{"id":1127,"date":"2013-03-28T00:00:00","date_gmt":"2013-03-28T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=1127"},"modified":"2015-12-04T19:14:24","modified_gmt":"2015-12-04T19:14:24","slug":"o-homem-que-amou-a-troika","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=1127","title":{"rendered":"O homem que amou a Troika"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Jo\u00e3o Pedro Martins, <\/strong><\/span><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\" href=\"http:\/\/visao.sapo.pt\/o-homem-que-amou-a-troika=f720697\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a title=\"O \u201cburaco\u201d de Chipre: andam a enganar-nos\" href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/04\/VisaoE234.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Portugal \u00e9 dif\u00edcil encontrar uma pessoa que n\u00e3o odeie a troika. Mas o Z\u00e9 \u00e9 uma das poucas exce\u00e7\u00f5es.<br \/>\nQuando lhe perguntei a opini\u00e3o sobre a troika, disse-me que era simp\u00e1tica e segredou-me com um sorriso transmontano que o cora\u00e7\u00e3o ainda lhe salta sempre que ouve este nome. Confidenciou-me que uma das coisas que lhe dava mais prazer era dar dinheiro \u00e0 troika. Dizem que o amor \u00e9 cego, mas para o Z\u00e9 a troika \u00e9 tudo.<br \/>\n<!--more-->\u00a0O Z\u00e9 vive numa pequena aldeia no interior do pa\u00eds. S\u00e3o poucos os portugueses que se podem dar ao luxo de ter a qualidade de vida que o Z\u00e9 j\u00e1 desfrutou. Uma escola, um centro de sa\u00fade, um caf\u00e9 e uma esta\u00e7\u00e3o de comboios, tudo a menos de cem metros de casa.<br \/>\nMas a centralidade da aldeia transformou-se numa dist\u00e2ncia infinita que separa o Z\u00e9 do resto do mundo. Um dia algu\u00e9m se lembrou de que as liga\u00e7\u00f5es ferrovi\u00e1rias davam preju\u00edzo ao Estado. Fizeram contas e acabaram com o comboio. Ficaram os carris onde as crian\u00e7as da escola podiam brincar sem serem atropeladas.<br \/>\nPouco tempo depois voltaram a fazer contas e como a escola tinha poucos alunos deslocalizaram as crian\u00e7as para uma aldeia a 20 quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia. Em menos de uma d\u00e9cada, as fam\u00edlias com filhos migraram para os grandes centros urbanos.<br \/>\nQuando come\u00e7aram os cortes cegos na sa\u00fade, ainda antes da troika aparecer, chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que n\u00e3o havia doentes em n\u00famero suficiente para justificar a manuten\u00e7\u00e3o de um centro de sa\u00fade com uma enfermeira e um m\u00e9dico.<br \/>\nDepois fechou o caf\u00e9 que come\u00e7ou a ficar sem clientes e ficou apenas o Z\u00e9 na aldeia. \u00c0 noite ainda se entretinha a ver os quatro canais de televis\u00e3o generalistas, at\u00e9 que um dia algu\u00e9m se lembrou de acabar com os retransmissores anal\u00f3gicos e esqueceram-se do Z\u00e9 que vive numa aldeia onde n\u00e3o chega o sinal da televis\u00e3o digital terrestre.<br \/>\nO Z\u00e9 j\u00e1 n\u00e3o consegue vender os ovos das suas galinhas \u00e0 cooperativa da aldeia vizinha porque agora \u00e9 obrigado a passar faturas e para abrir atividade como empres\u00e1rio tem de se deslocar umas dezenas de quil\u00f3metros para ir \u00e0s Finan\u00e7as e \u00e0 Seguran\u00e7a Social. Mas o problema \u00e9 o comboio, que j\u00e1 n\u00e3o passa na aldeia, e os t\u00e1xis que s\u00f3 apareciam esporadicamente nos filmes que o Z\u00e9 via na televis\u00e3o antes do apag\u00e3o anal\u00f3gico.<br \/>\nPara pessoas como eu, o Z\u00e9 foi v\u00edtima de uma fraude. Uma enorme burla estatal que lhe roubou o acesso aos servi\u00e7os p\u00fablicos consagrados na Constitui\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica e o afastou da fam\u00edlia, dos amigos, do pa\u00eds e da vida. O Z\u00e9 n\u00e3o escolheu ficar sozinho, isolaram-no. Trataram-no como um criminoso que foi condenado a passar os \u00faltimos anos de vida na solit\u00e1ria.<br \/>\nPara os nossos governantes, o Z\u00e9 n\u00e3o passa de um simples algarismo perdido no meio dos n\u00fameros das estat\u00edsticas. \u00c9 uma alma esquecida para a qual qualquer investimento p\u00fablico \u00e9 um desperd\u00edcio que s\u00f3 faz aumentar o d\u00e9fice.<br \/>\nO Z\u00e9 amou a Troika e recordou-me que as poucas moedas que tinha na algibeira seriam dadas com alegria \u00e0 Troika. Finalmente, o Z\u00e9 contou-me que desde o tempo em que o comboio deixou de passar na aldeia, nunca mais foi ao Porto ver a rapariga loura ucraniana que aos s\u00e1bados \u00e0 noite lhe fazia companhia numa das casas de alterne da Ribeira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Pedro Martins, Vis\u00e3o on line, Em Portugal \u00e9 dif\u00edcil encontrar uma pessoa que n\u00e3o odeie a troika. Mas o Z\u00e9 \u00e9 uma das poucas exce\u00e7\u00f5es. 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