{"id":1074,"date":"2012-07-05T00:00:00","date_gmt":"2012-07-05T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=1074"},"modified":"2015-12-04T19:14:33","modified_gmt":"2015-12-04T19:14:33","slug":"escandalos-empresariais-e-ensino-em-gestao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=1074","title":{"rendered":"Esc\u00e2ndalos empresariais e ensino em gest\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Manuel Castelo Branco, <\/strong><\/span><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\" href=\"http:\/\/visao.sapo.pt\/escandalos-empresariais-e-ensino-em-gestao=f673557\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/VisaoE181.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>Nas \u00faltimas d\u00e9cadas t\u00eam-se multiplicado os esc\u00e2ndalos financeiros e empresariais, entre os quais o da Enron continua a merecer lugar de destaque. A universidade n\u00e3o se tem alheado destas quest\u00f5es. Nas escolas de gest\u00e3o, em grande medida como consequ\u00eancia daqueles esc\u00e2ndalos, o estudo e ensino da \u00e9tica e da responsabilidade social empresarial t\u00eam-se desenvolvido fortemente nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Isto porque tendo muitos dos perpetradores dos crimes que estiveram na origem desses esc\u00e2ndalos sido educados nelas, essas escolas foram parcialmente responsabilizadas. <!--more-->Para alguns, os educadores dessas escolas seriam, na melhor das hip\u00f3teses, culpados de providenciar o ambiente em que as Enrons do mundo se poderiam refugiar e florescer, ou, na pior das hip\u00f3teses, culpados de cumplicidade no comportamento criminoso daquelas.<br \/>\nTodavia, h\u00e1 quem argumente que responsabilizar essas escolas corresponde a sobrestimar grosseiramente a influ\u00eancia que a educa\u00e7\u00e3o por elas fornecida teria nos indiv\u00edduos, assumindo que os valores destes se formam e consolidam muito antes de os professores do ensino superior terem alguma possibilidade de os afetar. No entanto, h\u00e1 estudos que d\u00e3o conta de uma efetiva influ\u00eancia da educa\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria. Num dos mais recentes estudos sobre o tema, com o t\u00edtulo \u201cThe Purpose of the Corporation in Business and Law School Curricula\u201d (O objetivo da empresa nos conte\u00fados program\u00e1ticos das escolas de gest\u00e3o e direito), Darrell M. West, da prestigiada Brookings Institution (www.brookings.edu), conclui, entre outras coisas, que a educa\u00e7\u00e3o oferecida nas escolas de gest\u00e3o e de direito afeta de facto as vis\u00f5es do mundo, uma vez que a probabilidade de os estudantes considerarem a cria\u00e7\u00e3o de valor para os acionistas como sendo o objetivo primordial de uma empresa \u00e9 maior ap\u00f3s terem conclu\u00eddo os seus estudos.<br \/>\nPode muito bem ser verdade que o sistema capitalista conduz a uma perda de liga\u00e7\u00e3o com a natureza, os outros e a comunidade, e que, devido \u00e0s suas caracter\u00edsticas e ao seu modo de funcionamento, a no\u00e7\u00e3o de responsabilidade perante os outros e a comunidade, na qual se baseia a \u00e9tica, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es para florescer, como, pelo contr\u00e1rio, vai esmorecendo. Mas isto n\u00e3o nos deve impedir de reconhecer o papel que tem vindo a ser desempenhado pelas escolas de gest\u00e3o na promo\u00e7\u00e3o de determinado tipo de valores e de atitudes e do papel que elas poder\u00e3o vir a ter na altera\u00e7\u00e3o destes. A verdade \u00e9 que tais escolas moldam a identidade, perspetivas e aspira\u00e7\u00f5es dos indiv\u00edduos que se ir\u00e3o tornar atores influentes em organiza\u00e7\u00f5es poderosas e, por isso, elas s\u00e3o correspons\u00e1veis pela defini\u00e7\u00e3o dos objetivos \u00faltimos das empresas e dos meios atrav\u00e9s dos quais se tem procurado atingi-los.<br \/>\nA este prop\u00f3sito, \u00e9 importante referir um importante livro de Rakesh Khurana, publicado em 2007 pela Princeton University Press, com o sugestivo t\u00edtulo \u201cFrom higher aims to hired hands\u201d (De objetivos elevados a mercen\u00e1rios). Nesta obra, atrav\u00e9s de uma an\u00e1lise das escolas de gest\u00e3o nos EUA, Khurana mostra como esta institui\u00e7\u00e3o (a escola de gest\u00e3o), criada para legitimar a gest\u00e3o, se tornou, atrav\u00e9s de um abandono do projeto de profissionaliza\u00e7\u00e3o que lhe deu a dire\u00e7\u00e3o e \u00edmpeto iniciais, um instrumento que promove uma diminui\u00e7\u00e3o da legitimidade da gest\u00e3o. Este autor mostra como essa hist\u00f3ria revela uma dissocia\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas das escolas de gest\u00e3o relativamente a uma miss\u00e3o que se centrava inicialmente na profissionaliza\u00e7\u00e3o da gest\u00e3o, a qual ainda hoje \u00e9 considerada como acarretando um prop\u00f3sito social. Neste processo, deu-se a substitui\u00e7\u00e3o de uma narrativa da gest\u00e3o enquanto profiss\u00e3o, em que se colocava os gestores no centro da empresa e se fazia deles os principais elos de liga\u00e7\u00e3o entre as preocupa\u00e7\u00f5es mais estreitas do neg\u00f3cio e as preocupa\u00e7\u00f5es mais latas da sociedade, por uma vis\u00e3o em que domina a ideologia da primazia dos acionistas e os gestores s\u00e3o pensados como meros agentes, fal\u00edveis e corrupt\u00edveis, dos acionistas. Khurana enfatiza a import\u00e2ncia de um retorno \u00e0 narrativa da gest\u00e3o como profiss\u00e3o.<br \/>\nA \u00eanfase excessiva nos mecanismos de mercado e nos pre\u00e7os das a\u00e7\u00f5es das empresas por parte das escolas de gest\u00e3o impediu-as de ensinar aos estudantes que um gestor \u00e9, por iner\u00eancia, mesmo que n\u00e3o o perceba nem assuma, respons\u00e1vel por bastante mais do que a cria\u00e7\u00e3o de valor para os acionistas. Aos educadores nas escolas de gest\u00e3o deve ser exigida a consci\u00eancia de que uma das mais importantes mudan\u00e7as sociais e econ\u00f3micas ocorridas nos \u00faltimos 50\/60 anos \u00e9 a de as modernas sociedades j\u00e1 n\u00e3o serem principalmente sociedades de indiv\u00edduos, se \u00e9 que alguma vez houve tal tipo de sociedade, mas antes sociedades de poderosas organiza\u00e7\u00f5es, de que s\u00e3o exemplo principal as empresas. Quando um elemento da sociedade atinge o n\u00edvel de influ\u00eancia dominante que caracteriza as modernas empresas, tal influ\u00eancia vem com responsabilidades comensur\u00e1veis para com as sociedades de que fazem parte. A consci\u00eancia de tais responsabilidades deve ser transmitida aos futuros l\u00edderes e profissionais nas escolas de gest\u00e3o.<br \/>\nPor isso, \u00e9 imprescind\u00edvel atenuar os efeitos perniciosos da hegemonia de vis\u00f5es adotadas da ci\u00eancia econ\u00f3mica, de que s\u00e3o exemplos a economia dos custos de transa\u00e7\u00e3o, a teoria da ag\u00eancia ou ainda a hip\u00f3tese da efici\u00eancia de mercado. Estas abordagens oferecem modelos do comportamento e natureza humanos e do comportamento das empresas, o qual \u00e9 subordinado ao seu objetivo fundamental, a saber, a maximiza\u00e7\u00e3o do valor para o acionista, que nos impedem de ver que nas sociedades atuais as rela\u00e7\u00f5es humanas nos aparecem como rela\u00e7\u00f5es entre coisas e nos tornam ainda mais fechados \u00e0 presen\u00e7a dos outros envolvidos na produ\u00e7\u00e3o daquilo que consumimos.<br \/>\nDefende-se neste texto uma indispens\u00e1vel reorienta\u00e7\u00e3o do ensino em gest\u00e3o no sentido de olhar para as empresas e para a economia em geral como uma \u00e1rea de interesse, em vez de como uma forma de obter um emprego. Isto possibilitaria alguma esp\u00e9cie de necess\u00e1ria liberta\u00e7\u00e3o da capacidade de estimular linhas de pensamento e an\u00e1lise cr\u00edticas do papel da empresa e de outras organiza\u00e7\u00f5es na sociedade. Embora tal reorienta\u00e7\u00e3o n\u00e3o garanta que as escolas de gest\u00e3o se tornem mais interessadas em quest\u00f5es como as dimens\u00f5es e consequ\u00eancias sociais das empresas ou em desenvolver, promulgar e impor normas de conduta \u00e9tica, ela afigura-se como uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, embora n\u00e3o suficiente, para que tal aconte\u00e7a.<br \/>\nNesta perspetiva, inculcar um sentido de responsabilidade pelos impactos de natureza econ\u00f3mica, social e ambiental das decis\u00f5es tomadas ao n\u00edvel da gest\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es nos futuros profissionais deveria ser considerado uma das preocupa\u00e7\u00f5es principais na educa\u00e7\u00e3o em gest\u00e3o. Para que tal suceda, torna-se indispens\u00e1vel o compromisso por parte dos educadores em fazer da responsabilidade social e \u00e9tica nas empresas um aspeto fundamental da conce\u00e7\u00e3o dos conte\u00fados e do seu ensino.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Castelo Branco, Vis\u00e3o on line, Nas \u00faltimas d\u00e9cadas t\u00eam-se multiplicado os esc\u00e2ndalos financeiros e empresariais, entre os quais o da Enron continua a merecer lugar de destaque. A universidade n\u00e3o se tem alheado destas quest\u00f5es. 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