{"id":1015,"date":"2011-05-12T00:00:00","date_gmt":"2011-05-12T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=1015"},"modified":"2015-12-04T19:19:15","modified_gmt":"2015-12-04T19:19:15","slug":"a-auto-fraude","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/obegef.pt\/wordpress\/?p=1015","title":{"rendered":"A &#8220;Auto-Fraude&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\"><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Pedro Santos Moura, <\/strong><\/span><span style=\"color: #d8070f;\"><strong>Vis\u00e3o on line<\/strong><\/span>,<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a style=\"font-size: 0.75rem; line-height: 1.25rem;\" href=\"http:\/\/aeiou.visao.pt\/a-auto-fraude=f602245\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-19 alignleft\" title=\"Liga\u00e7\u00e3o \u00e0 Publica\u00e7\u00e3o\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2009\/01\/go2.png\" alt=\"\" width=\"16\" height=\"16\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2011\/05\/VisaoE121.pdf\" target=\"_blank\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" wp-image-2032 alignleft\" title=\"Ficheiro PDF\" src=\"http:\/\/obegef.pt\/wordpress\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/pdf_button.png\" alt=\"\" width=\"14\" height=\"14\" \/><\/a><\/p>\n<p>\"When the game is over, it all goes back in the box\", John Ortberg<br \/>\nUltimamente tenho sabido de est\u00f3rias no m\u00ednimo curiosas relacionadas com quest\u00f5es de dinheiro entre pais e filhos. Se at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo o caso mais comum seria o do filho que se quedava tardiamente em casa dos pais, com grande parte da sua subsist\u00eancia assegurada por estes, as tais est\u00f3rias que me t\u00eam chegado dizem respeito ao inverso: pais, que devido a um acumular de bens (e correspondentes d\u00edvidas) ao longo dos anos, suportados at\u00e9 agora pelos mecanismos dos cr\u00e9ditos f\u00e1ceis (cr\u00e9dito para pagar cr\u00e9dito para pagar cr\u00e9dito para pagar\u2026) e chegados ao actual instante de crise econ\u00f3mica, se v\u00eam envolvidos num novelo de d\u00edvidas com o qual j\u00e1 n\u00e3o podem pagar ou lidar, sendo em muitos casos os filhos que lhes v\u00eam dar a m\u00e3o. Saber deste fen\u00f3meno deu-me que pensar.<!--more--><br \/>\nQuando falamos de fraude, pensa-se em algo como \u201capropria\u00e7\u00e3o indevida de bens ou vantagens para benef\u00edcio pr\u00f3prio\u201d. Mas subentende-se sempre uma certa no\u00e7\u00e3o temporal de Presente, de actualidade. Ora o que agora se come\u00e7a a ver (por vezes n\u00e3o se v\u00ea o que est\u00e1 diante do nariz) \u00e9 um processo que decorreu ao longo de muito tempo, que sumariamente consistiu na apropria\u00e7\u00e3o generalizada de bens ou vantagens com impacto negativo sobretudo no Futuro. O que dizer de d\u00edvidas que se contraem sem uma real perspectiva de serem saldadas? O que dizer de fundos e bens desbaratados ao longo de d\u00e9cadas, originalmente destinados \u00e0 melhoria estrutural do tecido social e econ\u00f3mico de todo um pa\u00eds, para benef\u00edcio indevido de uns poucos? O que dizer de dinheiro que se empresta sem um valor real associado, dinheiro virtual que passa a ser real quando algu\u00e9m assume uma d\u00edvida relativa ao mesmo?<br \/>\nO caso dos pais suportados pelos filhos n\u00e3o \u00e9 por si um choque. O dever de solidariedade intra-geracional assenta em princ\u00edpios \u00e9ticos b\u00e1sicos de qualquer sociedade. O caso das d\u00edvidas dos pais suportadas pelos filhos \u00e9, esse sim, chocante. No final quem paga n\u00e3o \u00e9 quem usou ou ganhou posse. A Motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 aquela que at\u00e9 agora parece ter sido inquestion\u00e1vel por estes lados: ter mais; n\u00e3o necessariamente melhor, mas mais. A Oportunidade, \u00f3bvia: facilidade de acesso a cr\u00e9dito para tudo e mais alguma coisa. A Racionaliza\u00e7\u00e3o do acto, vem do simples facto de \u2018toda a gente fazer o mesmo\u2019. Parece fraude? Cheira a fraude? Sabe a fraude? Mas n\u00e3o \u00e9 bem fraude, mesmo que encaixe que nem luva na defini\u00e7\u00e3o. Isto porque um comportamento social e culturalmente generalizado e vindicado n\u00e3o \u00e9 considerado um acto il\u00edcito ou marginal. Talvez se devesse abrir um novo campo de estudo: a Auto-fraude, a fraude sobre n\u00f3s mesmos, individual e socialmente, que estudasse estas tipologias algo \u2018masoquistas\u2019 de utiliza\u00e7\u00e3o dos recursos dispon\u00edveis. Fica a sugest\u00e3o.<br \/>\nSinto-me defraudado, enquanto pessoa e cidad\u00e3o. Da\u00ed uma certa perspectiva biliar no que escrevo acima. Custa-me perceber que as minhas filhas v\u00e3o provavelmente viver numa sociedade mais desigual que eu. Custa-me sentir que h\u00e1 uma certa ilus\u00e3o colectiva sobre a realidade, em que todos tentam achar \u2018os culpados\u2019 mas ningu\u00e9m olha realmente para si, para o que se passou e passa a partir de uma perspectiva cr\u00edtica, objectiva, e que pudesse ajudar a refundar alguns tiques culturais que melhorassem a perspectiva colectiva e individual do futuro.<br \/>\nA causa da crise actual \u00e9, em meu entender, sobretudo uma grande Auto-fraude colectiva, assente na desresponsabiliza\u00e7\u00e3o e corrup\u00e7\u00e3o generalizadas. Quisemos simplesmente ter mais (n\u00e3o ser mais ou ter melhor), n\u00e3o interessando os meios ou as consequ\u00eancias que da\u00ed poderiam advir. Acreditou-se piamente no wishful thinking de que \u2018isto \u00e9 sempre a crescer\u2019. E n\u00e3o \u00e9. Estoir\u00e1mos recursos econ\u00f3micos, pessoais, espirituais, culturais e naturais em busca de algo que n\u00e3o se sabe sequer bem o que \u00e9, sem peso, conta ou medida. Acredit\u00e1mos que os recursos s\u00e3o infinitos, assent\u00e1mos a nossa vida numa cultura de desperd\u00edcio, esquecemo-nos das pessoas, de n\u00f3s pr\u00f3prios. Defraudamos as possibilidades de uma vida sustentada e sustent\u00e1vel.<br \/>\nUrge aprender com os erros. E ter consci\u00eancia. A culpa de tudo isto n\u00e3o \u00e9 do \u2018sistema\u2019, ou de uma \u2018conspira\u00e7\u00e3o\u2019, ou do \u2018mercado\u2019, ou do \u2018governo\u2019. \u00c9 de todos. And\u00e1mos durante anos e anos a cometer \u2018Auto-fraude\u2019. A grande mudan\u00e7a n\u00e3o vem de fora ou de cima: vem da mudan\u00e7a de cada um, na sua vida, no seu trabalho, em si pr\u00f3prio.<br \/>\nCostumo dizer quando se fala de combate a fraude (e outros temas): podemos ter o melhor dos sistemas, o mais perfeito, o mais refinado; caso a cultura seja med\u00edocre, o sistema vai falhar. J\u00e1 um sistema com imperfei\u00e7\u00f5es, conjugado com uma boa cultura generalizada \u00e9 garantia quase certa de sucesso.<br \/>\nPorque a quest\u00e3o fulcral de tudo isto n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 \u2018pagar a d\u00edvida\u2019, como algu\u00e9m que foi julgado e condenado a pagar uma multa. As multas pagam-se e muitas vezes o que da\u00ed resulta \u00e9 somente um inimigo, algu\u00e9m mais que culpar. O essencial \u00e9 reperspectivar os nossos valores, a nossa cultura pessoal e colectiva, os nossos objectivos e, sobretudo, os nossos actos. Sobretudo, pararmos com a \u2018Auto-fraude\u2019.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pedro Santos Moura, Vis\u00e3o on line, &#8220;When the game is over, it all goes back in the box&#8221;, John Ortberg Ultimamente tenho sabido de est\u00f3rias no m\u00ednimo curiosas relacionadas com quest\u00f5es de dinheiro entre pais e filhos. 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