat\u00f3rio a Guin\u00e9-Bissau\u00a0 encontra-se em 138\u00ba lugar (\u00e0 frente de Mo\u00e7ambique e Angola), enquanto Portugal surge em 23\u00ba, \u00e0 frente da Alemanha em 24\u00ba.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<table>\n<tbody>\n<tr>\n<td colspan=\"7\" width=\"611\">\n<p style=\"text-align: center;\">\u00cdndice de riscos de Corrup\u00e7\u00e3o ponderados<\/p>\n<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"45\">Rank<\/td>\n<td width=\"198\">Pa\u00eds<\/td>\n<td width=\"76\">Risco totalponderado<\/td>\n<td width=\"76\">Dom\u00ednio 1<\/td>\n<td width=\"76\">Dom\u00ednio 2<\/td>\n<td width=\"66\">Dom\u00ednio 3<\/td>\n<td width=\"75\">Dom\u00ednio 4<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"45\">134<\/td>\n<td width=\"198\">Trinidad e Tobago<\/td>\n<td width=\"76\">67<\/td>\n<td width=\"76\">73<\/td>\n<td width=\"76\">38<\/td>\n<td width=\"66\">59<\/td>\n<td width=\"75\">33<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"45\">135<\/td>\n<td width=\"198\">Djibuti<\/td>\n<td width=\"76\">67<\/td>\n<td width=\"76\">53<\/td>\n<td width=\"76\">37<\/td>\n<td width=\"66\">67<\/td>\n<td width=\"75\">78<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"45\">136<\/td>\n<td width=\"198\">Madag\u00e1scar<\/td>\n<td width=\"76\">67<\/td>\n<td width=\"76\">66<\/td>\n<td width=\"76\">40<\/td>\n<td width=\"66\">68<\/td>\n<td width=\"75\">60<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"45\">137<\/td>\n<td width=\"198\">Mong\u00f3lia<\/td>\n<td width=\"76\">68<\/td>\n<td width=\"76\">76<\/td>\n<td width=\"76\">29<\/td>\n<td width=\"66\">45<\/td>\n<td width=\"75\">44<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"45\"><strong><em>138<\/em><\/strong><\/td>\n<td width=\"198\"><strong><em>Guin\u00e9-Bissau<\/em><\/strong><\/td>\n<td width=\"76\"><strong><em>68<\/em><\/strong><\/td>\n<td width=\"76\"><strong><em>66<\/em><\/strong><\/td>\n<td width=\"76\"><strong><em>36<\/em><\/strong><\/td>\n<td width=\"66\"><strong><em>64<\/em><\/strong><\/td>\n<td width=\"75\"><strong><em>69<\/em><\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"45\">139<\/td>\n<td width=\"198\">Santa L\u00facia<\/td>\n<td width=\"76\">68<\/td>\n<td width=\"76\">75<\/td>\n<td width=\"76\">36<\/td>\n<td width=\"66\">56<\/td>\n<td width=\"75\">34<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"45\">140<\/td>\n<td width=\"198\">Burkina Faso<\/td>\n<td width=\"76\">68<\/td>\n<td width=\"76\">61<\/td>\n<td width=\"76\">37<\/td>\n<td width=\"66\">77<\/td>\n<td width=\"75\">62<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"45\">141<\/td>\n<td width=\"198\">Argentina<\/td>\n<td width=\"76\">69<\/td>\n<td width=\"76\">83<\/td>\n<td width=\"76\">15<\/td>\n<td width=\"66\">35<\/td>\n<td width=\"75\">23<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"45\">142<\/td>\n<td width=\"198\">Suazil\u00e2ndia<\/td>\n<td width=\"76\">69<\/td>\n<td width=\"76\">63<\/td>\n<td width=\"76\">36<\/td>\n<td width=\"66\">70<\/td>\n<td width=\"75\">72<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"45\"><strong><em>143<\/em><\/strong><\/td>\n<td width=\"198\"><strong><em>Mo\u00e7ambique<\/em><\/strong><\/td>\n<td width=\"76\"><strong><em>70<\/em><\/strong><\/td>\n<td width=\"76\"><strong><em>70<\/em><\/strong><\/td>\n<td width=\"76\"><strong><em>39<\/em><\/strong><\/td>\n<td width=\"66\"><strong><em>67<\/em><\/strong><\/td>\n<td width=\"75\"><strong><em>63<\/em><\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"45\">196<\/td>\n<td width=\"198\">Guin\u00e9<\/td>\n<td width=\"76\">92<\/td>\n<td width=\"76\">98<\/td>\n<td width=\"76\">42<\/td>\n<td width=\"66\">72<\/td>\n<td width=\"75\">74<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"45\">197<\/td>\n<td width=\"198\">Yemen<\/td>\n<td width=\"76\">93<\/td>\n<td width=\"76\">86<\/td>\n<td width=\"76\">100<\/td>\n<td width=\"66\">85<\/td>\n<td width=\"75\">100<\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"45\"><strong><em>198<\/em><\/strong><\/td>\n<td width=\"198\"><strong><em>Angola<\/em><\/strong><\/td>\n<td width=\"76\"><strong><em>96<\/em><\/strong><\/td>\n<td width=\"76\"><strong><em>100<\/em><\/strong><\/td>\n<td width=\"76\"><strong><em>67<\/em><\/strong><\/td>\n<td width=\"66\"><strong><em>90<\/em><\/strong><\/td>\n<td width=\"75\"><strong><em>77<\/em><\/strong><\/td>\n<\/tr>\n<tr>\n<td width=\"45\">199<\/td>\n<td width=\"198\">Nig\u00e9ria<\/td>\n<td width=\"76\">97<\/td>\n<td width=\"76\">98<\/td>\n<td width=\"76\">33<\/td>\n<td width=\"66\">100<\/td>\n<td width=\"75\">60<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pode-se inferir que a correla\u00e7\u00e3o entre corrup\u00e7\u00e3o e desempenho econ\u00f3mico \u00e9 diferente da sugerida pela TI. N\u00e3o obstante, tal n\u00e3o desvaloriza a gravidade do seu impacto numa sociedade economicamente muito fr\u00e1gil. Ainda assim, relativiza a an\u00e1lise de factores e sugere oportunidades de gest\u00e3o de risco aplicadas aos sistemas racionais e de incentivos, sejam eles organizacionais ou p\u00fablicos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Corrup\u00e7\u00e3o em \u00c1frica<\/strong><\/p>\n<p>As organiza\u00e7\u00f5es ou sociedades africanas, que tenham a pretens\u00e3o de ser bem-sucedidas a longo prazo, precisam de desenvolver uma cultura de integridade e ter em conta as necessidades e expectativas n\u00e3o s\u00f3 dos parceiros econ\u00f3micos, mas tamb\u00e9m das suas popula\u00e7\u00f5es, com quem aqueles estejam interessados em interagir.<\/p>\n<p>A integridade e o Compliance s\u00e3o, portanto, uma oportunidade para uma sociedade, um estado ou at\u00e9 uma organiza\u00e7\u00e3o serem bem-sucedidos e sustent\u00e1veis. A aplica\u00e7\u00e3o dos valores fundamentais e padr\u00f5es de governa\u00e7\u00e3o \u00e9ticos e socialmente aceites pode depender mais da lideran\u00e7a para o cumprimento das regras do que destas em si mesmas. O <em>princ\u00edpio da legalidade<\/em> apenas institui o comando do primado do direito e das regras, mas nada nos diz sobre a sua pr\u00e1tica, nem sobre a sua aplica\u00e7\u00e3o num contexto din\u00e2mico que se quer construtivo e n\u00e3o conflitual. O direito \u00e9 um instrumento de regula\u00e7\u00e3o de conflitos e n\u00e3o de optimiza\u00e7\u00e3o de meios, recursos e oportunidades. Para tal, tornam-se necess\u00e1rios um sistema, um plano e uma gest\u00e3o cont\u00ednuos de Compliance ou cumprimento, como sugerido pela ISO19600 de 2014. A abordagem <em>b\u00e9lica<\/em> do combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o, mais alinhada com conceitos de luta assentes num pensamento marxista, n\u00e3o parece adequada a este fim. Enquanto isso, o paradigma da sociedade do Risco Risco (Ulrich Beck), igualmente socialista, sugere-nos uma preocupa\u00e7\u00e3o com a distribui\u00e7\u00e3o de Riscos e Benef\u00edcios \u2013 o que para os esfor\u00e7os anticorrup\u00e7\u00e3o parece bastante mais \u00fatil.<\/p>\n<p>A corrup\u00e7\u00e3o e a fraude s\u00e3o factores de risco associados ao investimento em \u00c1frica, com importantes consequ\u00eancias para a inibi\u00e7\u00e3o do potencial crescimento econ\u00f3mico. Contudo, o comportamento \u00e9tico n\u00e3o \u00e9 como uma mercadoria, nem um objetivo a ser cumprido num determinado momento, mas sim, uma condi\u00e7\u00e3o social sustent\u00e1vel e, por isso, din\u00e2mica! Assim, devemos identificar e procurar mitigar riscos numa abordagem igualmente din\u00e2mica, gerindo a sua evolu\u00e7\u00e3o e corrigindo comportamentos cujos desvios se devem a uma deficiente cultura \u00e9tica - sobretudo de quadros superiores e l\u00edderes pol\u00edticos. Alinhar uma cultura \u00e9tica e incorpor\u00e1-la nas respetivas atividades requer iniciativa e lideran\u00e7a em vez de apatia e seguidismo.<\/p>\n<p>\u00c1reas e fatores de risco de corrup\u00e7\u00e3o em \u00c1frica.<\/p>\n<p>Recorde-se que, historicamente, a corrup\u00e7\u00e3o em \u00c1frica foi, desde cedo, um modelo de interac\u00e7\u00e3o entre os povos africanos e europeus e, para estes, um modelo de concorr\u00eancia, expansionista e, posteriormente, colonial. Subornar pessoas de confian\u00e7a para destas obter vantagens ou influ\u00eancia em \u00c1frica foi um modelo de neg\u00f3cio aceit\u00e1vel at\u00e9 aos anos 90 do sec. XX, inclusive com benef\u00edcios fiscais (por. ex.: na Alemanha).<\/p>\n<p>Por\u00e9m, mesmo n\u00e3o se distinguindo a corrup\u00e7\u00e3o na Alemanha, Portugal e na Guin\u00e9-Bissau, na <em>censura social<\/em> encontram-se, ainda, muitas diferen\u00e7as - o que decorrendo da auto-percep\u00e7\u00e3o, acaba,tamb\u00e9m, por determin\u00e1-la. A gest\u00e3o dos riscos de corrup\u00e7\u00e3o passa por incorporar a \u00e9tica na cultura comunit\u00e1ria, organizacional ou funcional. Assim, as pessoas poder\u00e3o agir eticamente, independentemente das circunst\u00e2ncias. Esta descoloniza\u00e7\u00e3o ainda est\u00e1 por fazer!<\/p>\n<p>Quando observamos a realidade econ\u00f3mica em \u00c1frica destacam-se algumas \u00e1reas de risco:<\/p>\n<ul>\n<li>uma economia, em grande medida, baseada em numer\u00e1rio;<\/li>\n<li>uma depend\u00eancia significativa de intermedi\u00e1rios locais, agentes e terceiros para a concretiza\u00e7\u00e3o de neg\u00f3cios com o exterior;<\/li>\n<li>uma perce\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a por parte dos investidores (o que promove pagamentos e recebimentos indevidos);<\/li>\n<li>solicita\u00e7\u00f5es directas por funcion\u00e1rios, promovidas pela pobreza generalizada.<\/li>\n<\/ul>\n<p>Com base nas teorias da escolha racional e das atividades rotineiras da criminologia, \u00e9 de agir concretamente sobre os factores de <em>oportunidade<\/em>, <em>press\u00e3o<\/em> e <em>racionaliza\u00e7\u00e3o<\/em> da corrup\u00e7\u00e3o, influenciando, assim, os sistemas de incentivos e os processos, por forma a mitigar riscos e corrigir os comportamentos.<\/p>\n<p>Por outro lado, para os pr\u00f3prios agentes econ\u00f3micos e investidores, aderir a <em>certas pr\u00e1ticas recomendadas<\/em> pode mitigar riscos de corrup\u00e7\u00e3o, levando a um verdadeiro aproveitamento das oportunidades de neg\u00f3cio existentes. Estas pr\u00e1ticas recomendadas n\u00e3o se esgotam, mas incluem:<\/p>\n<ul>\n<li><em>Assessoria jur\u00eddica competente e<\/em> confi\u00e1vel para <em>confirmar a legalidade de taxas ou encargos question\u00e1veis<\/em> e os m\u00e9todos de pagamento permitidos;<\/li>\n<li><em>Obter recibos para todas as despesas<\/em> e verificar as taxas publicadas. Quando n\u00e3o existem recibos dispon\u00edveis para taxas legalmente autorizadas, procurar criar, juntamente com o prestador do servi\u00e7o, um documento v\u00e1lido (com assinaturas oficiais apropriadas) para quaisquer pagamentos feitos;<\/li>\n<li><em>Evitar pagamentos em dinheiro<\/em>, promovendo uma utiliza\u00e7\u00e3o consolidada do sistema banc\u00e1rio no sector do estado e na economia, de um modo geral;<\/li>\n<li>Controlar o uso de numer\u00e1rio regularmente; atribuir responsabilidades <em>nominais individuais<\/em> de verifica\u00e7\u00e3o e questionar h\u00e1bitos pouco claros;<\/li>\n<li><em>Auditar<\/em> peri\u00f3dica e eficazmente a contabilidade para sinalizar quantidades ou descri\u00e7\u00f5es de transa\u00e7\u00f5es \u00edmpares;<\/li>\n<li>Investir na <em>forma\u00e7\u00e3<\/em><u>o<\/u> para o pessoal <em>em mat\u00e9ria anti-corrup\u00e7\u00e3o<\/em>. As organiza\u00e7\u00f5es melhor sucedidas s\u00e3o as que recrutam e formam pessoas que <em>n\u00e3o aceitam \u201cque o suborno \u00e9 pr\u00f3prio de fazer neg\u00f3cios em \u00c1frica\" <\/em>e que n\u00e3o presumem que os pagamentos indevidos s\u00e3o necess\u00e1rios;<\/li>\n<li>Desenvolver e alavancar <em>bons recursos de conformidade e garantir uma rotatividade<\/em>;<\/li>\n<li>Quando confrontados com subornos recorrentes, instalar um <em>sistema de den\u00fancia<\/em> e envolver o conjunto da sociedade e funcion\u00e1rios para pressionar a cessa\u00e7\u00e3o de tais comportamentos impr\u00f3prios. O envolvimento de mais pessoas desta forma alavanca o sentido cr\u00edtico e as vozes coletivas, reduz o risco de retalia\u00e7\u00e3o contra indiv\u00edduos e aumenta a probabilidade de altos funcion\u00e1rios intervirem para impedir o suborno dos subordinados;<\/li>\n<li><em>Refor\u00e7ar a supervis\u00e3o<\/em> de interac\u00e7\u00e3o em \u00e1reas de risco acrescido (por exemplo, servi\u00e7os aduaneiros e relacionados com a imigra\u00e7\u00e3o);<\/li>\n<li><em>Publicitar as taxas dos servi\u00e7os p\u00fablicos<\/em> e eliminar ou reduzir as excessivas ou incomuns;<\/li>\n<li><em>Realizar uma revis\u00e3o anual<\/em> da efic\u00e1cia das pol\u00edticas e procedimentos anticorrup\u00e7\u00e3o;<\/li>\n<\/ul>\n<p>Na pr\u00e1tica, o que importa \u00e9 que as pessoas de uma determinada organiza\u00e7\u00e3o, p\u00fablica ou privada (um restaurante, um tribunal, um banco, um hospital, um munic\u00edpio, o pr\u00f3prio governo, etc...), mantenham, efetivamente, um comportamento \u00e9tico adequado e alinhado.<\/p>\n<p>O Compromisso demonstrado na promo\u00e7\u00e3o da conformidade confere uma vantagem competitiva crescente a qualquer operador de neg\u00f3cios, sobretudo, em \u00c1frica. Apesar dos riscos de corrup\u00e7\u00e3o, o continente africano oferece, oportunidades substanciais \u00e0s empresas que, efetivamente, identifiquem e giram esses riscos, promovendo influenciando, de forma positiva, e\u00a0 o crescimento econ\u00f3mico do \u00faltimo continente por desenvolver.<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nuno Guita, Vis\u00e3o online, \u00a0 O continente africano foi, desde sempre, uma terra de grandes oportunidades. 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