{"id":1068,"date":"2012-05-24T00:00:00","date_gmt":"2012-05-24T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=1068"},"modified":"2015-12-04T19:14:35","modified_gmt":"2015-12-04T19:14:35","slug":"fraude-modelos-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=1068","title":{"rendered":"Fraude, Modelos &#038; Cultura"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Pedro Santos Moura, <\/strong><\/span><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\" href=\"http:\/\/visao.sapo.pt\/fraude-modelos--cultura=f666176\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/VisaoE175.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>O modelo conceptual mais conhecido para explicar a problem\u00e1tica da fraude \u00e9 o Tri\u00e2ngulo de Fraude. Este modelo assenta em tr\u00eas vectores, e indica que a pr\u00e1tica de fraude \u00e9 mais prov\u00e1vel quando h\u00e1 um Motivo para perpetuar o acto, aliado a n\u00edveis de controlo e supervis\u00e3o deficientes, o que gera uma Oportunidade, e colmatado pela capacidade de Racionaliza\u00e7\u00e3o do prevaricador em rela\u00e7\u00e3o ao acto praticado (que geralmente \u00e9 a base para comportamentos reincidentes). <!--more-->Este modelo \u00e9 complementado por alguns autores (1) com um quarto pilar: a Capacidade auto-percebida pelo prevaricador para praticar o acto fraudulento, o que muda a geometria do modelo de um tri\u00e2ngulo para um diamante (uma imagem sugestiva para alguns).<br \/>\nO combate a fraude passa, geralmente, por atacar cada um destes pilares do modelo, por forma a reduzir a probabilidade global de ocorr\u00eancia de fraude.<br \/>\nConsidero, no entanto, que h\u00e1 um elemento muitas vezes negligenciado, com uma influ\u00eancia preponderante: a Cultura.<br \/>\n\u00c9 imediato que o modelo conceptual, com os seus tr\u00eas ou quatro pilares, est\u00e1 embebido num caldo cultural em que os v\u00e1rios agentes (pessoas) se movimentam. \u00d3bvio tamb\u00e9m ser\u00e1 que a mudan\u00e7a deste caldo \u00e9 tarefa que assusta. Mas que urge, especialmente nos tempos que correm.<br \/>\nA fraude, j\u00e1 aqui o escrevi anteriormente, n\u00e3o passa somente pelo empossamento indevido de bens ou servi\u00e7os por parte de um prevaricador em preju\u00edzo de uma empresa, um individuo ou mesmo um Estado. \u00c9 algo que causa um forte impacto na vida de cada um dos cidad\u00e3os, n\u00e3o s\u00f3 a n\u00edvel econ\u00f3mico, mas tamb\u00e9m a n\u00edvel social. Tentei mesmo aqui cunhar um termo (auto-fraude) que pretendia levantar as consci\u00eancias para a forma como o futuro de cada um \u00e9, muitas vezes, comprometido pelos seus actos presentes.<br \/>\nA fraude \u00e9 uma fal\u00eancia \u00e9tica, em toda a linha. \u00c9 um fruto de consci\u00eancias sobre-individualizadas, sobretudo interessadas com o seu bem-estar imediato e superlativo, filhas de uma linha de pensamento que privilegia a gan\u00e2ncia, a dissimula\u00e7\u00e3o e a desresponsabiliza\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o a tudo o que n\u00e3o seja o seu pr\u00f3prio umbigo.<br \/>\nO caldo cultural a que cheg\u00e1mos (e que bem se reflecte na sempiterna crise) \u00e9 de um afastamento fatal entre o indiv\u00edduo e a Res Publica, de uma separa\u00e7\u00e3o mort\u00edfera entre a pessoa e a sociedade, de um encolher atroz de ombros em rela\u00e7\u00e3o a tudo o que n\u00e3o nos diga directamente respeito. Os cidad\u00e3os culpam o Estado e as Empresas pela situa\u00e7\u00e3o a que se chegou (o vulgo \u2018gatunos\u2019); o Estado e as Empresas culpam as pessoas pela sua irracionalidade, incompet\u00eancia e incapacidade em gerirem as suas vidas. Somos uma sociedade de descontinuidades entre os seus v\u00e1rios elementos constituintes, de incapacidade comunicativa e sin\u00e9rgica, com uma rigidez, uma falta de capacidade org\u00e2nica bem patente no dia a dia.<br \/>\nE \u00e9, parece-me, este o caldo cultural certo para a pr\u00e1tica da fraude (repito, n\u00e3o s\u00f3 a \u2018fraude tradicional\u2019), de todos para todos. At\u00e9 nada mais haver que defraudar.<br \/>\nPode parecer um trabalho de H\u00e9rcules, mas \u00e9 necess\u00e1rio alterar a Cultura. E a Cultura passa pela \u00e9tica, de pessoas, de empresas, do Estado. Das pequenas \u00e0s grandes coisas. Do deixar de compactuar com os emplastros que alastram pelas empresas e pelo Estado a minar qualquer possibilidade de produtividade; do parar de consumir estupidamente como se fora um ritual religioso; do deixar de achar gra\u00e7a ao chico-esperto que consegue engrolar o Fisco; de se falar quando se discorda de algo, de se falar quando se tem uma ideia, sem medo de repres\u00e1lias; de se ousar ser solid\u00e1rio, verdadeiramente solid\u00e1rio, com quem precisa; de se ligar mais ao que realmente importa na vida e n\u00e3o ter como profiss\u00e3o \u2018Estou Ocupado\u2019; de se responsabilizar os trabalhadores, dando-lhes condi\u00e7\u00f5es e autonomia para crescerem, premiando o m\u00e9rito e penalizando a mediocridade; de as empresas se concentrarem mais em produzir valor acrescentado atrav\u00e9s das suas especialidades e menos em garantirem dividendos para os accionistas; de se investir a s\u00e9rio em forma\u00e7\u00e3o, n\u00e3o como uma \u2018prenda para calar\u2019 mas como um factor essencial para o desenvolvimento de compet\u00eancias e valor; de parar de olhar para a realidade como uma luta do \u2018salve-se\u2019 quem puder, do curto prazo, e de come\u00e7ar a pensar estrategicamente e com uma vis\u00e3o de longo prazo; de deixarmos de ter mem\u00f3ria curta, e de justificarmos continuamente as nossas ac\u00e7\u00f5es (ou n\u00e3o ac\u00e7\u00f5es) atrav\u00e9s do apagamento progressivo e selectivo do passado; de pensarmos e assumirmos que as nossas ac\u00e7\u00f5es t\u00eam um impacto real no futuro, no nosso e no dos nossos filhos.<br \/>\n\u00c9 na Cultura, acredito, que est\u00e1 a real chave para uma verdadeira mitiga\u00e7\u00e3o, sustentada, n\u00e3o s\u00f3 da fraude, mas tamb\u00e9m da crise que atravessamos. Mais que econ\u00f3mica, esta crise \u00e9 cultural. A economia capitalista sem uma cultura adequada sobre a qual se sustente h\u00e1-de ser sempre uma montanha russa, com tend\u00eancia para se transformar em roleta russa.<br \/>\n\u00c9, portanto, na Cultura, que se devem enfocar os maiores esfor\u00e7os no combate a fraude, ao n\u00edvel das empresas e do Estado, mas sobretudo ao n\u00edvel de cada um de n\u00f3s (e daqueles que nos rodeiam). Caso contr\u00e1rio, estaremos sempre a correr atr\u00e1s do preju\u00edzo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedro Santos Moura, Vis\u00e3o on line, O modelo conceptual mais conhecido para explicar a problem\u00e1tica da fraude \u00e9 o Tri\u00e2ngulo de Fraude. 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