{"id":1019,"date":"2011-06-08T00:00:00","date_gmt":"2011-06-08T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=1019"},"modified":"2015-12-04T19:19:14","modified_gmt":"2015-12-04T19:19:14","slug":"baguim-de-alforges-e-a-globalizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=1019","title":{"rendered":"Baguim de Alforges e a globaliza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Carlos Pimenta, <\/strong><\/span><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\" href=\"http:\/\/aeiou.visao.pt\/baguim-de-alforges-e-a-globalizacao=f606770\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2011\/06\/VisaoE125.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>1. \u00c9 fim-de-semana. Enquanto os filhos rebolam na relva e inventam jogos, Alberto e Carla jogaram t\u00e9nis, tomaram duche, descontra\u00edram-se no jacuzzi, vestiram-se, colocaram o gelo no copo de whisky, espraiaram-se no sof\u00e1, lan\u00e7aram um olhar aos filhos, respiraram o ar oxigenado, miraram o lago artificial e, mais ao longe, o verde do campo de golfo.<!--more--><br \/>\n\u2212 Est\u00e1-se bem! Estou feliz com esta nova casa. Espa\u00e7osa, com uma arquitectura \u00fanica, num local apraz\u00edvel, com muito espa\u00e7o e seguran\u00e7a para os mi\u00fados, afastada do bul\u00edcio e t\u00e3o pr\u00f3xima de tudo.<br \/>\nAlberto olhou o rel\u00f3gio, viu os seus \u00faltimos e-mails no iphone e voltou a fixar-se no difuso infinito.<br \/>\n\u2212 Quem conheceu isto, longe de tudo, apenas garantindo a parca sobreviv\u00eancia dos que escarafunchavam estas terras; nunca conseguiria imaginar o para\u00edso em que esta regi\u00e3o se tornou, prosseguiu Carla.<br \/>\n2. Ela nunca conseguiria imaginar, mas Eng. Ricardo conseguiu-o, com maestria. De facto todos aqueles terrenos eram agr\u00edcolas e pouco produtivos. Garantia uma agricultura de sobreviv\u00eancia, dirigida essencialmente para o mercado local e regional. Terras passadas de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, mantidas por apego \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o e ao animismo. O cargo pol\u00edtico que tinha, a trama de rela\u00e7\u00f5es pessoais e empresariais que aquele lhe facultava e a sua sistem\u00e1tica manipula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o permitiram-lhe que fosse tomada uma decis\u00e3o fundamental para o pa\u00eds \u2013 obviamente para o pa\u00eds, logo para todos! \u2212, que mudaria radicalmente aquela regi\u00e3o. Lisboeta de nascimento e cora\u00e7\u00e3o, mais apaixonado pelo poder que pelo amor, nunca se preocupou em saber quais as consequ\u00eancias das decis\u00f5es em curso sobre os habitantes da regi\u00e3o. O \u201cpa\u00eds\u201d e o \u201cdesenvolvimento\u201d s\u00e3o mais importantes que essas minud\u00eancias.<br \/>\nFoi no cumprimento do seu dever a pensar no nosso desenvolvimento que a decis\u00e3o foi tomada. Como em todas as op\u00e7\u00f5es daquele tipo, tudo deveria manter-se confidencial at\u00e9 \u00e0 confirma\u00e7\u00e3o da decis\u00e3o, at\u00e9 \u00e0 plena garantia de que os impactos ambientais, os financiamentos comunit\u00e1rios, os relat\u00f3rios t\u00e9cnicos, o cabimento or\u00e7amental e outras burocracias estivessem resolvidos. Confidencial at\u00e9 ao an\u00fancio p\u00fablico. O Eng. Ricardo estava proibido politica, legal e eticamente de utilizar aquela informa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO Eng. Ricardo gostava do politicamente correcto, mas n\u00e3o era \u201cest\u00fapido\u201d. Defendia o pa\u00eds, mas este tanto o englobava a ele como aos camponeses da regi\u00e3o. Quem tinha tomado a decis\u00e3o correcta que ia alterar a regi\u00e3o de Baguim de Alforges foi essencialmente ele, e n\u00e3o os que l\u00e1 viviam secularmente e que nunca manifestaram empreendorismo, capacidade de alterar a sua situa\u00e7\u00e3o. A bem da na\u00e7\u00e3o sim, mas que tamb\u00e9m o seja a bem dele e n\u00e3o s\u00f3 dos propriet\u00e1rios da regi\u00e3o. Quando o projecto for para frente os terrenos valorizar-se-\u00e3o imenso. Talvez o pre\u00e7o do metro quadrado multiplique por quinhentos ou mil.<br \/>\nResolveu conversar com o Dr. Perestrelo, pessoa de fino trato e grossos capitais, conhecedor da subtileza e temente da lei, propriet\u00e1rio de v\u00e1rias empresas, umas radicadas em Portugal outras em \u201cpra\u00e7as financeiras internacionais\u201d. O jantar correu bem. A mensagem foi passada sem propriamente ter sido dita. O Dr. Perestrelo n\u00e3o se esqueceria dele.<br \/>\n3. A empresa Sonhos &amp; C\u00aa. resolveu comprar todos os terrenos da regi\u00e3o. Terrenos agr\u00edcolas sem grande valor, sem utilidade relevante, mas que serviam para os seus \u201cprojectos loucos\u201d, como se dizia na povoa\u00e7\u00e3o de Baguim. Foi uma opera\u00e7\u00e3o lenta, feita directa ou indirectamente, utilizando v\u00e1rios intermedi\u00e1rios, sem levantar suspei\u00e7\u00e3o, lan\u00e7ando boatos infundados, fazendo aqui e ali press\u00e3o junto de alguns mais renitentes. Muitos j\u00e1 lhe adivinhavam a fal\u00eancia, mas o que interessava \u00e9 que j\u00e1 tinham recebido o seu dinheiro.<br \/>\nE a fal\u00eancia aconteceu. Sonhos &amp; C\u00aa. n\u00e3o superou as suas dificuldades econ\u00f3micas, vendeu os terrenos \u00e0 empresa Beautiful Home, com sede nas Ilhas Virgens Brit\u00e2nicas, na regi\u00e3o das Cara\u00edbas, representada em Portugal por um escrit\u00f3rio de advogados. Porque os terrenos continuavam a n\u00e3o ser urbaniz\u00e1veis e porque as d\u00edvidas aos credores colocavam a empresa Sonhos &amp; C\u00aa. com pouca capacidade de manobra, a transac\u00e7\u00e3o foi realizada por um valor baixo.<br \/>\nBeautiful Home \u00e9 uma empresa essencialmente de capital \u201cportugu\u00eas\u201d (esta tend\u00eancia que continuamos a ter de que o capital tem nacionalidade!), pertencendo a um conjunto de empresas, geridas de forma aut\u00f3noma e com poucas liga\u00e7\u00f5es vis\u00edveis \u00e0 empresa-m\u00e3e, cujo accionista principal \u00e9 um banco.<br \/>\n4. Finalmente o Governo anunciou o conjunto de medidas que v\u00e3o alterar completamente as condi\u00e7\u00f5es de vida em Baguim de Alforges, em toda aquela vasta regi\u00e3o. De regi\u00e3o isolada e agr\u00edcola passar\u00e1 a ser urbana, integrada na Europa e no mundo. Os pre\u00e7os dos terrenos multiplicaram por quatrocentos e a procura de habita\u00e7\u00f5es tender\u00e1 a tornar-se explosiva. A Beautiful Home decidiu fazer um vasto conjunto de urbaniza\u00e7\u00f5es de luxo nos terrenos adquiridos, a que n\u00e3o faltar\u00e1 um lago artificial, um campo de golfo, um conjunto de servi\u00e7os, incluindo assist\u00eancia m\u00e9dica permanente.<br \/>\nContrata a Constru\u00e7\u00f5es &amp; Servi\u00e7os SARL, uma outra empresa do grupo, para coordenar a constru\u00e7\u00e3o, desde o projecto de arquitectura aos acabamentos. Um contrato chave-na-m\u00e3o que exige qualidade e celeridade. Tratando-se de uma empresa do mesmo grupo, partilhando os interesses do mesmo capital haver\u00e1 maior possibilidade de acordar pre\u00e7os de forma a minimizar a carga fiscal de ambas. Melhor, de todas as empresas envolvidas.<br \/>\nConstru\u00e7\u00f5es &amp; Servi\u00e7os subcontrata profissionais liberais e empresas de estudos e constru\u00e7\u00e3o civil para a realiza\u00e7\u00e3o de diversas fases do projecto. O fundamental \u00e9 que cumpram os prazos, que fa\u00e7am o servi\u00e7o com qualidade -- para o garantir estar\u00e3o sempre sob vigil\u00e2ncia. Se utilizam imigrantes ilegais, cumprem ou n\u00e3o os seus compromissos legais, \u00e9 problema que n\u00e3o lhe diz respeito. O que vai constar do seu relat\u00f3rio de responsabilidade social nada tem a ver com isso. Dir\u00e1 respeito \u00e0s condi\u00e7\u00f5es ambientais, \u00e0 melhoria da qualidade de vida das popula\u00e7\u00f5es locais e outras coisas parecidas. Porque haveria de analisar as condi\u00e7\u00f5es de trabalho nas empresas contratadas se tamb\u00e9m n\u00e3o analisa o perfil e integridade dos accionistas, a proveni\u00eancia do dinheiro investido nas ac\u00e7\u00f5es da empresa?<br \/>\n5. Alberto e Carla trataram da compra do seu apartamento com a Jardins de Alforges Lda. Com escrit\u00f3rio em Madrid e sucursal junto do empreendimento, mas cuja sede social se encontra nas Ilhas Caim\u00e3o, conjunto de ilhotas nas Cara\u00edbas, territ\u00f3rio brit\u00e2nico, possuindo provavelmente a maior densidade de empresas por metro quadrado, muitas delas com a dimens\u00e3o de uma caixa de correio. \u00c9 uma das v\u00e1rias empresas a quem Beautiful Home subcontratou a media\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, tendo todas elas em comum s\u00f3cios e capital. Alberto, que acompanhou mais de perto os procedimentos de aquisi\u00e7\u00e3o n\u00e3o teve, contudo, qualquer trabalho adicional.<br \/>\nS\u00f3 sabe que j\u00e1 n\u00e3o p\u00f4de escolher a habita\u00e7\u00e3o que mais lhe agradava, porque j\u00e1 estava vendida e que actualmente todas as resid\u00eancias est\u00e3o ocupadas. O sucesso comercial foi enorme. A crise imobili\u00e1ria \u00e9 uma realidade, mas n\u00e3o o \u00e9 para os complexos habitacionais de grande luxo. Os lucros das empresas envolvidas em alguma fase do empreendimento foram enormes, excep\u00e7\u00e3o feita, como referimos, \u00e0 Sonhos &amp; C\u00aa.<br \/>\n6. Embora \u201camigos amigos, neg\u00f3cios \u00e0 parte\u201d, os \u201camigos s\u00e3o para as ocasi\u00f5es\u201d e estas brotaram da \u201cinconfid\u00eancia\u201d de Eng. Ricardo e de Sonhos &amp; C\u00aa. ter servido de tamp\u00e3o entre a ilegalidade e a legalidade. N\u00e3o \u00e9, pois, de estranhar que Jardins de Alforges Lda e outras empresas que procederam \u00e0 venda do empreendimento, tivessem que pagar \u201cservi\u00e7os intang\u00edveis\u201d \u00e0 Marketing Love, localizada em Gibraltar, \u201cterrit\u00f3rio brit\u00e2nico ultramarino\u201d cravado no sul de Espanha. \u00c9 que o propriet\u00e1rio desta empresa \u201crespons\u00e1vel\u201d pela concep\u00e7\u00e3o da marca, s\u00edmbolos e campanha publicit\u00e1ria \u00e9 o empres\u00e1rio falido da Sonhos &amp; C\u00aa.<br \/>\n\u00c9 aquela empresa que far\u00e1 uma aplica\u00e7\u00e3o financeira de dois milh\u00f5es de d\u00f3lares a favor da conta que Eng. Ricardo tem nas Ilhas Karibati, no Oceano Pac\u00edfico. Estas ilhas est\u00e3o em desaparecimento progressivo devido ao aquecimento global e \u00e0 subida das \u00e1guas dos Oceanos, mas as contas banc\u00e1rias n\u00e3o correm o risco de se afundarem.<br \/>\nTodas as hist\u00f3rias, mesmo quando n\u00e3o come\u00e7am por \u201cera uma vez\u201d comportam os seus ensinamentos. Cada um que os tire deste entrela\u00e7amento entre economia subterr\u00e2nea, economia ilegal e economia oficial, entre procedimentos legais e ilegais. Uma hist\u00f3ria da \u00e9poca da globaliza\u00e7\u00e3o com para\u00edsos (offshores) opacos, e renitentes \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o, espalhados pelo mundo, com intermedia\u00e7\u00f5es e desfasamentos temporais suscept\u00edveis de apagar os tra\u00e7os das ilicitudes. Uma hist\u00f3ria digna da globaliza\u00e7\u00e3o: com empreendores, com internacionaliza\u00e7\u00e3o do capital, com pra\u00e7as financeiras internacionais e outras coisas que tais. Apenas os habitantes seculares de Baguim de Alforges s\u00e3o uma \u201ccarta fora do baralho\u201d, mas por que raz\u00e3o ainda nos dever\u00edamos recordar deles?<br \/>\nCada um que retire as suas li\u00e7\u00f5es de moral. Pela nossa parte apenas deixamos duas perguntas:<br \/>\n\u2022 No 1\u00ba Artigo do Tratado da Uni\u00e3o Europeia afirma-se que o \u201ctratado assinala uma nova etapa no processo de cria\u00e7\u00e3o de uma uni\u00e3o cada vez mais estreita entre os povos da Europa, em que as decis\u00f5es ser\u00e3o tomadas de uma forma t\u00e3o aberta quanto poss\u00edvel e ao n\u00edvel mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel dos cidad\u00e3os\u201d, parte do desejo de \u201caprofundar a solidariedade entre os seus povos, respeitando a sua hist\u00f3ria, cultura e tradi\u00e7\u00f5es\u201d, de garantir o \u201cEstado de direito\u201d. Ser\u00e1 esta bondade de afirma\u00e7\u00f5es compat\u00edvel com a concorr\u00eancia desleal entre pa\u00edses, a falta de transpar\u00eancia e o apoio aos \u201cmais fortes\u201d e manipuladores permitido pelas \u201cpra\u00e7as financeiras internacionais\u201d, as offshores?<br \/>\n\u2022 Muitos sectores da sociedade, perante a dificuldade de se ser (reconhecido como) corrupto em Portugal, t\u00eam defendido uma \u201clei do enriquecimento il\u00edcito\u201d, uma lei que exija que alguns tenham que justificar a origem da sua riqueza, inexplic\u00e1vel perante os rendimentos legalmente usufru\u00eddos. Estamos convencidos que ajudaria a esclarecer algumas situa\u00e7\u00f5es e que n\u00e3o \u00e9 inconstitucional. Contudo n\u00e3o seria, como afirmou Carlos Anjos na Grande Entrevista do R\u00e1dio Clube, um \u201cpresente envenenado\u201d? Que validade efectiva teria uma tal lei com a exist\u00eancia de offshores e liberdade da sua utiliza\u00e7\u00e3o? Que validade efectiva teria sem haver antes a equipara\u00e7\u00e3o do direito de usufruto ao direito de posse? N\u00e3o seria mais uma forma avulsa de combater a corrup\u00e7\u00e3o e similares, sem p\u00f4r em causa o sistema em que aquela se insere?<br \/>\nEra uma vez \u2026<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Pimenta, Vis\u00e3o on line, 1. \u00c9 fim-de-semana. 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