{"id":1024,"date":"2011-07-14T00:00:00","date_gmt":"2011-07-14T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=1024"},"modified":"2015-12-04T19:19:13","modified_gmt":"2015-12-04T19:19:13","slug":"ilusionados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=1024","title":{"rendered":"\u00abIlusionados\u00bb"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Ant\u00f3nio Jo\u00e3o Maia, <span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span><\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\" href=\"http:\/\/aeiou.visao.pt\/ilusionados=f612657\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2011\/07\/VisaoE130.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>Em 1981 os TAXI, uma das primeiras bandas rock portuguesas, editavam o seu primeiro disco de originais (TAXI, polygram discos), do qual veio a ficar particularmente conhecido o \u201cChiclete\u201d. Do alinhamento desse disco faz tamb\u00e9m parte o tema \u201cVida de C\u00e3o\u201d, cuja letra se inicia com a seguinte passagem:<br \/>\n\u201cNeste monte de ferro e a\u00e7o<br \/>\nOnde tudo me parece igual<br \/>\nNingu\u00e9m liga para o que eu fa\u00e7o<br \/>\nMesmo que tudo seja intencional\u201d<!--more--><br \/>\nPara l\u00e1 de um certo e natural esp\u00edrito de rebeldia pr\u00f3prio da idade dos m\u00fasicos e sobretudo dos destinat\u00e1rios das m\u00fasicas, parece \u00f3bvio (sobretudo visto daqui, trinta anos depois) que o tema procurava explorar uma certa monotonia nos estilos e nas op\u00e7\u00f5es de vida que os anos oitenta come\u00e7avam a evidenciar, de forma muito particular nas grandes cidades.<br \/>\nDe ent\u00e3o para c\u00e1 e muito por for\u00e7a do efeito de cont\u00e1gio caracterizador do processo de globaliza\u00e7\u00e3o, temos vivido num mundo que tem vindo a acentuar essa monotonia padronizada dos estilos de vida, sobretudo no modelo cultural ocidental. Neste sentido, a globaliza\u00e7\u00e3o pode ser tamb\u00e9m perspetivada como um processo de normaliza\u00e7\u00e3o dos estilos de vida das sociedades e das pessoas. Por isso n\u00e3o h\u00e1 j\u00e1 grandes d\u00favidas relativamente ao facto de estarmos a viver num contexto da sociedade de pl\u00e1stico, no sentido em que tudo (tudo o que possamos imaginar) se encontra normalizado, estandardizado, pronto a consumir, com uma capacidade de gerar quadros de viv\u00eancia individual e colectiva de elevada previsibilidade e seguran\u00e7a, quer nas op\u00e7\u00f5es, quer nas expectativas, no sentido referido por Giddens em \u201cAs Consequ\u00eancias da Modernidade\u201d (2000; editora Celta).<br \/>\nA sociedade de ferro e a\u00e7o, onde tudo parecia igual, dos anos 80, evoluiu e deu lugar \u00e0 sociedade de pl\u00e1stico. Vivemos agora como seres encerrados em \u201cbolhas\u201d, em ambientes ass\u00e9pticos, com elevados \u00edndices de conforto e de conformidade, que podem ler-se por exemplo nos nossos pr\u00f3prios comportamentos e nas expectativas que temos relativamente aos comportamentos dos outros. Cada vez mais assimilamos (ou vamos sendo assimilados), sem nos darmos conta, da enorme ritualidade c\u00edclica (grande parte dela oca em si mesma) que tem vindo a tomar conta da nossa exist\u00eancia. A hora de levantar, a hora de comer, a hora de trabalhar, a hora de descansar, a hora de ir ao cinema, a hora de ir ao gin\u00e1sio, a hora de estar com a namorada, a hora de estar com os amigos, a hora de ir ao caf\u00e9, a hora de estar com a fam\u00edlia, enfim tudo muito bem arrumadinho e compactado nas nossas agendas di\u00e1rias, tornando a vida de cada um de n\u00f3s numa esp\u00e9cie de correria, sem que saibamos exactamente para onde corremos, ou muito simplesmente porque corremos. Hoje \u00e9, por exemplo, poss\u00edvel comer pizzas, cachorros, massas, hamb\u00fargueres exactamente com o mesmo sabor, os mesmos ingredientes, o mesmo processo de confec\u00e7\u00e3o e os mesmos acompanhamentos em qualquer cidade do mundo. As principais marcas de vestu\u00e1rio, cal\u00e7ado, autom\u00f3veis e tecnologia (televisores, telem\u00f3veis, computadores, etc.), os filmes, as m\u00fasicas e os livros s\u00e3o os mesmos um pouco por todo o lado, como refere Naomi Klein em \u201cNo Logo\u201d (2000; editora Rel\u00f3gio d\u00b4\u00c1gua). Tudo se tem padronizado. Ritos, estilos de vida, formas de ser e de estar, locais a frequentar e sobretudo sinais e exibir (roupas, sapatos, perfumes, autom\u00f3veis, locais de f\u00e9rias, etc.). At\u00e9 as formas de pensar, nos casos em que ainda sobre tempo para tal, parecem evidenciar alguma padroniza\u00e7\u00e3o, sinal que n\u00e3o deixa de ser inquietante. \u00c9 precisamente a este enquadramento de um certo contexto de formata\u00e7\u00e3o e homogeneiza\u00e7\u00e3o de todos os aspectos das nossas vidas que apelido de \u201cbolha\u201d de pl\u00e1stico, que nos rodeia e que nos vai mantendo como que plastificados, sem que grande parte de n\u00f3s tenha sequer consci\u00eancia deste efeito.<br \/>\nPor outro lado, acresce tamb\u00e9m que o mundo que criamos e que sustentamos \u00e9 tamb\u00e9m ele cada vez mais virtual, no sentido em que temos deixado de contatar directamente com a natureza nas suas formas puras, naturais ou brutas. Os poucos contactos que ainda vamos tendo nas cidades (n\u00e3o esque\u00e7amos que a maioria das popula\u00e7\u00f5es vive nas cidades) s\u00e3o os jardins, ainda assim espa\u00e7os tamb\u00e9m arranjados e produzidos \u00e0 nossa medida. O dedo do homem est\u00e1 cada vez mais um pouco por todo o lado.<br \/>\nTudo isto \u00e9 naturalmente reflexo da nossa capacidade para ajustarmos o mundo e tudo o que nele se encontra em fun\u00e7\u00e3o das nossas necessidades. Se olharmos para o processo evolutivo da humanidade, desde os tempos mais remotos at\u00e9 aos nossos dias, verificaremos que ele se tem desenvolvido sobretudo em torno da busca de solu\u00e7\u00f5es de adapta\u00e7\u00e3o do mundo \u00e0 melhoria do conforto e da qualidade de vida do homem, quer em termos individuais, quer em termos coletivos (do cultural e do social).<br \/>\nEm \u201cA divis\u00e3o do trabalho social\u201d (1984; editorial Presen\u00e7a \u2013 original de 1893), \u00c9mile Durkheim verifica que tem sido a capacidade do homem em segmentar o trabalho nas in\u00fameras actividades especializadas que conhecemos que tem permitido e suportado toda a evolu\u00e7\u00e3o deste modelo de desenvolvimento tecnol\u00f3gico, social, econ\u00f3mico e cultural, de eleva\u00e7\u00e3o dos \u00edndices de conforto e do desenvolvimento dos padr\u00f5es de vida das popula\u00e7\u00f5es.<br \/>\nN\u00e3o se defende que, em si mesmo, este processo seja mau. Bem pelo contr\u00e1rio. Ele tem-se revelado \u00f3ptimo! Apesar das incongru\u00eancias e dos desn\u00edveis que ainda se verificam, e que vamos conhecendo por exemplo atrav\u00e9s da comunica\u00e7\u00e3o social, nunca como no presente o homem teve padr\u00f5es de vida com \u00edndices de qualidade t\u00e3o elevados. Por\u00e9m, e \u00e9 neste ponto que verdadeiramente importa deter a reflex\u00e3o, todo este contexto em que nos encontramos mergulhados aparenta ter um efeito anestesiante sobre a capacidade natural para a resolu\u00e7\u00e3o de novos problemas, designadamente quando estes se tornam verdadeiros desafios, como aparentam ser muitos dos efeitos derivados do contexto de mudan\u00e7a profunda que o mundo atravessa.<br \/>\nEsta ilus\u00e3o de controlo da realidade, alicer\u00e7ada na viv\u00eancia dentro de \u201cbolhas\u201d de pl\u00e1stico, como se referiu, em que todas as nossas necessidades s\u00e3o facilmente supridas por um mercado que as produz (vale a pena referir, a prop\u00f3sito das nossas necessidades e da forma como elas s\u00e3o criadas e mercadejadas, Jos\u00e9 Saramago em \u201cA Caverna\u201d (2000; editorial Caminho: p\u00e1g. 282), quando escreve que \u201cna fachada do Centro, por cima das suas cabe\u00e7as, um novo e gigantesco cartaz proclamava, VENDER-LHE-\u00cdAMOS TUDO QUANTO VOC\u00ca NECESSITASSE SE N\u00c3O PREFER\u00cdSSEMOS QUE VOC\u00ca PRECISASSE DO QUE TEMOS PARA VENDER-LHE\u201d, numa refer\u00eancia cr\u00edtica muito clara \u00e0 exist\u00eancia de uma l\u00f3gica de mercado associada ao processo de integra\u00e7\u00e3o social, ou, de edifica\u00e7\u00e3o da \u201cbolha\u201d, no sentido que temos vindo a descrever) tende a criar uma esp\u00e9cie de armadilha da nossa exist\u00eancia individual, social e cultural, que nos tolda, conferindo a tal no\u00e7\u00e3o ilus\u00f3ria de controlo absoluto sobre tudo o que nos rodeia e que nos deixa mergulhados numa esp\u00e9cie de cegueira, aut\u00eanticos \u201cilusionados\u201d, incapazes de olhar para fora ou para l\u00e1 das paredes da \u201cbolha\u201d, nomeadamente para questionar a pr\u00f3pria realidade, para equacionar hip\u00f3teses de resposta, para imaginar solu\u00e7\u00f5es alternativas, para debater ideias fora deste contexto. A \u201cbolha\u201d tende a limitar a nossa capacidade de pensar fora da caixa - \u201cthinking outside the box\u201d.<br \/>\nTemos de fazer um esfor\u00e7o. As dificuldades resultantes da mudan\u00e7a precipitada do paradigma em que tem assentado o modelo social, econ\u00f3mico e cultural e os problemas que se t\u00eam suscitado carecem que esta \u201cbolha\u201d se quebre, para que voltemos a ter a capacidade de ver mais al\u00e9m e sobretudo de ver com olhos de ver, de questionar, de reequacionar, de debater os novos desafios e as hip\u00f3teses de resposta fora da caixa.<br \/>\nCuriosamente, ou talvez n\u00e3o, toda esta crescente padroniza\u00e7\u00e3o de ritos, ritmos, imagens, expectativas, formas de estar, de pensar e de agir, ocorre num contexto em que cada vez mais se acredita viver em liberdade. Parece de facto verificar-se uma tend\u00eancia para a liberta\u00e7\u00e3o do determinismo biol\u00f3gico na medida em que o controlo e o dom\u00ednio do mundo que nos rodeia, atrav\u00e9s de uma capacidade tecnol\u00f3gica para moldarmos e construirmos os nossos pr\u00f3prios contextos de viv\u00eancia, \u00edndices ou espa\u00e7os de conforto, confere-nos esta no\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio sobre a natureza, o mundo e os diversos riscos que se lhe associam e cria-nos esta perspectiva de liberdade.<br \/>\nPor\u00e9m \u00e9 precisamente esta no\u00e7\u00e3o de liberdade, em si mesma ilus\u00f3ria (por ser muito mais um espa\u00e7o de escolha de entre diversas solu\u00e7\u00f5es que nos s\u00e3o propostas prontas a consumir, do que um espa\u00e7o de inova\u00e7\u00e3o, de busca de novas solu\u00e7\u00f5es), e este \u201cnosso\u201d mundo (o mundo artificial que produzimos e no qual vivemos) que nos v\u00e3o reduzindo as faculdades naturais para pensarmos vias alternativas para os nossos problemas e para as nossas vidas.<br \/>\nTemos de voltar a ser capazes de escapar a gaiolas como esta, como dizem os T\u00e1xi no \u00faltimo verso do mesmo tema que mencion\u00e1mos no in\u00edcio do texto:<br \/>\n\u201cC\u00e3o<br \/>\nTenho uma vida de<br \/>\nC\u00e3o<br \/>\nTodos me dizem que<br \/>\nN\u00e3o<br \/>\nNingu\u00e9m me vai por a ladrar\u201d<\/p>\n<p>P.S. \u2013 Em \u201cCanibais e Reis\u201d, Marvin Haris (1990; Edi\u00e7\u00f5es 70) faz uma an\u00e1lise descritiva do processo evolutivo das grandes culturas da humanidade e dos desafios com que se cruzaram, para verificar que o homem tem sido sempre capaz de encontrar alternativas para os seus problemas. Por\u00e9m, verifica o mesmo autor, o desenho e a adop\u00e7\u00e3o de tais alternativas tende a ocorrer apenas e s\u00f3 quando o modelo em crise j\u00e1 n\u00e3o permite sustentar qualquer aproveitamento.<br \/>\nSe considerarmos esta perspectiva, ent\u00e3o teremos de acreditar que muito provavelmente e apesar de evidenciar fortes sinais de estar em crise e em fim de ciclo, o modelo social, econ\u00f3mico, pol\u00edtico e cultural em que temos vivido ainda n\u00e3o se esgotou. Por outro lado, temos de acreditar tamb\u00e9m que, quando o modelo efectivamente se esgotar, o homem acabar\u00e1 inevitavelmente por encontrar as solu\u00e7\u00f5es alternativas ao pr\u00f3prio modelo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Jo\u00e3o Maia, Vis\u00e3o on line, Em 1981 os TAXI, uma das primeiras bandas rock portuguesas, editavam o seu primeiro disco de originais (TAXI, polygram discos), do qual veio a ficar particularmente conhecido o \u201cChiclete\u201d. 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