{"id":26824,"date":"2016-06-16T23:03:49","date_gmt":"2016-06-16T23:03:49","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=26824"},"modified":"2016-06-16T23:06:01","modified_gmt":"2016-06-16T23:06:01","slug":"e-no-entanto-morre-se","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=26824","title":{"rendered":"E no entanto, morre-se"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Pedro Moura, Jornal i online<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/ionline.sapo.pt\/artigo\/513465\/e-no-entanto-morre-se?seccao=Opiniao_i\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><em><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2016\/06\/Ji020.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2032\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/em><\/p>\n<p>As outras pessoas s\u00e3o instrumentos de ocasi\u00e3o que ou servem os nossos prop\u00f3sitos imediatos ou podem facilmente ser descartadas, por n\u00e3o partilharem dos \u2018nossos\u2019 interesses e perspectivas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div>\n<p><span style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\"><!--more--><\/span><\/p>\n<p>Em teoria todos sabemos que um dia vamos desaparecer, acreditemos ou n\u00e3o em ressurrei\u00e7\u00f5es, reencarna\u00e7\u00f5es ou qualquer outro tipo de continuidade. E, tamb\u00e9m em teoria, a partir deste saber de um nosso final, da monstruosidade horr\u00edvel que \u00e9 sabermo-nos finitos, erigimos grande parte do nosso sistema de prioridades e definimos o que \u00e9 mais e menos importante na e para a nossa vida.<\/p>\n<p>Mas a nossa sociedade \u00e9 avessa \u00e0 morte. Ao contr\u00e1rio de outras culturas, em que a morte \u00e9 assumida como presente, n\u00f3s, ocidentais, tendemos a varrer todo o pensamento ou presen\u00e7a da morte para debaixo do tapete do conforto existencial instant\u00e2neo. Achamos que somos fortes, que queremos viver, que amamos tudo o que a vida d\u00e1 intensamente. Mas n\u00e3o se pode amar a vida sem se conviver com a morte. Neste aspeto, julgo que somos, enquanto civiliza\u00e7\u00e3o, adolescentes. E como adolescentes, a nossa maturidade para gerirmos a nossa pr\u00f3pria vida \u00e9 bastante question\u00e1vel.<\/p>\n<p>Vivemos \u00e0 procura de ser amados, mas nunca sabemos efetivamente amar. Queremos comprar felicidade com dinheiro, status, bens materiais, honrarias, e ao fim e ao cabo parece que nunca se tem o suficiente e que a felicidade se apresenta cada vez mais distante. As outras pessoas s\u00e3o instrumentos de ocasi\u00e3o que ou servem os nossos prop\u00f3sitos imediatos ou podem facilmente ser descartadas, por n\u00e3o partilharem dos \u2018nossos\u2019 interesses e perspectivas. Todos queremos sentir muito, mas cada vez mais nos isolamos de tudo e de todos, relegando-nos a um anonimato confort\u00e1vel e ao usufruto de \u2018experi\u00eancias\u2019 desenhadas para nos fazer sentir melhor.<\/p>\n<p>Hoje em dia quando se pensa em \u2018estar\u2019 com algu\u00e9m, a pergunta que surge sempre \u00e9 'o que vamos fazer e onde\u2019, para garantir que se ocupa com uma qualquer atividade o desconforto de simplesmente se \u2018estar\u2019, existindo com o outro. Coleccionam-se pessoas e experi\u00eancias numa qualquer caderneta de concretiza\u00e7\u00f5es, mas nunca somos realmente n\u00f3s, antes uma qualquer personagem que acha saber precisamente o que \u00e9 expect\u00e1vel fazer e sentir.<\/p>\n<p>E temos egos do tamanho do universo, somos tudo o que existe, nunca h\u00e1 problemas, desejos ou capacidades maiores que os nossos. Somos extremamente soberbos, inconsequentes e seguros porque vivemos num enorme caldo de inseguran\u00e7as e solid\u00e3o. D\u00e1 impress\u00e3o que nunca estivemos t\u00e3o juntos e t\u00e3o fortes, e no entanto, embora em meio \u00e0 enorme multid\u00e3o, nunca estivemos t\u00e3o sozinhos, nunca vivemos com tanto medo de tudo. Sobretudo medo de se perder o que se \u2018\u00e9' ou que se \u2018tem\u2019.<\/p>\n<p>Temos, enquanto civiliza\u00e7\u00e3o, a enorme for\u00e7a da individualidade, esse brutal impulso criador que exponencia a nossa capacidade de domar o planeta e os outros \u00e0 nossa vontade. Mas dia ap\u00f3s dia h\u00e1 a impress\u00e3o que o ch\u00e3o se pode abrir e engolir todas as maravilhas que somos e possu\u00edmos, tal a fragilidade da nossa realidade. Quanto mais se tem menos se \u00e9. Este medo, este terror \u00e9 o pre\u00e7o a pagar pela artificialidade que criamos para n\u00e3o termos de encarar o que realmente somos: seres fr\u00e1geis, com um enorme potencial para o bem e para o mal, que no fundo somente querem ser amados.<\/p>\n<p>Esta \u2018cultura obsessiva de vida\u2019, sem aten\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa verdadeira natureza e limita\u00e7\u00f5es, leva-nos ao auto-engano. Queremos avidamente o que realmente n\u00e3o precisamos; ligamos (muito) mais a pessoas que n\u00e3o nos dizem nada que \u00e0queles que realmente merecem a nossa aten\u00e7\u00e3o e amor; colocamo-nos em situa\u00e7\u00f5es e profiss\u00f5es que desprezamos somente porque o contexto social indica que \u00e9 por ali que se vai ter mais sucesso e reconhecimento exterior; confundimos o que \u00e9 acess\u00f3rio com o que \u00e9 essencial e o que \u00e9 urgente com o que \u00e9 importante; orientamos a nossa conduta segundo uma \u00e9tica totalmente imposta de fora sem nunca reflectirmos se concordamos ou n\u00e3o com ela; procuramos saber quem somos pelo que os outros possam pensar de n\u00f3s e n\u00e3o pela nossa pr\u00f3pria auto-consci\u00eancia; escondemo-nos de n\u00f3s pr\u00f3prios sob as m\u00e1scaras do socialmente expect\u00e1vel, do politicamente correto, da fama e da posse, e, por vezes, quando nos olhamos ao espelho (ou passamos 5 minutos realmente sozinhos) assustamo-nos com esse desconhecido que se nos apresenta, humano, sozinho, aberto, fr\u00e1gil. E, de quando em vez ficamos surpreendidos porque sentimos que os outros, muitas vezes pr\u00f3ximos, deixaram de nos reconhecer.<\/p>\n<p>H\u00e1 poucas semanas morreu-me um familiar pr\u00f3ximo, algu\u00e9m que tive na minha vida desde que nasci. Foi um processo inesperado, r\u00e1pido e tragicamente cruel. Uma vida terminada em meio a um mar de dor, pesar, lembran\u00e7as, l\u00e1grimas, como\u00e7\u00e3o, frustra\u00e7\u00e3o e desespero. Demasiadas emo\u00e7\u00f5es, mas no final de tudo, um corpo enterrado, uma vida com um ponto final. E, em mim, uma enorme sensa\u00e7\u00e3o de\u00a0impot\u00eancia, vazio e pequenez. A lembran\u00e7a de toda a vida de uma pessoa, de todas as muitas ocasi\u00f5es, vit\u00f3rias, derrotas, desejos, possess\u00f5es, tristezas, alegrias. E o enorme pavor de me saber tamb\u00e9m destinado \u00e0quele fim. O olhar para aquele caix\u00e3o que ajudava a fazer descer para a terra e saber que \u00e9 o meu pr\u00f3prio caix\u00e3o, o de todas as pessoas. Aquela pessoa, aquela situa\u00e7\u00e3o, aquela dor, aquele desespero de uma raiva t\u00e3o funda e antiga como a vida, sou eu, somos todos.<\/p>\n<p>E fiz, uma vez mais, a promessa de rever as minhas prioridades, de dar mais import\u00e2ncia ao que \u00e9 realmente importante, de ligar mais a quem mais importa, de amar sem esperar recompensa, de n\u00e3o me transformar em posse e consumo, de viver bondoso e verdadeiro, de n\u00e3o ceder a vaidades e a medos, de viver todos os dias com a consci\u00eancia clara do meu fim, e de em todos os momentos procurar a vida, a paz, a justi\u00e7a e o amor.<\/p>\n<p>Quem quiser ser o homem mais rico (ou mais bem sucedido) do cemit\u00e9rio vir\u00e1 provavelmente a ser tamb\u00e9m o mais sozinho e miser\u00e1vel, bem como aquele que maior fraude cometeu sobre si pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedro Moura, Jornal i online As outras pessoas s\u00e3o instrumentos de ocasi\u00e3o que ou servem os nossos prop\u00f3sitos imediatos ou podem facilmente ser descartadas, por n\u00e3o partilharem dos \u2018nossos\u2019 interesses e perspectivas. &nbsp;<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,129],"tags":[],"class_list":["post-26824","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-jornal-i-online"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26824","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/34"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=26824"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26824\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":26827,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/26824\/revisions\/26827"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=26824"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=26824"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=26824"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}