{"id":23601,"date":"2015-11-27T08:06:59","date_gmt":"2015-11-27T08:06:59","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=23601"},"modified":"2015-12-04T19:27:25","modified_gmt":"2015-12-04T19:27:25","slug":"terror-sangue-e-petroleo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=23601","title":{"rendered":"Terror, sangue e petr\u00f3leo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Carlos Pimenta, OBEGEF<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=23601\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/>\u00a0<\/a><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2015\/11\/NaoI_0501.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-2032\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<div>\n<p style=\"padding-left: 90px;\">\u201cO traumatismo \u00e9 produzido pelo <em>futuro<\/em> que <em>h\u00e1-de vir<\/em>, pela amea\u00e7a do pior que <em>h\u00e1-de vir<\/em>, mais do que pela agress\u00e3o que \u00abj\u00e1 terminou\u00bb\u201d (Derrida in <em>Filosofia em tempo de terror<\/em>)<\/p>\n<\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<div>\n<p>1. O terror desceu \u00e0s ruas de Fran\u00e7a. O medo apoderou-se dos europeus que interiorizaram a possibilidade de um novo atentado. A maior visibilidade das pol\u00edcias e for\u00e7as armadas n\u00e3o dissipam significativamente as d\u00favidas quanto a essa viabilidade. As pris\u00f5es realizadas em pouco tempo deixam o sabor amargo da falta de capacidade de antecipa\u00e7\u00e3o e a incerteza sobre a preven\u00e7\u00e3o conseguida.<\/p>\n<p>A ruptura com a vida quotidiana, o receio da probabilidade de acontecimentos futuros destabiliza os h\u00e1bitos dos cidad\u00e3os. A agress\u00e3o externa aumenta a confian\u00e7a no Estado, t\u00e3o degradada nas democracias americana e europeia, funcionando como uma \u00e2ncora de salvaguarda. \u00c9 confortante, mas pode acarretar dois perigos: o esquecimento dos antecedentes e o apoio a solu\u00e7\u00f5es musculadas: \u201ca experi\u00eancia da liberdade absoluta transformar-se-\u00e1 num <em>medo da liberdade<\/em> profundamente enraizado\u201d (Riemen).<\/p>\n<p>2. Desde 11 de Setembro de 2001 o feiti\u00e7o virou-se contra o feiticeiro. V\u00e1rios acontecimentos confirmaram essa situa\u00e7\u00e3o. A al-Qaeda constituiu-se nos anos 70 sob o lema de v\u00e1rias ac\u00e7\u00f5es de guerra continuadas visando a constitui\u00e7\u00e3o de um estado pan-islamista. A sua organiza\u00e7\u00e3o em c\u00e9lulas espalhadas por muitos pa\u00edses defende-a da repress\u00e3o e semente influ\u00eancias.<\/p>\n<p>A sua natureza terrorista era \u00f3bvia. Contudo, em vez de ser encarado como uma amea\u00e7a \u00e0 seguran\u00e7a e \u00e0 liberdade, foi muitas vezes encarada como um potencial aliado. Pelas armas e pela capacidade de ideologiza\u00e7\u00e3o das camadas mais jovens. Utilizada no Afeganist\u00e3o como for\u00e7a de combate contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, reutilizada com financiamento e armamento ocidental na B\u00f3snia Herzegovina, violando decis\u00f5es da ONU, e no Kosovo, participou activamente na autoproclamada primavera \u00e1rabe, ora directamente ora expandindo-se atrav\u00e9s de movimentos rebeldes alimentados em dinheiro e armas pelo pa\u00edses ocidentais, conjugando esfor\u00e7o com a NATO na L\u00edbia. E durante o \u00faltimo lustro, com o apoio de v\u00e1rios pa\u00edses \u00e1rabes e de democracias ocidentais as redes militantes islamitas ligadas \u00e0 al-Qaeda ou por esta influenciadas geraram o \u00abEstado Isl\u00e2mico\u00bb. A invas\u00e3o unilateral do Iraque criou um ambiente favor\u00e1vel \u00e0 sua constitui\u00e7\u00e3o. A Turquia mant\u00e9m uma ambiguidade estrat\u00e9gica e econ\u00f3mica. Como afirma Nafeez Ahmed, polit\u00f3logo brit\u00e2nico, a coliga\u00e7\u00e3o conduzida pelos EUA contra o \u00abEstado Isl\u00e2mico\u00bb financia o \u00abEstado Isl\u00e2mico\u00bb. Toda esta ac\u00e7\u00e3o dos EUA e seus aliados combina o discurso gong\u00f3rico e simb\u00f3lico do manto di\u00e1fano com o apoio financeiro, militar e log\u00edstico da nudez fria da realidade.<\/p>\n<p>As profundas desigualdades econ\u00f3mico-sociais internacionais e nacionais, atingindo de forma vincada as minorias \u00e9ticas nas sociedades desenvolvidas, num quadro de acelerada moderniza\u00e7\u00e3o com rupturas intempestivas da tradi\u00e7\u00e3o, criam condi\u00e7\u00f5es impulsionadoras para o radicalismo terrorista. A falsa identifica\u00e7\u00e3o da liberdade com a possibilidade de escolha enfraquece a responsabilidade pelos outros: \u201ca verdadeira liberdade se inicia com a no\u00e7\u00e3o de que as escolhas individuais se formam em permanente negocia\u00e7\u00e3o com as for\u00e7as externas; a liberdade \u00e9 (\u2026) medida pelo n\u00edvel de controlo que conseguimos conquistar sobre essas for\u00e7as que, de outro modo nos controlariam\u201d (Habermas).<\/p>\n<p>Nenhuma destas considera\u00e7\u00f5es desculpabiliza minimamente a natureza criminosa e violadora da dignidade humana, mas pode ajudar a percebermos melhor a realidade actual, a sua complexidade e a diversidade de mudan\u00e7as de rumo que s\u00e3o necess\u00e1rias se pretendermos solucionar estruturalmente o problema.<\/p>\n<p>3. E todas as alian\u00e7as ign\u00f3beis anteriormente referenciadas t\u00eam um denominador comum: a depend\u00eancia das economias desenvolvidas em rela\u00e7\u00e3o aos combust\u00edveis f\u00f3sseis, do petr\u00f3leo e do g\u00e1s.<\/p>\n<p>E essa \u00e9 a principal motiva\u00e7\u00e3o desta reflex\u00e3o e d\u00favidas que aqui vos deixo. J\u00e1 numa cr\u00f3nica anterior chamamos a aten\u00e7\u00e3o para o petr\u00f3leo extra\u00eddo na regi\u00e3o controlada pelo \u00abEstado Isl\u00e2mico\u00bb. Coloc\u00e1mos ent\u00e3o a hip\u00f3tese que as quebras no pre\u00e7o de mercado do petr\u00f3leo tamb\u00e9m tenham sido causadas, para al\u00e9m de manobras concorrenciais politicamente definidas por objectivos estrat\u00e9gicos, pelo actual mercado negro do ouro negro. A explica\u00e7\u00e3o oficial da possibilidade de obten\u00e7\u00e3o de um produto similar a partir do xisto betuminoso n\u00e3o parece concludente pelos mais elevados custos de produtos e graves impactos ambientais.<\/p>\n<p>Os actos terroristas voltaram a chamar a aten\u00e7\u00e3o para o problema quando se informa que \u201ca maioria das receitas [do \u00abEstado Isl\u00e2mico\u00bb] resulta do neg\u00f3cio do petr\u00f3leo, v\u00e1rias fontes apontam para uma receita di\u00e1ria de 1,5 a 2 milh\u00f5es de d\u00f3lares\u201d (Expresso). Formulamos a hip\u00f3tese de que este valor esteja subestimado pois tal corresponderia a cerca de oitenta mil barris por dia, admitindo que no mercado paralelo o pre\u00e7o seja metade do oficial. Recorde-se que a produ\u00e7\u00e3o do Iraque e da S\u00edria valia, h\u00e1 dois anos, tr\u00eas milh\u00f5es de barris por dia.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o que se coloca \u00e9: porque \u00e9 que os Estados n\u00e3o imp\u00f5em san\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas \u00e0s empresas petrol\u00edferas que est\u00e3o a utilizar o petr\u00f3leo daquele pseudo-Estado erigido pelas armas? Porque n\u00e3o querem ou porque n\u00e3o podem? Porque \u00e9 que esta medida n\u00e3o faz parte do vocabul\u00e1rio pol\u00edtico do combate ao terrorismo?<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Pimenta, OBEGEF \u00a0 \u201cO traumatismo \u00e9 produzido pelo futuro que h\u00e1-de vir, pela amea\u00e7a do pior que h\u00e1-de vir, mais do que pela agress\u00e3o que \u00abj\u00e1 terminou\u00bb\u201d (Derrida in Filosofia em tempo de terror)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"_exactmetrics_skip_tracking":false,"_exactmetrics_sitenote_active":false,"_exactmetrics_sitenote_note":"","_exactmetrics_sitenote_category":0,"footnotes":""},"categories":[72,126],"tags":[],"class_list":["post-23601","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cronicas","category-obegef"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23601","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=23601"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23601\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":23605,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/23601\/revisions\/23605"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=23601"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=23601"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=23601"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}